O professor de arte e seu legado


Nesse mesmo dia que minha mãe encontrou o álbum de fotos que resultou no post anterior, ela encontrou outro achado jurássico: um retrato meu feito por um querido professor que tive na época do ensino fundamental. Uma arte feita em 2001 pelo professor John, com votos não apenas de um bom natal e bom ano novo, como também para que eu continuasse praticando para que eu me tornasse um desenhista melhor que ele.

John foi meu primeiro professor de artes, isso lá nos anos 1999, quando eu estava na quinta série do ensino fundamental. Aquele homem negro, magrelo, e simpático logo fez amizade comigo, até porque eu era o aluno que melhor sabia desenhar na sala. Eu lembro que nessa primeira docência dele ele pedia pra gente fazer uma pasta de cartolina para entregar os desenhos para ele, e eu justamente na aula que ele fez isso com a sala inteira, acabei ficando doente e tive que faltar, mas ele gentilmente fez para mim uma pasta com o papel cartão que eu tinha levado — e ela andou comigo por todo aquele ano para entrega dos trabalhos.

Embora inevitavelmente sempre tivesse essa hierarquia de aluno e professor na sala, por eu ser uma criança que sabia desenhar, John me tratava como se eu fosse um outro artista, de igual pra igual. Ele opinava, me dava lições mais avançadas do que outros alunos na sala, e isso serviu de base enorme para que eu desenvolvesse meu desenho. Numa sala onde a maioria dos alunos só sabiam fazer um sol sorridente e uma casa quadrada, eu recebia dicas de como melhorar o desenho de rosto, proporções, perspectiva.

Acima de tudo professor John sabia que aquelas lições básicas não eram para mim. E incentivava minhas habilidades artísticas. Não demorou muito para que essa tutelagem também virasse uma grande amizade.

Ele sempre foi uma pessoa muito antenada com tecnologia. Eu lembro que ele me deu aula também em 2001, e naquele ano eu tirava dúvidas dele sobre uma coisa que naquele momento era nova mídia em ascensão: A internet.

Querendo criar um espaço na internet para publicar suas artes, eu cheguei até a dar uma aula pra ele básica de webdesign, explicando um pouquinho de HTML (que eu mal sabia direito), como usar o finado Frontpage, tudo para que ele conseguisse criar a sensação daquele momento: uma página na internet.

E foi nesse mesmo ano de 2001, quando eu já estava na sétima série, ele no final de uma das últimas aulas, já em dezembro, me pediu para eu lhe dar um pedaço de sulfite. Ele pediu pra eu sentar ali na primeira carteira e falou: "Senta aí que vou fazer um retrato seu". E o resultado foi esse.

Embora na época eu não tivesse achado tão parecido, hoje vejo que na verdade está bem parecido mesmo! Eu tinha esse cabelo arrepiado, meus olhos sempre foram grandes e redondos, minhas orelhas tinham esse formato, e meu rosto arredondado da época (eu era uma criança um pouco gordinha).

Ele ainda escreveu um Jingle Bells, e um desejo de feliz natal e próspero ano novo. Mas o que me emocionou quando reencontrei esse desenho foi a dedicatória dele ali no canto: "Obs: continue treinando para ser um desenhista melhor que eu!".

Seria ótimo nos tempos atuais que esse vídeo chegasse até ele, mas infelizmente meu professor John faleceu há alguns anos. Depois que o ano letivo terminou sei que ele continuou dando aula, mas começou a assinar suas artes e divulgá-las cada vez mais na internet. Primeiro as assinava como "SUPERFANTÁSTICO", tudo junto, em maiúsculo, e em letras garrafais. Anos mais tarde começou a assinar como "Boicote".

As artes do Boicote começaram a estampar os muros da periferia de São Paulo, aqui do Jardim São Luiz mais em específico. Buscando no Youtube até cheguei a encontrar o canal do Youtube que ele tinha. Um canal que misturava conteúdo pessoal com artístico dele, havia desde gravações dele grafitando e pintando quadros e stencil, até mesmo vídeos de churrasco com amigos e a filhinha dele.

Até hoje continuo desenhando, mas ainda acho que estou muito longe do que ele foi. Acho que é um daqueles momentos que a gente achava que estava chegando perto do que nosso mestre foi um dia, mas ao ver a quantidade e qualidade das coisas que ele fazia eu só consigo pensar que hoje, talvez ali com a idade que ele tinha naqueles vídeos, ainda me falta muito para chegar no nível dele.

E que bom que esses registros em vídeo dele existem, mesmo depois de sua precoce partida. Infelizmente a gente sabe que pra uma pessoa negra e periférica da cidade de São Paulo a chance de acabar morto é bem maior. E talvez o próprio John seja parte dessa estatística, eu não sei detalhes sobre sua morte. Esse desenho ficou dentro de alguma pasta por todos esses anos, mas por estar repleto da sinceridade desse querido professor, sobreviveu.

É como se eu tivesse aqui um pedacinho da alma dele, com toda a inspiração e votos para que eu me tornasse alguém tão bom quanto ele, acreditando no meu potencial, e apesar dele não estar mais aqui hoje para opinar sobre minha arte, ficou registrado nesse retrato o quanto ele acreditou em mim.

Obrigado por tudo professor John! Em momentos assim eu fico pensando no quanto que acabamos deixando de coisas boas e marcantes nas pessoas que conviveram com a gente. E que mesmo apesar da distância, partida, ou qualquer circunstância da vida que nos faça nos afastar dessas pessoas, nos tornamos presença para sempre por essas marcas que deixamos nelas. E esse retrato guardarei com todo o carinho, por muitos e muitos anos, e continuarei praticando para um dia chegar aos pés do artista que você era em vida.

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