sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Amber #91 - Jantar em Maanshan.

11 de novembro de 1939
20h05

Já era noite, e já estava bem frio. Com a picape estacionada em uma casa, Tsai e seu pelotão, acompanhada de Schultz, Eunmi e Yamada, foram recebidos por membros da resistência chinesa. Era uma casa grande, um sobrado com um comércio no térreo, mas que ficou pequena ao receber tanta gente assim. Faltava pouco para chegar em Nanquim, e seria perigoso viajar naquela hora da noite com tantos japoneses à espreita.

“Boa noite, senhor Song”, disse Tsai, tomando a frente, “Creio que o senhor tenha recebido o pedido do escritório do Generalíssimo dizendo que precisávamos de um lugar para passar a noite. Por favor, pedimos sua ajuda pra nos hospedar essa noite, partiremos logo pela manhã”.

A casa tinha quatro andares. O térreo era usado como loja, mas Schultz não conseguiu ver direito o que exatamente se vendia ali. As ruas daquela vila operária a noite não pareciam exatamente amistosas. Eram quietas e um vento gélido cruzava as vielas, dando um ar ainda mais solitário para o local.

“Claro, oficial Tsai”, disse Song, “Temos alguns quartos vazios no segundo andar. Não terá muito conforto, mas logo de manhã vão tomar o rumo, certo?”.

Tsai confirmou com a cabeça, e fez uma reverência, que foi seguida por todos.

“Sim, pela manhã estamos partindo. Muito obrigada, senhor”, disse Tsai, se erguendo depois da reverência, “Amanhã iremos para Nanquim. É praticamente aqui do lado. Não chegamos lá por conta dos perigos da noite. O exército japonês está atrás da gente”.

“Tudo bem, por favor, entrem. Estamos jantando, temos um pouco de sopa. Vou pedir para minha esposa preparar a mesa, fiquem a vontade”, disse o senhor Song, e depois todos entraram na casa.

No térreo era possível ver os acessos da loja do senhor Song, e uma escada que levava para o primeiro andar. A porta da cozinha estava aberta e um delicioso cheiro do ensopado reinava no local. Era um lar humilde, mas bem aconchegante. Subindo mais um andar, a irmã do senhor Song estava terminando de preparar os quartos, trazendo cobertores e lençóis limpos e os colocando em cima das camas.

“Por favor, fiquem à vontade”, disse a irmã do senhor Song, fazendo uma reverência e descendo as escadas.

Tsai foi na frente, seguida por Eunmi, Yamada, Ho, e Chen. Schultz, logo atrás de Chen, como um cavalheiro, pediu para Li e Chou irem na frente. Distraído reparando na bunda delas, não percebeu quando Li mexeu em algo que estava em cima de um criado mudo. Apenas ouviu o som. Parecia um porta-retratos.

“Vou virar essa merda senão vou acabar é tendo pesadelos”, disse Li, seguindo para seu quarto pra deixar as coisas. Chou ficou para trás e Schultz ficou observando sem entender direito o que havia acontecido ali. Chou pegou o porta-retratos e o colocou de volta na posição em que estava, sem dizer nada. Pela sua expressão era esperado esse comportamento da Li.

Ao se aproximar do porta-retratos, Schultz viu que se tratava de um retrato. Era um homem chinês, com um rosto bem arredondado, uma testa alta, que talvez indicava que eram os primeiros sintomas de calvície. Seu cabelo preto penteado pra trás tinha um estilo extremamente brega. E ele vestia um macacão de trabalho, que o deixava ainda mais gordo dentro daquela roupa.

“Quem é esse rechonchudo?”, perguntou Schultz. Chou nessa hora o encarou, como se aquilo fosse um insulto pessoal contra ela. Apesar de Schultz ser muito próximo dela, nunca a tinha visto assim antes. Ele arregalou os olhos e ficou completamente confuso com a expressão de Chou.

“É o senhor Mao! Senhor Mao Tsé-tung!”, disse Chou, depois de alguns segundos que ficou encarando Schultz sem acreditar que ele não conhecia o rosto do seu líder.

“Ah, então é esse o tal comunista chefe daqui? Puxa. Ele parece bem gordinho pra ser um comunista”, brincou Schultz, mas Chou deixou o porta-retratos no local que estava e virou as costas pra Schultz, indo até o quarto. Schultz foi correndo atrás dela, se desculpando: “Ei, Chou, peraí! Eu não sabia que você ia ficar assim! Espera!!”.

Ao chegar no quarto Chou tirou sua pesada mochila e deixou junto da sua Fedorov num canto. Ainda sem nem olhar pra Schultz se sentou na cama, abrindo um caderninho e o folheando, ainda ignorando completamente Schultz na sua frente.

“Ok, me desculpa! Eu não sabia que você admirava ele. Vai dizer que você é comunista também?”, perguntou Schultz. Nessa hora Chou enfim voltou o olhar para o alemão, mas ainda mantinha o ar de incredulidade.

“É claro que eu sou! O que você pensou que eu era?”, respondeu Chou, rispidamente. Schultz nessa hora colocou a mão na testa, era ele quem não acreditava agora.

“Não, espera aí, quem mais é comunista? A Tsai também? Mas ela é tão próxima do Chiang Kai-shek!”, perguntou Schultz, ainda surpreso.

“Ah, senta aí, Schultz. Vai, anda logo”, disse Chou, pedindo pra ele ir pra uma cadeira. Chou pegou uma caneta e escreveu o nome de todos do pelotão nele, “Isso talvez seja estranho de entender, mas a China, desde que o Império caiu e virou república, mergulhou numa guerra civil. E um povo dividido, é facilmente conquistado. Acho que é por isso que estamos levando essa surra dos japoneses nessa guerra”, explicou Chou.

“Eu ouvi mesmo falar disso. A China ficou na mão dos senhores de guerra depois que a dinastia Qing foi pro saco. O país inteiro que era imenso foi dividido”, respondeu Schultz, completando com o conhecimento que tinha. Chou confirmou com a cabeça e prosseguiu na explicação:

“A União Soviética deu uma força tanto para Comunistas quanto pra Nacionalistas, e o país desde então está dividido. Não agora na mão dos senhores de guerra, mas entre duas ideologias. O problema é que o Japão aproveitou esse clima político e essa desordem pública para atacar e dominar o país, foi aí então que as duas forças deram uma trégua na guerra civil para enfrentar o inimigo comum. Se perdermos a China para os japoneses, não teremos um país. Mas poderemos lutar pela nossa ideologia se tivermos um país depois que a guerra terminar”, explicou Chou, finalizando: “Nacionalistas adoram dizer que os japoneses são uma doença de pele, e que nós, comunistas, somos uma doença do coração”.

“Entendi. Nossa, eu estou há semanas com vocês e só agora me contam isso?”, perguntou Schultz, “Mas a Tsai sabe que você é do lado vermelho?”.

“Claro que sabe. Ironicamente ou não, nosso pelotão parece refletir o quão dividida está a sociedade chinesa agora. Olha só isso...”, disse Chou, mostrando o caderno. Em uma folha ela escreveu o nome de todos do pelotão. Com uma caneta ela foi colocando mais anotações, conforme ia explicando, “Tsai é nacionalista, eu sou comunista, como você sabe. Chen é nacionalista, Ho é comunista, Huang também é comunista e a Li é nacionalista”.

Schultz estava boquiaberto.

“Rapaz, e mesmo assim vocês conseguem trabalhar juntos! Imagino que discutir política é algo estritamente proibido entre vocês”, disse Schultz.

“Que nada. De vez em quando temos lá nossas discussões. Mas nem por isso vou deixar de acreditar no comunismo. É a única solução. Pro mundo inteiro”, disse Chou. Schultz ficou a observando, e ela parecia ser uma pessoa realmente que veste a camisa e defende os ideais. Dava um pouco de medo e ao mesmo admiração de conhecer esse lado dela, que mesmo ela dizendo ser tão natural, Schultz não fazia a mínima ideia disso.

“Você realmente acredita no comunismo?”, perguntou Schultz, tentando entender o que se passava na cabeça de Chou. Mas ao invés de expressar raiva, como foi no caso da confusão com a foto de Mao Tsé-tung, o rosto de Chou estava preenchido de um sentimento de certeza, como se isso fosse a coisa mais óbvia do mundo.

“Mas é claro que eu acredito. É justiça social, é igualdade, todos unidos por meio de um Estado que gere e nos dá tudo o que precisamos. Como uma grande mãe que sabe fazer justiça com os filhos”, disse Chou, com uma pontinha de orgulho que ela não conseguiu suprimir.

“Certo. Acredito que saiba que existem políticos corruptos no capitalismo, por exemplo. Acha que não existem comunistas corruptos, por mais que eles digam que defendem os pobres?”, perguntou Schultz, tentando ao mesmo tempo entende-la de certa forma.

“Se o povo o colocou lá, ele colherá tudo o que o povo colherá também. É nesse tipo de justiça social que a gente tem que acreditar”, respondeu Chou, altivamente.

“Mesmo que isso signifique acabar com a liberdade?”, provocou novamente Schultz. Mas nessa hora Chou, que talvez estaria de frente de um ponto que não saberia o que responder corretamente deu a resposta que talvez passe na cabeça de todas as pessoas da época que defendiam o lado vermelho:

“E quem garante que somos realmente livres, Schultz? Acha que existe realmente liberdade no capitalismo? Se for pra sacrificar isso pra ter igualdade entre todos, acho um preço pequeno pelo quanto de benefício que uma sociedade pode ter se adotar ser plenamente comunista, como a União Soviética de Stalin”, concluiu Chou. Eles ainda ficaram um tempinho discutindo, mas Schultz queria mais entender o que se passava na cabeça dela do que necessariamente querendo mudar a ideologia da garota. Depois de alguns minutos enfim eles foram para a sala de jantar, onde todos já estavam esperando.

Na mesa não cabiam todos, apesar de ser grande. Tinha apenas seis lugares, o que significava que o resto deveria comer nas cadeiras espalhadas pelo cômodo. Yamada apenas pegou alguns tangbao, uma espécie de bolinho chinês, em um pote e levou pro seu quarto, pois estava com sono. Tsai, o casal Song, Schultz, Chou, Eunmi se sentaram na mesa. A irmã do senhor Song, Li, Ho e Chen se sentaram em cadeiras, pegando seus hashis, prontos para comer os deliciosos tangbao que a família Song havia preparado.

“A sopa vai ser servida depois. Por favor, fiquem à vontade”, disse a senhora Song. Schultz, curioso, pegou um tangbao. Parecia um pouco o baozi, um pão chinês em forma de “gota”, extremamente fofinho pois é cozido no vapor e tem porco moído de recheio com repolho. Porém a massa do tangbao é super fina, e além de ter carne suína dentro, havia um saboroso líquido quentinho dentro. Ajudava a espantar o frio.

“Uau. Isso é muito bom!”, disse Schultz, pegando um segundo para comer.

“Cuidado pra não sujar a roupa com o líquido dentro! Tá quente!”, advertiu Chou. Tsai e o senhor Song pegaram um logo em seguida. Estavam conversando amigavelmente, e Schultz ficou pensando se ele sabia que Tsai não era nem um pouco comunista. Mas preferiu ficar quieto, apenas ouvindo o que diziam.

“Escuta, desculpa interromper, mas o que significa cada um dos codinomes do pelotão, Tsai?”, perguntou Eunmi, interrompendo a conversa entre Tsai e o senhor Song, “Eu lembro de Meihua. Parece muito em coreano, pois a gente fala ‘maehwa’, a flor-de-umê. Você me disse que era esse o significado, mas e os outros?”.

“Exato, coreana”, disse Tsai, voltando o olhar para Eunmi, “Eu, como você sabe, me chamam de Gongzhu. A Chou é a ‘Juhua’, é como chamamos o crisântemo em chinês. Chen e Ho são ‘Yongqi’ e ‘Yaosai’, respectivamente”.

“Entendi. Yongqi eu sei que é ‘coragem’. Mas a Ho é Yao-o-quê mesmo?”, perguntou Schultz.

“Fortaleza?”, perguntou Eunmi. Tsai confirmou com a cabeça, “Soa também parecido com o que falamos em coreano”.

“Bem bolado! Não conheço exatamente todos, mas os codinomes acho que combinam com as personalidades!”, disse Schultz, se virando para todos. Depois ele olhou novamente para Tsai, “Incluindo o seu, princesa!”.

Tsai apenas confirmou com a cabeça. Por um momento achou que havia sentido algo, como uma palpitada no coração com a empolgação de Schultz, mas voltou seu olhar para o tangbao. O silêncio então perdurou, no fundo todos ficaram meio confusos se aquilo era um elogio ou uma cantada por parte de Schultz.

“Faltou o do Huang, Gongzhu”, disse Chou.

Tsai olhou para Chou, mas não respondeu de imediato. Estava séria quando ouviu a pergunta, no fundo do seu coração não entendia essa confusão que rolava dentro do seu peito. Tudo parecia estar superado. Tudo parecia ser passado. Mas nesse momento ela simplesmente travou. Quando abriu a boca pra enfim falar, deixando de lado esses sentimentos estranhos, Li do outro lado da sala de jantar, sentada numa cadeira junto de Chen e Ho respondeu:

“O Huang é ‘wangzi’, Schultz”, disse Li.

“Wangzi... Wangzi... Wangzi...”, ficou pensando Schultz, tentando achar os caracteres chineses na cabeça, ou se conhecia essa palavra. Várias palavras que soavam similar apareciam na sua cabeça, mas não sabia exatamente o que significava. Nessas horas ele via o quanto ainda precisava se esforçar em aprender chinês de uma vez por todas, “Quais os caracteres chineses? Não tenho ideia do significado”.

Mas ninguém respondeu. Todos ficaram olhando seus pratos, como se aquilo fosse meio constrangedor. Schultz não conseguia entender.

“Wangja em coreano significa ‘príncipe’”, disse Eunmi, quebrando o silêncio, “Não sei se é igual ao ‘wangzi’, mas se for mesmo, talvez combine, já que você é a Gongzhu”.

“Uau. Verdade, Tsai?”, perguntou Schultz para Tsai, que confirmou, para o espanto de Schultz, “Princesa e príncipe. Baita coincidência!”.

Por mais que Schultz tentasse disfarçar, seu coração estava palpitando. Uma estranha palpitação de dor. Muitas coisas passaram pela sua cabeça, mas a principal era: será que isso não era uma coincidência? Será que isso foi escolhido pois havia algo entre eles? E se ainda houvesse algo? Por mais que segurasse os hashis pra comer, tentava ao máximo disfarçar o nervosismo e a ansiedade que se passava dentro do turbilhão de emoções que acontecia dentro de si. Schultz estava tremendo. O que era isso? Schultz pensava que os dois nem estavam juntos nem nada, mas uma dor estranha, de como se pudesse perde-la, dominou sua mente o deixando extremamente ansioso.

E o jantar prosseguiu. Todos terminaram suas refeições, continuaram conversando, mas o assunto sobre Huang não voltou. Teve um momento até que a discussão foi pro lado da política, mas parecia que Tsai era a grande apaziguadora. Ela não defendia totalmente os nacionalistas, mas também não condenava os comunistas. Schultz viu como ela era importante e decisiva até num momento desses, criando harmonia até no meio de uma discussão política. O casal Song eram um pouco fechados, mas nos poucos detalhes se mostraram ótimos anfitriões. Tipo dessas pessoas que a gente só cruza uma vez na vida, mas que de alguma forma deixam uma boa memória. Só faltou Yamada mesmo, que naquele momento já devia estar no quarto dormindo.

Depois da janta todos estavam se preparando para dormir. Schultz voltou para o quarto, que ele dividiria com Yamada. Ao abrir a porta viu que o japonês não estava lá.

Estranho. Onde é que esse japonês foi se meter?, pensou Schultz, que ao virar pro lado viu Yamada subindo.

“Ah, desculpa senhor Schultz. Desci pra fumar um cigarro”, disse Yamada. De fato ele estava com cheiro de cigarro, então parecia realmente verdade, “Vou me deitar agora, com licença”.

“Claro! Fica a vontade, japonês!”, disse Schultz, abrindo a porta. Yamada parecia calado, até um pouco triste. Querendo levar um pouco de humor pro nipônico, Schultz perguntou algo a ele: “E aí, muito movimento na rua?”.

“Ah, na verdade a rua está deserta. É. Não havia ninguém”, disse Yamada, confirmando com a cabeça e olhando pro lado, “Bom, se permite vou me deitar agora, senhor Schultz. Boa noite”.

“Tudo bem, boa noite, Yamada-san!”, disse Schultz, se despedindo do japonês. Era um jovem muito atrapalhado, e Schultz não conseguia ver ele tramando nada de ruim. Talvez era apenas a timidez dele. Nesse momento Schultz viu Chou vindo no corredor, e fez um gesto para lhe chamar a atenção, “Ei, Chou, chega mais! Vem aqui!”.

“O que foi agora? Outra pereba na sua rola?”, perguntou Chou, com cara de sono.

“Não, é que uma coisa não me saiu da cabeça o jantar todo!”, disse Schultz, enfim fazendo a pergunta que o estava deixando ansioso, “Não é coincidência os codinomes da Tsai e do Huang serem Gongzhu e Wangzi, certo?”.

“Ah, é isso?”, disse Chou, que havia percebido no jantar o quanto o amigo estava ansioso, “Sim, os dois já ficaram juntos”.

“Ficar junto? Como assim? Só se pegaram, namoraram, noivaram, casaram? O quê exatamente?”, perguntou Schultz, num tom ligeiramente afobado que até Chou meio que estranhou.

“Já faz um tempo”, iniciou Chou, “Mas sim, os dois há um bom tempo já foram...”.

“Chou?”, disse Tsai, ao cruzar o corredor e ouvir a conversa. Chou se assustou, não imaginava que a Gongzhu apareceria naquele momento. Ao se virar, com medo de Tsai estar com uma cara furiosa, ficou surpresa ao ver que na verdade ela estava com uma expressão serena e plácida. Parecia até um pouco decepcionada olhando pra Chou, o que a fez se sentir ainda pior do que se fosse ouvir um sermão da chinesa, que ao se aproximar de Chou disse: “Por favor, não gostaria que falasse sobre minha relação com o Huang. Eu sei que você deve estar curioso também, Schultz, mas por gentileza, gostaria que evitassem eventuais fofocas. É um favor que peço. Não apenas por mim, mas pelo Huang também, que provavelmente agora está sofrendo muito na mão dos japoneses”.

“Entendi, Gongzhu”, disse Chou, fazendo uma reverência, baixando a cabeça, “Sinto muito pelo inconveniente”. Nessa hora Tsai colocou a mão nos ombros de Chou gentilmente e a ergueu da sua reverência, como se dissesse sem palavras que não era necessário tal formalidade. Terminou dando um tapinha gentil no ombro da sua amiga.

Tsai seguiu para o seu quarto, passando na frente de Chou, que já estava com a cabeça erguida, mas ainda encabulada por ter decepcionado sua líder. Schultz estava do lado dela, e ao chegar na sua frente, Tsai parou e se voltou para ele. Os dois trocaram um olhar, e foi Schultz quem puxou assunto:

“Ah, perdão, princesa. A Chou não tem nada a ver com isso, eu é que estava curioso. Se tiver alguém que tem que pedir desculpas, sou eu”, disse Schultz, também fazendo uma reverência pra Tsai, mas bem menor que Chou, apenas baixando levemente a cabeça.

“Não tem problema. Não ache que estou querendo esconder algo, não é nada disso. Apenas acho que talvez existam coisas que devem ser reveladas na hora e ocasião corretas. Fico feliz em ver que você respeita minha decisão”, disse a Gongzhu, dessa vez ela fez uma reverência a Schultz, baixando a cabeça em forma de gratidão, “Muito obrigada por respeitar, e muito obrigada por compreender, Schultz”.

E novamente Tsai se mostrava alguém muito além do que qualquer pessoa normal seria. Talvez uma pessoa ficaria extremamente furiosa ao flagrar pessoas fofocando sobre ela, mas Tsai no final terminou até agradecendo pela compreensão e respeito, algo inimaginável se fosse uma pessoa comum. Cada vez mais esses momentos iam cultivando um imenso respeito e admiração por Tsai que iam cada vez mais e mais longe.

O que será que aconteceu para que ela se tornasse uma pessoa assim tão ímpar?

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Amber #90 - 中国の姫 (Chugoku-no-hime)

“Hã? Do que ele te chamou?”, perguntou Schultz para Tsai, enquanto ela puxava pelo colarinho o japonês, que era arrastado sem problemas por ela.

“Por favor, não me mata!! Eu sou apenas um tradutor! Eu nunca peguei numa arma sequer!”, implorava o japonês, chorando e completamente em pânico enquanto era arrastado no chão sendo levado por Tsai. Ao se aproximar do local onde todos os outros membros do pelotão estava, Tsai tomou um impulso e o jogou na frente de todos, que já estavam se reunindo lá em cima, perto do casarão, “Não me mata, por favor! Meu lugar não é no exército! Eu só queria estudar, eu não queria pegar em armas nem nada e...”.

“Quieto”, disse Tsai, numa voz baixa, mas incrivelmente nítida. Por alguns segundos o japonês ficou quieto, mas logo seu rosto começou a se entristecer de maneira tão forte que parecia até distorcido: olhos fechados, boca se abrindo, lágrimas, catarro, tudo. Sem controle sobre suas emoções, o japonês abriu o berreiro: chorava igual uma criança, tentando segurar os gritos, soluçando. Era uma cena realmente deprimente para quem via de fora, mas apenas o nipônico sabia o tamanho do pânico que sentia. Tsai meio que o ignorou e se virou para Chou para ir buscar algo, “Escuta, preciso que me traga aquela foto de todos nós juntos, que tem o Huang nela. Está no meu escritório, em cima da mesa, por favor”.

“É pra já, Gongzhu!”, disse Chou, se dirigindo até o casarão.

“Calma aí japonês, a gente não vai te matar!”, disse Schultz, se virando para o japonês. Ele ao ouvir do nada parou de chorar, como se uma esperança houvesse brotado. Mas nesse momento Schultz lembrou que o último que teria alguma voz de decisão lá era ele, e que se alguém tinha o direito sobre a escolha de vida ou morte do japonês era Tsai. Ele então se virou pra ela, com um sorriso amarelo, dizendo: “Ou a gente vai? Poxa, olha o estado do cara! Não tem como não ter dó vendo essa carinha!”, ao dizer isso Schultz apontou para o seu rosto, e o japonês, embora ainda estivesse com os olhos vermelhos, o nariz cheio daquela gosma verde, o rosto vermelho e com a face toda em pânico, tentava fixar os olhos na Gongzhu, como se pedisse por clemência por meio do olhar de cão arrependido.

“Tudo bem. Fique calmo. Não pretendemos te matar”, disse Tsai, e nessa hora o japonês parecia novamente a derrubar lágrimas, mas dessa vez com um sorriso de alívio no rosto. Ele tentou engatinhar até as pernas de Tsai para abraça-la, mas ela no último momento desviou e ele caiu de cara no chão, tropeçando, “Precisamos na verdade de algumas informações. Você pode ser útil para que consigamos encontrar uma pessoa que foi raptada pelo exército japonês”.

Chou enfim chegou com a foto emoldurada e um copo de água para o japonês. Entregou para a Gongzhu e depois foi levar o copo até o japonês.

“Aqui, pode beber isso. É apenas água, você vai se acalmar”, disse Chou, entregando o copo d’água pro japonês. Ele bebeu aquela água apreciando cada gole. Sentia que cada gota descia pelo sua goela, refrescante, a melhor água que ele havia tomado até então. Uma água com o sabor de saber que sua vida não acabaria naquele momento. Uma gratidão por algo tão simples que ele jamais pensou que sentiria.

“Pode começar pelo seu nome, camarada”, disse Schultz, em chinês, para o japonês.

“Y-Yamada”, respondeu o japonês, entregando o copo de volta para Chou, “Yamada Koichi”.

“Ei, princesa! No Japão eles invertem a ordem do nome e sobrenome também, né?”, perguntou Schultz para Tsai. Ela confirmou com a cabeça, mantendo o olhar pousado em Yamada, “Certo. Koichi Yamada. Mas vocês aqui preferem sempre serem chamados pelo sobrenome, certo?”.

“Sim, senhor. Pode me chamar apenas de Yamada”, respondeu o japonês, fazendo uma reverência, baixando a cabeça. Ele ainda estava sentado no chão, e todos os outros estavam em pé ainda o encarando.

“Eu sou Schultz. Ludwig Schultz, sou alemão, muito prazer”, se apresentou Schultz. Então ele foi apontando para cada uma das pessoas e dizendo seus nomes, “Essa aqui é a batedora, Li. Aquela fortona ali é a Ho. O baixinho com a dinamite é o Chen. Aquela te trouxe água é a Chou. Aquela ali no fundo é a nossa coreana favorita, a Eunmi, Ri Eunmi...”.

“Coreana? A Coréia é parte do Japão”, disse Yamada, mas Eunmi ao ouvir isso ficou extremamente ofendida. Ela então chegou perto e deu um tapa no rosto de Yamada. Nesse momento Schultz a segurou, enquanto Yamada estava com a cara no chão, novamente com os olhos cheios de lágrimas. Eunmi queria voltar lá e bater ainda mais no japonês, mas Schultz a segurou e a estava levando para outro lugar.

“Seu japonês filho duma puta!! Vocês todos são uns lixos, não valem a merda que vocês cagam, seus desgraçados!!”, gritava Eunmi, enquanto Schultz a tentava acalmar, “Me solta, Schultz!! A Coréia nunca foi parte do seu país de merda! Vocês acabaram com minha casa, minha vida, minha família!! Bandidos!!”.

“Chega, Eunmi, por favor”, disse Tsai, calmamente. Mesmo no meio daquele esforço em se desvencilhar de Schultz ela pôde ouvir claramente a ordem da Gongzhu: “Emoções são importantes, mas use-as com sabedoria, e no momento correto. Usar sua energia para descontar sua raiva pessoa contra um soldado que mal deve ter chegado na maioridade não vai mudar nada, nem vingar ninguém. Por gentileza, se acalme”.

Yamada ficou abismado. Tsai tinha tanta fama no Japão que vê-la ali na sua frente era quase como um encontro com uma verdadeira divindade. Ela era bem mais alta, e bem mais bonita do que ele jamais poderia imaginar. E sua voz, apesar de bem feminina, mostrava uma autoridade conseguia transmitir admiração, e não medo, como ele estava acostumado com as autoridades japonesas. A voz da Gongzhu parecia transmitir um imenso respeito. Não apenas pela sua educação e cordialidade, mas pela sua inteligência e determinação.

“Obrigado, Chugoku-no-hime”, disse Yamada, baixando a cabeça, “Eu nunca imaginei que essa missão seria justamente contra alguém como a senhora. Todos do exército japonês falam muito da senhora”.

Tsai apenas ouvia, com uma expressão calma. Ela já tinha ouvido falar que os japoneses sabiam quem era ela, mas não sabia que a fama era tanta quanto o que Yamada dizia. Schultz, ainda confuso, tomou a frente para tirar uma dúvida que o estava matando de curiosidade:

“Yamada, o que significa isso que você chamou a Tsai? Chugo-o-quê?”.

“Chugoku-no-hime. É como as forças armadas do Império Japonês a chamam”, explicou Yamada, olhando para Schultz, “Ela é muito temida por aqueles lados, não apenas por ser uma excelente combatente, mas também pela excelente equipe dela”, nessa hora o japonês virou seu olhar para Tsai, que pela sua expressão parecia saber exatamente do que ele estava falndo, “Em japonês, ‘chugoku-no-hime’ significa ‘princesa da China’. É assim que o exército imperial japonês se refere aquela que vocês chamam de ‘gongzhu’”.

“Uau. Pelo menos mantiveram o mesmo codinome, mas em japonês”, disse Li, erguendo os braços.

“Espero que não achem que somos algum tipo de grupo que quer acabar com a República da China e voltar a ser um Império”, brincou Ho, “Vai que eles ao ouvirem ‘princesa da China’ vão acabar pensando que a Gongzhu é descendente daquele fracassado do Pu Yi”, ela disse se referindo ao último imperador da China antes da Revolução de 1911 que instaurou a República da China, derrubando a Dinastia Qing, que comandava a China há séculos.

“Não faz muito tempo que você se alistou pro exército, não?”, perguntou a Tsai para Yamada. Ao ouvir a pergunta, o japonês ficou cabisbaixo.

“Acho que mal tem uns três ou quatro meses”, respondeu Yamada, ainda com uma feição triste, “Me chamaram mais porque eu sou fluente em chinês, e me colocaram para ajudar nas traduções e coisas do gênero. Eu não queria entrar no exército! Eu queria me tornar um acadêmico, estudando e ministrando aulas, não isso”.

“Mas ao invés disso, te mandaram entrar no exército por essa estranha ‘lealdade’ para aquele imperador de um metro e sessenta. Vocês japoneses devem ser uns bitolados mesmo”, disse Schultz, com um tom sarcástico em sua voz.

“Não, nada disso. Eles soltaram esses boatos aí que a gente luta pelo imperador, mas não é nada disso. É muito mais pela honra das nossas famílias e pelos lugares que a gente vive. Toda a família e a aldeia se despedem da gente na hora que a gente é chamado para o fronte, com toda a pressão de representarmos e lutarmos pela honra das nossas famílias e tudo mais, mas o pior é o que acontece com a gente quando a gente enfim tá lá dentro”, explicou Yamada.

“Francamente não consigo imaginar”, disse Schultz, interessado nas explicações do japonês. Aquilo que viria mudou completamente o jeito dele os encarar.

“Eles ficam nos humilhando até dizer chega! Como se ficassem pisando na gente, nos humilhando, fazendo a gente passar vergonha, xingando e nos batendo, para que a gente desconte a raiva nos chineses”, disse Yamada, explicando a injustiça do tratamento dos soldados japoneses, “Assim o pobre soldado que é pisado sem parar pelos caras de cima obviamente vai ir para a batalha sedento de raiva pra matar algum chinês. Infelizmente é assim que a coisa funciona, são todos uns malucos!”.

Tsai olhou novamente para a foto do Pelotão Pássaro Vermelho. Todos ali eram importantes. Todos ali eram imprescindíveis para o sucesso do grupo. Não havia apenas amizade, companheirismo ou capacidade de atuar em conjunto. Cada membro daria a vida pelo pelotão, e em troca, todos do pelotão dariam a vida por um único membro que fosse. Aquela irmandade era algo muito mais forte do que as táticas usadas pelo exército japonês.

“Yamada”, chamou a Gongzhu, “Estamos atrás de um dos nossos. Ele foi capturado por japoneses. É esse aqui, o segundo á minha esquerda”, ela apontou. Yamada deu uma longa olhada em silêncio. Mas aquela falta de palavras por mais que durassem alguns segundos, estava deixando Tsai apreensiva, temendo pelo pior, “Qualquer pista. Por favor. Me diga que já o viu em algum lugar”.

Yamada balançou negativamente a cabeça.

“Infelizmente não tenho ideia de quem seja, senhora”, disse Yamada, “Sou um zé-ninguém que mal entrou no exército. Tirando as humilhações nossas que de cada dia, não me recordo de ter visto nenhum prisioneiro assim”.

Todos olharam então para a Gongzhu. Uma pessoa sentindo o tamanho de pressão e responsabilidade que estavam em seu coração talvez não suportaria e estouraria ali mesmo. Mas Tsai, mesmo sendo uma ótima guerreira, extremamente inteligente e capaz de realizar o impossível, havia também algo que a ajudava a administrar tudo isso: um autocontrole invejável.

Ela pegou de volta a foto e olhou mais uma vez pro registro que tinha de Huang. Na sua cabeça diversas coisas estavam passando, como a tortura que ele devia estar sendo submetido, ou mesmo se ele havia fugido e estava perdido, ou ainda se ele estava morto. Ela voltou o olhar para Yamada e deu um pequeno sorriso com o lábio apenas, balançando a cabeça várias vezes, confirmando. Olhou para cima e depois voltou o olhar para cada um dos membros do seu pelotão.

“Meus amigos, meus companheiros, já tomei minha decisão”, disse Tsai.

E então seu olhar se encontrou com o de Schultz, que arregalou os olhos quando percebeu que ela o estava olhando. Schultz novamente sentiu seu coração bater mais acelerado. O que havia naquela mulher que o fazia sentir assim? Será que era o fato dela ser asiática, e ele querer inconsciente copular com ela? Como se isso fosse uma forma de ter descendentes com a etnia que ele não tinha? Ora, ele não havia parado de ter relações com qualquer mulher que fosse desde que ele havia chegado na China, mas ainda assim nenhuma mulher o fazia sentir assim com o coração acelerado como a Gongzhu o fazia sentir. Ficou tão congelado dentro do olhar da Gongzhu que quase não percebeu o que ela falou depois.

“Não podemos ficar aqui. É capaz que mandem outros homens, ainda mais fortes”, disse Tsai para todos, mas olhando ainda para Schultz, “Vamos para Nanquim. Levaremos o Yamada, e daremos um jeito para que ele volte sem problemas para o exército dele. Temos que encontrar Chou Xuefeng, e depois partiremos para o norte, até a Coréia, levar a Eunmi. No meio do caminho daremos um jeito de descobrir aonde o Huang está”.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

Amber #89 - O pelotão Pássaro Vermelho.

“O quê?!”, exclamou Schultz, assustado, “Mas são cinquenta homens! É um pelotão inteiro! Vocês são apenas cinco, e ainda querem colocar eu e a Eunmi fora disso? Temos que atacar com todo o poder de fogo disponível!”.

Enquanto Schultz dizia isso, Tsai acenava com a cabeça, e todos pareciam saber exatamente o que fazer. Apenas Li ficou por ali preparando seu rifle, colocando o escopo e preparando a munição. Ho, Chen e Chou desceram rapidamente, em um passo constante. Já Eunmi ficou simplesmente paralisada. Aquilo tudo era loucura, e ela nem sabia o que esperar daquela coisa toda.

“Vocês ficam se chamando de pelotão, mas será que isso não é um exagero, Tsai? Um pelotão são cinquenta homens! No máximo vocês são um esquadrão!”, dizia Schultz, temendo o pior, “Larga de ficar com essa prepotência, como cinco pessoas conseguiriam derrotar um pelotão de cinquenta homens? Japoneses são bem armados, bem treinados! Não são como os chineses que mal tem roupas de algodão pra guerrear!”.

Mas Tsai não parecia dar a mínima para que Schultz dizia. Li fez um sinal com a cabeça e Tsai se aproximou dela. Aparentemente a atiradora de elite já havia tomado seu posto.

“A diretriz são quatro pontos de observação, Gongzhu?”, perguntou Li. Schultz ficou olhando para elas sem entender, e Tsai confirmou com a cabeça, e Li prosseguiu: “Ponto atual, ponto Alfa 2, Golf 17 e Delta 8?”.

“Sim. No lugar do Delta 8, que tal o Charlie 2?”, sugeriu Tsai.

“Entendido. Aguardando sua ordem, Gongzhu!”, disse Li, se colocando na janela, observando os soldados se aproximando do casarão.

“Ótimo, vou descer e encontrar os outros, Meihua”, disse Tsai, indo até as escadas, “Aguarde o meu sinal para abrir fogo”.

“Meihua?”, perguntou Eunmi. Ela nunca tinha visto a Gongzhu chamar a Li assim. Tinha um som muito parecido com uma palavra em coreano.

Schultz estava perdendo a paciência. Seguiu Tsai descendo as escadas, mas não conseguia alcança-la nos corredores, ela parecia muito decidida e determinada.

“Tsai! Você por acaso não tá me ouvindo?”, gritava Schultz enquanto a seguia, “Por favor, confie na gente! A gente pode te ajudar aqui! Deixa eu e a Eunmi ajudar vocês! Assim ao menos teremos uma chance!”.

Chou, Ho e Chen estavam no térreo esperando. Estavam já com suas armas em punhos, prontos para o combate. Chou estava com sua Fedorov Avtomat, Chen estava com muitos explosivos, e Ho estava com uma imensa metralhadora em punhos, que não demorou muito para que Schultz reconhecesse como uma arma usada pelo exército alemão, a MG 08/18.

“Yaosai, quero que atraia os soldados para o leste, e elimine o quanto puder, enquanto Juhua te ajuda de suporte. Meihua vai atirar lá de cima, tentando fazer ele se juntarem. Vai ser a sua hora, Yongqi de usar seus explosivos e mandarem pelos ares o quanto puderem. Vou ficar de olho, e entrarei pra dar um suporte quando ver que é necessário”, disse Tsai, sacando sua submetralhadora M1918 automática, “Meihua, pode começar a atirar!”, disse Tsai para Li, que estava em seu posto de observação no topo do casarão. Era a ordem para que a batalha começasse.

Schultz observava Tsai. Nessa hora ele teve medo. É verdade que ele confiava muito nela, mas havia algo em seu coração que não queria permitir que ela fosse enfrentar todos aqueles soldados com apenas mais quatro pessoas. Ele nunca tinha visto algo assim. É verdade que a China havia escolhido manter uma guerra de atrito com o Japão, com seus milhões de soldados tentando desgastar e tirar a moral dos japoneses, mesmo eles tendo equipamentos extremamente inferiores, a estratégia de Chiang Kai-shek era tentar vencê-los pelo cansaço. A China era grande e extremamente populosa. Mas o que Schultz via era o exato oposto: designaram um pelotão inteiro de cinquenta homens para invadir e destruir qualquer rastro da Tsai e seu pelotão. Isso não foi por acaso. Apenas a morte e destruição total deles era aceitável. E aparentemente, nem o exército imperial japonês considerava-os como um “reles esquadrão de cinco pessoas”.

“Tsai, você tem certeza?”, disse Schultz, gentilmente colocando sua mão no braço de Tsai. A Gongzhu viu a mão do alemão no seu antebraço, e depois de colocar seus olhos em sua mão, virou o olhar para seus olhos. Apenas aquele olhar que ela havia dado, transmitia uma feição em profunda paz. Um rosto confiante. Sem expressar uma soberba sorrindo, ou o mínimo resquício de dúvida. Schultz nesse momento viu como os olhos asiáticos são terrivelmente expressivos, capazes de expressar uma poesia inteira com apenas um único olhar.

“Schultz, confie em mim”, foi a única coisa que Tsai disse. Quando Schultz a viu, algo lhe disse para ficar calmo. Tsai tinha tudo sobre controle.

Um disparo foi ouvido da parte de cima. Era Li. Os japoneses viram que a primeira vítima já havia caído, e olhavam para os lados, procurando de onde vinha o disparo. Mal tiveram tempo de buscar, um segundo tiro foi disparado, seguido de um terceiro.

“Na casa!! No topo da casa!!”, gritou o soldado em japonês, e pelo menos oito homens subiram em disparada o morro, indo em direção do casarão.

“Acho que deve ser codinomes, Schultz”, disse Eunmi, depois de raciocinar o motivo da Gongzhu terem se referido a todos por outro nome, “’Meihua’ soa parecido com ‘Maehwa’ em coreano. É a flor de umê, um tipo de ameixa aqui da região”, quando Eunmi disse, ela se virou para Tsai, que não estava longe dali, observando o movimento. A chinesa ouviu o que a coreana estava dizendo e virou o rosto para Eunmi, prestando atenção na sua explicação, “Se for realmente essa a pronúncia, pode ser que tenha algo a ver. Não sei, é um palpite”, Eunmi nessa hora virou o rosto e chacoalhou os ombros para Tsai, como se perguntasse se a dedução dela estava certa. Tsai confirmou com a cabeça, e voltou seu olhar para o campo de batalha.

“É, pelo visto sua dedução está ótima, Eunmi. Escuta, vamos para um lugar mais seguro. Vamos deixa-los mais a vontade”, disse Schultz, levando Eunmi.

Ho então, escondida, saiu detrás de uma pedra e começou a fuzilar todos os soldados que estavam subindo o morro. Alguns tentaram se virar para se defender, mas os tiros penetravam suas peles antes que pudessem fazer algo, fazendo o sangue jorrar e seus corpos caírem apagados, rolando morro abaixo. Cinco soldados ao verem que Ho havia atirado começaram a subir, e foi a vez de Chou, que estava atrás de uma árvore, começar a abater um depois do outro com sua Fedorov Avtomat. Não demorou muito para que ela precisasse se proteger atrás da árvore para recarregar seu fuzil.

“Chou, ainda tem um!”, disse Ho, vendo que dos cinco soldados, ainda havia um vivo, que estava atirando contra Chou. Mas um tiro desconhecido o abateu. Era Li.

“Poxa, ela realmente trabalha junto com ela!”, disse Schultz, espantando. Quando a situação se fazia necessária, as duas deixavam o lado pessoal de lado e trabalhavam realmente em conjunto, “Ao menos não leva tão pro lado pessoal assim”, disse Schultz para Eunmi, que observava abismada aquilo tudo.

Novamente de uma localização privilegiada e diferente, os tiros do rifle de Li acertavam um atrás do outro na cabeça. Quatro homens foram caindo, um seguido do outro, até que os soldados apontassem suas armas para o local onde achavam que Li estava – próximo de uma rocha ao leste deles – e começassem a atirar, querendo feri-la.

Quase metade do pelotão já havia sido dizimado. Vinte homens e contando.

“Schultz, eu estou ouvindo passos!”, exclamou Eunmi. Eles estavam a alguns metros de Tsai, que observava tudo de cima do aclive de onde o casarão estava. Schultz procurava de onde estavam vindo, virando sua cabeça em todas as direções, mas era difícil ver algo naquela tarde.

Schultz e Eunmi tomaram um susto quando ouviram várias explosões no fundo. Havia um grupo de onze soldados que estavam no pé do morro, talvez fazendo a retaguarda dos que avançavam. Várias granadas foram explodindo, seus corpos eram lançados ao ar em todas as direções, voando no meio dos gritos aterrorizantes de dor.

Os quinze soldados restantes não sabiam o que fazer. Não podiam recuar, a única opção era terminar de subir o morro e no mínimo pegar Ho, que estava ainda visível no meio. Ao contar o número de soldados, Eunmi percebeu algo que Schultz não havia reparado:

“Tem gente faltando ali, Schultz! São apenas quinze! Pelo menos uns três ou quatro estão faltando!”, disse Eunmi, fazendo as contas, “Não disseram que tinham uns cinquenta?”.

Então os passos começaram a ser ouvidos ainda mais perto. Haviam homens que estavam subindo pelo lado, aproveitando da atenção que era desviada pelo embate do outro lado!

“Merda, onde é que eles estão? Eu não consigo ver! Tá ficando escuro!”, disse Schultz, virando o rosto. Pareciam que eles haviam percebido que ele estava tentando observar e pararam a avançar, temendo ser vistos.

Ouviram um grito ecoando em todo o morro. Era Ho, gritando e metralhando todos os japoneses, que corriam, desesperados, tentando salvar suas vidas. Mais oito foram abatidos nessa investida, mas não sem um custo: começaram a atirar contra Ho, que foi atingida. Daquela distância Schultz e Eunmi viram Ho dando um grito, sem poderem fazer nada.

“Ho! Aguenta firme! Tô chegando!”, gritou Chou, mirando nos homens.

Os sete homens então se espalharam em dois grupos: três deles iriam até Ho, tentar mata-la de vez, uma vez que ela estava agachada atrás de um tronco caído. Os outros quatro foram avançando igual loucos acima do aclive, com a Tsai como alvo, que continuava lá em cima observando tudo.

Chou mirou nos três que iam ao encontro de Ho e foi executando um após o outro. Ao se aproximar de Ho ficou mais tranquila quando viu que foi apenas um ferimento no braço.

“Que susto, menina! Preciso te devolver inteira pros seus filhotes!”, brincou Chou ao se aproximar de Ho, que sorriu ao ouvir a piada.

Li, em outra posição, rapidamente colocou seu rifle para começar a abrir fogo enquanto os homens subiam para pegar a Gongzhu. Primeiro pegou um, o mais lerdo. Depois acertou em cheio um segundo, que estava no meio dos três que haviam sobrado. Cada vez mais estavam se aproximando de Tsai, e não pareciam estar cansados. Se concentrando, Li acertou mais um, mas o quarto conseguiu dar um impulso final e venceu o aclive, pulando na frente de Tsai com sua arma.

Por estar na parte de baixo, Li não tinha mais ele no seu campo de visão.

Gongzhu! Droga!! Não consegui!, pensou Li ao ver que um dos soldados havia subido.

Mas nessa hora Schultz, lá de cima, próxima dela, viu porque Tsai era considerada a líder. Não era apenas uma grande motivadora, mas por ser a pessoa que havia treinado todos eles, sua habilidade em combate combinava o que havia de melhor em todos eles em apenas uma pessoa.

“Schultz! Aqui atrás!! Eles estão aqui!”, disse Eunmi, mas era tarde. Dois homens já estavam com suas armas apontadas para Tsai, isso sem contar o que subiu o aclive. Havia ainda um quarto, mais recuado, que parecia com medo daquilo tudo, uma vez que estava encolhido.

Foi tudo muito rápido. Tsai sacou do seu coldre uma pistola e da sua cintura outro. Três tiros, todos acertando em cheio os três homens, quase que simultaneamente. Sua mira era rápida e precisa, os soldados nem tiveram como reagir. O que havia subido a encosta caiu, rolando morro abaixo. Dos dois das costas, um morreu na hora e o outro, com um tiro no abdome, estava agonizando no chão.

“Eu não acredito...”, disse o japonês, em sua língua ao ver Tsai se aproximando, “Foi por isso que eles não disseram quem era o alvo. Era o Pelotão Suzaku! Eles sabiam que seria uma missão suicida desde o começo”.

Tsai pegou sua pistola, se agachou, e colocou na cabeça do japonês.

“Não é ‘pelotão Suzaku’, meu caro oficial japonês”, disse Tsai, em japonês, engatilhando a arma, “Quando forem se referir a nós, quero que falem nosso nome chinês. Aprendam logo a falar: somos o Pelotão Zhu Que”, e depois de falar, Tsai puxou o gatilho, matando o homem.

Schultz não sabia uma palavra de japonês. Mas reconheceu o “Pelotão Zhu Que” que havia dito. Aquele som parecia chinês.

“Zhu Que? O que é isso?”, perguntou Schultz, saindo com Eunmi do seu esconderijo.

“Zhu-que é o ‘Pássaro Vermelho’”, explicou Tsai, guardando sua arma. Nesse momento ela viu o último sobrevivente do pelotão ao fundo, ele havia caído de bunda no chão e estava com uma feição completamente aterrorizada, “É o nome do nosso pelotão. Pelotão Pássaro Vermelho”.

“Jujak, em coreano. Suzaku, em japonês”, disse Eunmi, depois de entender do que se tratava, “É uma criatura mitológica da China”, nessa hora Eunmi se virou para Tsai, como se houvesse entendido o que ela queria dizer, “Um dos quatro símbolos das constelações chinesas. É uma lenda muito famosa por esses lados, e todos os países possuem suas versões locais”.

Schultz então virou o rosto, e viu que havia sobrado um japonês ainda vivo.

“Eita, olha lá, sobrou um!”, disse Schultz apontando para ele. Mas ao ver que o haviam visto ele ficou ainda mais aterrorizado. Começou a gemer de medo, seus olhos caíam lágrimas, e catarro caía do seu nariz. Tsai já o havia visto, mas o garoto parecia mais amedrontado que tudo, e ela começou a se aproximar dele.

O jovem japonês mal conseguia ficar em pé. Toda vez que tentava correr, caía nos primeiros passos. Tsai calmamente foi caminhando até sua direção, e quando o jovem viu, já era tarde: ela o havia alcançado sem problemas.

Caído de bunda no chão, começou a chorar ainda mais de medo. Parecia que Tsai era uma espécie de demônio, pronto para executa-lo a qualquer momento. Chorando sem parar, cheio de catarro no nariz, começou a se mijar de medo quando viu que Tsai estava logo ali na sua frente. Como não tinha mais opção, o jeito era implorar pela sua vida:

“Ch-ch-ch-chugoku no Hime!”, gaguejou o japonês, no chão, tremendo de medo da cabeça aos pés, “Por favor, não me mate! Eu sou apenas um tradutor!”, disse o japonês, falando em chinês para Tsai, implorando pela sua vida, “Poupe minha vida, eu imploro! Eu faço qualquer coisa, mas não me mata!!”.

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