Pensava que não haveria vida sem você, mas hoje vejo que ela existiu.
Aquele parecia ser o último dia de nossas vidas. Pelo menos da vida que conhecíamos até ali. Todos vestindo nossas melhores roupas, aquela cerimônia que era não apenas o fechamento de um ano, mas a formatura antes de entrar no ensino médio. Momentos da vida assim sempre me trouxeram um sentimento de que tudo iria mudar a partir dali, e de facto tudo mudou.
Era um local isolado, e no dia chovia muito. Como se água que caísse do céu estivesse tentando lavar tudo o que havia sido construído para que viesse algo novo. Só não contava que ela viria tão forte assim. A água caía aos montes, quando eu olhava para além da janela parecia uma verdadeira catarata. Os raios também relampejavam ininterruptamente, e não demorou muito para que a força do salão da formatura caísse.
E ficamos ali no escuro por horas. A colação obviamente começou atrasada — não haviam geradores de emergência como existem hoje em dia. Em pleno dezembro era óbvio que cairia muita chuva. Apenas não contávamos que fosse uma tempestade como aquela.
E no meio daquele breu, com mais e mais pessoas chegando, eu lembro que não te vi. Você demorou bastante pra chegar, o trânsito dali era difícil, e no dia da formatura a gente sempre deve gastar um tempo a mais se arrumando. Eu nem sei direito que horas você chegou.
Mas algo no meu coração dizia que ali seria a última vez que te veria.
Se você soubesse, assim como eu, que nunca mais veria a pessoa que mais gostasse, como você lidaria com essa informação?
Pois tudo ali tentava gravar na minha vã memória. Quando a força voltou, e em meio todas aquelas meninas trajando vestidos brancos de gala, e os rapazes de social, camisa branca e gravata, você estava com um vestido que te fazia parecer uma verdadeira fada. Éramos tão magros, pele jovial, na flor da nossa juventude. Quando nossos olhares se cruzavam você sorria para mim, e eu lembro de naquele momento gravar toda aquela sensação, aquele palpitar de coração, a emoção de te ver naquele dia onde você era a mais bela de todas.
Nas cartas de amor que escrevia para você lembro de um trecho onde escrevia que o verdadeiro amor era como estar acorrentado com alguém. Uma corrente forte, indestrutível, mas ao mesmo tempo invisível, que sempre servia de guia para que nossos corações se encontrassem onde quer que fosse. Uma ligação entre duas almas.
Eu era apenas um adolescente, recém saído da puberdade, perdidamente apaixonado. Mas que nunca teve uma chance, por mais que falasse dos meus sentimentos, me declarasse, e tudo mais. Apenas não tive a sorte de ser algo correspondido: para você eu era apenas um bom amigo. E não seria nada mais do que isso.
Foi esses dias fuçando uma caixa velha de sapatos no quartinho de bagunças da casa que encontrei um álbum com fotos que meus pais tiraram nessa formatura. Meus pais obviamente sabiam dos meus sentimentos por você, e tiraram várias fotos onde você aparecia — e claro, não era um álbum apenas de você, haviam muitas fotos minhas também desse dia, óbvio.
Mas eu lembro que teve um momento, onde a música da banda já estava rolando, que eu pedi a câmera e me aproximei de você.
Até hoje eu me pergunto o motivo de eu te ver sempre tão inacessível. Eu te colocava num pedestal de alguém inatingível, alguém que só de conversar já me fazia tremer totalmente, me engasgar, e meu coração querer passar pela goela.
Me lembro que todos os dias voltávamos juntos a pé da escola, não estudávamos na mesma sala, mas nos víamos todos os dias nas aulas de teatro extracurriculares. E apesar de nossas conversas, e a intimidade que estava acontecendo ali, eu tinha vergonha até mesmo de olhar para o seu rosto. Da minha casa até o colégio devia ser uns quinhentos metros, nem isso. Isso em dez minutos a gente faz essa distância tranquilamente. Mas cada passo ali de nós dois juntos era um misto de felicidade por estar ao seu lado, e ao mesmo tempo um passo a menos até o momento de nos despedirmos (eu sempre chegava em casa antes).
Mas a verdade era que eu sabia que eu não te veria mais, nunca mais na vida. Ou pelo menos demoraria muito, muito tempo até que nos encontrássemos de novo. Então movido por esse medo de nunca mais lembrar do seu rosto, do seu sorriso, de toda essa aura de encantamento que você me fazia sentir, empunhando aquela câmera de filme eu me aproximei de você.
— Bianca*, posso tirar uma foto sua?E na hora você disse: "Claro que pode!", e colocou a mão na cintura, inclinou o corpo, e abriu um sorriso de orelha a orelha. Eu, tremendo, nem consegui fazer nenhum ajuste na câmera, apenas coloquei o olho no visor e apertei, com a certeza de que daquela maneira eu a havia imortalizado num filme fotográfico, que mais tarde seria revelado, e eu guardaria isso com todo o carinho do mundo:
Mas como podem ver, a foto saiu bem desfocada**. O flash estava muito forte, enfim, a foto foi um desastre. A data ali ficou gravada: 8 de dezembro de 2002. Tínhamos quartorze anos na época.
A foto foi revelada, eu mudei de escola, perdi contato com todo o grupo de teatro, e nossas vidas seguiram. A pessoa que eu achava que nunca seria substituída, a vida fez de substituir. Mas o frescor de todo aquele amor, tudo aquilo ficou gravado nessa foto, como uma energia invisível, imortal, inexorável.
Quando a encontrei dias atrás eu senti quase que transportado para aquela noite. E lembrei de todas as vezes que meu olhar buscou o teu. Todos os sorrisos que você me deu, todas as trocas de olhares. Lembrei do doce soar da sua voz, lembrei de como você me fazia ficar com as pernas bambas e o coração a mil. Mas também lembrei do momento em que tirei essa foto. E em como, apesar de hoje você estar casada, o tempo ter passado, e o sentimento de amor já ser coisa do passado, eu ainda abrir um sorriso e lembrar de tudo dessa época. E voltar para aquela noite da nossa formatura do ensino fundamental.
A foto poderia estar desfocada, com flash estourado, sem enquadramento, e com esse enorme homem desconhecido de costas ocupando um quarto da foto. Mas quando revi essa imagem, fui transportado para aquele dia, há vinte e três anos, e lembrei de como eu, naquela época, não conseguia imaginar seguir uma vida sem você. Você era a luz de todos os meus dias, a pessoa que eu mais amei até então, a presença que preenchia meu coração de felicidade. Era inimaginável me imaginar sem você de concreto na minha vida.
Porém aqueles dias sem você se tornaram semanas, meses, e anos. Cada um seguiu sua vida, suas lutas, seus romances, derrotas e vitórias. Eu, que nunca imaginei a vida sem você, hoje percebo que existiu sim uma vida sem você.
Há uns oito anos eu encontrei seu perfil numa rede social e te adicionei. Claro que hoje eu não sinto mais nada de romântico por você, o tempo passou, você se casou, mas quando olho para a trajetória da vida, como uma linha do tempo, parece que todo esse amor é uma entidade viva, lá nos idos anos de 2002. Como uma mancha rosa, meio magenta, com uma nota escrita explicando tudo, com vídeos e multimídia que eu acesso através das minhas memórias quando imagino essa linha do tempo. Hoje enxergo ele à distância, mas com reverência e gratidão.
Poder ter vivido isso tudo foi de certa forma algo cheio de doçura e muita dor. Mas ficou por lá. Quando vi essa foto lembrei de tudo — as coisas boas e ruins — e tudo o que fiz foi abrir um sorriso, e agradeci por ter uma memória de algo tão bonito do meu passado que vivi.
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* - Obviamente o nome dela NÃO era Bianca. Troquei o nome aqui para resguardar sua identidade.
** - A foto em si está muito fora de foco, embaçada. Mas ainda assim é possível reconhecer o rosto dela. Por isso eu coloquei um filtro no rosto dela para que não a reconheçam.

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