Nunca mais eu vou poder te abraçar.
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| Retrato da Meg e seu brinquedo favorito. |
Ficou um buraco. É óbvio que dentro de mim eu sabia que a Meg não viveria para sempre. E como eu disse, eu sei que todo dia enquanto ela esteve entre nós aproveitei cada segundo, com muito carinho, beijinhos, e abraços. Mas ainda me ocorre aquele tipo de saudade quando penso que mês passado ela ainda estava aqui.
Esse último mês da Meg não foi nada fácil. Como o hospital público veterinário público da Anclivepa é muito concorrido, foi muito tempo para conseguir a cirurgia. O que não é nenhuma novidade, dado o completo despreparo do prefeito Ricardo Nunes, que tem que desviar tanto dinheiro público, acaba que se mal existe um atendimento médico bom para os humanos, quem dirá os animais. Mesmo esse hospital veterinário tendo ótimos profissionais, a estrutura dele é muito precária, muitas vezes nem cadeira para se sentar no consultório tinha, isso sem contar a ausência também de medicamentos para os pets. Do que adianta a cidade ter tanto dinheiro, se grande parte dele vai desviada pelo prefeito e veradores para beneficiar empresários que pagam suas campanhas?
O tumor na perna da minha cachorrinha cresceu e chegou até mesmo a estourar para fora. Ficou mais ou menos umas quatro ou cinco vezes maior que a pata quando era sadia. Eu nunca tirei foto, eu nem gostava de olhar para aquilo quando tínhamos que fazer curativos — o que eu e minha mãe fazíamos religiosamente no mínimo uma vez por dia — então não tenho nenhum registro do estado em que ficou.
Ataduras, gazes, pomadas cicatrizantes. Mas a dor das feridas estava cada vez mais insustentável pra Meg. Se a gente já fica todo sentido com um arranhão, imagina se tivesse sua perna inteira praticamente em carne viva. Pois foi assim que o negócio piorou, especialmente nas últimas duas semanas antes da cirurgia.
Ainda assim a Meg resistiu bravamente. Mas naquela última semana ela já não tinha apetite. Ficava quietinha, deitada, tremendo. Administrávamos cinco gotas de dipirona e tramadol, isso sem contar outros corticoides mais fortes, como Prednisona. Chegamos até o ponto de meio que "forçar" ela para comer, fazendo papinhas, colocando em saquinhos, e fazendo aquilo de sachê para ir, de pouquinho em pouquinho, fazendo ela comer alguma coisa colocando direto na boca dela.
Os exames nunca indicaram nada. Nem mesmo o câncer tinha dado metástase. Estava localizado ali, era só uma questão se operar. Mas juntou ali elos de uma corrente de problemas, como: a urgência da operação, pois se aquela carne toda desenvolvesse infecção seria muito pior, a enorme fila do hospital veterinário público com tantas urgências como as nossas, e mesmo os exames todos terem indicado que os órgãos dela no geral estavam ótimos, considerando sua idade, os rins não estavam na sua melhor forma. Mas os veterinários disseram que era possível tentar a cirurgia.
Naquele dia da cirurgia minha mãe disse que a Meg estava bem. Acordaram bem cedo, por volta das seis da manhã, e partiram. Eu dei um beijinho e a levei para o carro, onde minha mãe a pegou, e foram de carro com meu pai para o hospital da Anclivepa. Minha mãe disse que no geral ela estava bem, ficou quietinha, chegou até a fazer xixi lá. Mesmo chegando bem cedo, só a chamaram pra cirurgia acho que lá pelas onze da manhã. Só que mesmo o procedimento tendo previsão de término de uma hora, ou uma hora e meia, já havia passado muito mais tempo que isso, e nada de notícias da Meg.
Foi então que os médicos chamaram meus pais, disseram que a pressão e os batimentos cardíacos dela caíram muito ali ao iniciarem a sedação, e então abortaram a cirurgia. Ao entregarem a Meg, que literalmente uivava de dores, os médicos contaram isso tudo e pediram mais um exame para ser feito nela, para decidirem que tipo de anestesia seria usada, e que não era caso de eutanásia — pois o tumor estava isolado, sem metástase, e no geral ela estava boa de saúde.
Só que o hospital veterinário ali é tão precário por falta de repasses do poder público, que nem mesmo um analgésico deram ali para a minha cachorrinha. De acordo com minha mãe ela veio uivando de dor no caminho inteiro de volta pra casa, onde os veterinários indicaram que déssemos dipirona e tramadol ao chegar em casa.
Quando Meg chegou eu fiquei desesperado quando a ouvi uivando de dor daquele jeito. Eu a peguei no colo e a acolhi no meu abraço. Levei ela pra sala e a deitei sobre minha barriga. Achávamos que tinham mexido algo na patinha dela, mas quando abrimos o curativo vimos que ele estava exatamente como deixamos. Achávamos que pudesse ser o ouvido dela — que ela tinha uma infecção crônica ali que todo dia me obrigava a fazer limpeza da secreção que saía de lá — mas quando limpei os uivos de dor não cessaram.
Possivelmente eram os rins que estavam comprometidos. Nem mesmo em pé ela conseguia ficar. Talvez estivessem entrando em falência ali por conta dos sedativos na hora da cirurgia.
Mas ainda assim ela se acalmou. A dor era tão grande que a língua dela estava pra fora da boca, mas já tínhamos conseguido colocar dentro, e ela dormiu aquela noite no colo da minha mãe. Quando acordei e desci as escadas no dia seguinte, Meg estava deitada no sofá. E meu pai, com a voz toda embargada, disse:
— Filho, a Meg essa noite partiu e virou uma estrelinha.
Quando levantei o cobertor sobre seu corpo e vi ali a cachorrinha que tanto amei, de início não chorei. O choque ainda estava muito recente, mas eu sabia que não aguentaria muito tempo. Aquela manhã foi como uma despedida. Me aproximei dela e fechei seus olhinhos. A última vez que minha amada branquinha tomaria café-da-manhã do meu lado, que eu só tive forças para bater um iogurte com leite.
Ela tinha um cheirinho tão gostoso. Aquele aroma me confortava. Estirada ali do meu lado fiquei pensando em todo o sofrimento que ela passou não apenas naquela última semana, mas no último dia. Queria ter feito mais, mas estava longe da minha capacidade. Na manhã anterior passei horas no meu altar fazendo todo tipo de oração, meditações, e recitação de mantras para que ocorresse tudo bem.
Mas ainda assim Meg partiu naquela madrugada do dia 25, dormindo nos braços da minha mãe.
A cirurgia dela antes seria no dia 5 de maio — por coincidência era a mesma data em que ela, há exatos quinze anos, estava nascendo em 2011. Mas ela não conseguiu viver até esse dia. Para manter sua memória, peguei os melhores vídeos e fotos que tinha dela, e fiz um vídeo, com excertos do último texto, o Adeus, Meg:
Nele, com autorização do canal Claudia Gonçalves no Youtube, usei uma versão de "Coração", um famoso forró cantado por diversos intérpretes, como Aviões do Forró, Dorgival Dantas, João Gomes, só que versão piano. Essa música atualmente está na trilha sonora da novela das seis. E eu estava ouvindo enquanto a Meg estava ali naquele último dia no meu colo.
Existe nela um trecho específico que resume bem meu pensamento de desolação do dia seguinte, quando minha cachorrinha partiu:
"Nunca mais eu vou provar do teu carinho
Nunca mais eu vou poder te abraçar
Ou será que vou viver melhor sozinho
E se for mais fácil pra me perdoar"
Nunca mais, Meg. Nunca mais provar seu carinho, ou te abraçar. Só ficarão as memórias.
Como é difícil, cara.
A saudade pesa demais nessa ausência. Te amo pra sempre, meu amor.

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