sexta-feira, 15 de junho de 2018

Amber #113 - A certeza de Eunmi.

“Ah, eu? Quem sou eu?”, disse Yamada em japonês. O soldado reconheceu os trajes do exército imperial que Yamada vestia. Apesar de estarem sujos e cheios de terra, não havia dúvida que Yamada fazia parte do exército, “Meu nome é Yamada Koichi”, disse o japonês, e logo depois de dizê-lo, ele concluiu que foi uma besteira enorme ter dito seu nome verdadeiro. Se fosse contar mentiras, era melhor começar a começar a partir daquele momento: “Eu sou da divisão trinta e oito, e me perdi do grupo tem um dia. Vi uns barulhos aqui e vim pedir ajuda, eu estou morrendo de fome e sede, será que vocês podem me ajudar?”.

O soldado ficou encarando Yamada e então gesticulou para que ele subisse.

“Tudo bem, venha cá. Tem um pouco de água aqui pra você, Yamada”, disse o soldado, e Yamada subiu fingindo estar desesperado atrás de água.

Muito bem, Yamada! Ele caiu nessa conversa igual um patinho!!, pensou Yamada, enquanto bebia água dando altas goladas.

Depois de beber a água, Yamada devolveu a garrafa e olhou ao redor. Vira que o rifle SMLE da Li estava encostado ao lado de uma mureta, e discretamente foi até onde o rifle estava, colocando sua bandoleira no ombro, pronto para levar para Li, como ela havia pedido.

Yamada foi se distanciando, verificando os cantos, fingindo buscar as chinesas que estavam ali no acampamento. Ao olhar para trás vira que o soldado que o havia achado estava conversando com alguns superiores, e volta e meia eles fitavam Yamada, enquanto verificavam alguns cadernos e fichas.

Droga! Eles devem estar me procurando nas fichas. Sorte minha que foi justo uma companhia de soldados que nem têm ideia de quem eu sou. Preciso é dar o fora antes que descubram quem eu sou, pensou Yamada enquanto se apoiava numa pedra esperando o momento certo para correr.

Do outro lado Eunmi se juntava a Chou, Chen, e Li. Esses três últimos estavam parados atrás de algumas árvores, com seus rostos voltados a uma direção, observando algo.

“Meninas, cheguei. Pra onde estão olhando?”, sussurrou Eunmi, e Li apontou para um jipe militar a poucos metros dali, guardado por alguns soldados.

“É tentador, mas perdemos nossas roupas, dinheiro, comida, tudo ali no acampamento por conta dessa patrulha inesperada deles. Acho que seria justo ao menos nós levarmos alguma coisa deles”, disse Li, piscando com o olho para Eunmi.

“O quê? Você tá maluca?”, disse Eunmi, descartando imediatamente a ideia de Li, “O Yamada nos disse para a gente seguir essa trilha, que havia alguém nos esperando no final dela!”.

“Qual é a sua, coreana? Você acha mesmo que a gente deve confiar naquele japonês?”, perguntou Li, e Eunmi nesse momento ficou profundamente decepcionada por ouvir que Li ainda tinha suspeitas infundadas contra Yamada.

“Li, não acredito que você vai começar com isso de novo! O Yamada é confiável! Ele nunca fez nada de errado contra a gente, até decidiu deixar o próprio exército para se juntar a gente, mesmo que a gente não tivesse nada a oferecer!”, disse Eunmi, enquanto Chou e Chen apenas ficavam ali ouvindo a conversa das duas atentamente, “Vocês suspeitando do Yamada assim nem parece que conviveram com a Tsai tanto tempo. Não seriam capazes de agir com o coração nobre que a Tsai tem, mesmo convivendo com todos os exemplos de postura e caráter que ela sempre demonstrou a todos!”.

Li então se calou, prestando atenção no que Eunmi tinha a dizer:

“Mesmo eu, que não conheço a Gongju há tanto tempo igual vocês, eu sei como é a Tsai. E consigo imaginar o que ela faria no meu lugar. A Tsai é uma pessoa com um coração tão bom que ela nunca levantaria suspeitas infundadas por apenas não ir com a cara de alguém”, disse Eunmi, e nesse momento algumas memórias brotaram na sua cabeça. Memórias que fizeram ela de certa forma sentir vergonha de si mesma, “Ao contrário de mim, que tenho muito a aprender, afinal eu não sou exemplo pra ninguém. Vocês mesmos me viram com o Jin-su. A Gongju nunca teria feito aquilo que eu fiz, mas nem por conta do meu erro eu vou deixar de tentar me aproximar dela e ser uma boa líder”.

“Então você sugere que a gente confie no Yamada e siga a trilha?”, perguntou Chou, interagindo na conversa.

“A Tsai que eu conheço mesmo que a pessoa que ela confiou a traísse, ela nunca diria que ele é errado, ou não daria uma segunda chance, ou iria puni-lo de alguma forma”, disse Eunmi, “A Gongju na verdade é uma pessoa que se erraria, erraria por ser uma pessoa boa demais. E isso na verdade é uma característica muito nobre da pessoa. Então por isso, não há motivos para suspeitar do Yamada. Se ele diz para seguirmos por aqui, seguiremos. Se der certo e chegarmos num local protegido, ótimo. Se não, mesmo que a gente morra, a gente morrerá sabendo que confiou nas pessoas, e ficaremos com a consciência limpa por ter feito o correto”, Eunmi então concluiu: “A Gongju ofereceria a vida dela por qualquer um aqui. Se mesmo a gente que estamos longe de ser como ela não fizermos assim, quem fará? Estaremos seguindo os passos dela e a deixando orgulhosa de nos ter como parceiros e amigos?”.

Aquelas palavras acertaram em cheio a alma de Li. Em seu coração a chinesa sentia um misto de vergonha com vontade imensa de agir, de mostrar em ações o que ela havia compreendido. Porém ao mesmo tempo ela tinha um orgulho, um sentimento que não a deixava mostrar uma feição diferente de descreio, embora por dentro seu coração acreditava em cada palavra que Eunmi havia dito:

“Tudo bem, você me convenceu. Deixa esse jipe pra lá, vamos seguir pela trilha”, disse Li, avançando na frente seguida pelas outras.

Yamada do outro lado tentou outra tática. Se misturou em um grupo de outros soldados para tentar fugir dali de maneira incógnita. Porém, pelo seu estado, todo sujo e fedido, cada soldado que Yamada cruzava fazia uma expressão de repulsa por conta de seu estado. O japonês, então, fingindo que não estava vendo nada vira que a ideia de tentar sair pelos fundos do acampamento era uma melhor opção, mas naquele instante já era tarde. Ele já estava perto da saída.

A melhor parte é que eles nem se ligaram que eu estou com o rifle da Li. Acho que eles devem estar achando que eu sou o dono real do rifle! Foi mais fácil que eu pensei!, pensou Yamada.

“Pare aquele soldado!!”, gritou um oficial, mas Yamada fingiu que não era com ele. Alguns soldados ao redor ouviram a voz do tenente e viram que ele apontava para Yamada, e logo os soldados encararam Yamada, que mesmo sob o olhar de todas as pessoas continuava andando, fingindo que não era com ele.

Com o coração na boca, Yamada orava por todos os deuses por um milagre que o tirasse dali. E então o mesmo tenente que havia dado o último grito, soltou outro, ainda mais sonoro:

“YAMADA KOICHI, NÃO É ESSE O SEU NOME?”, gritou o tenente, um grito tão alto que até Eunmi e as outras ouviram do outro lado.

“Li, é o Yamada. Temos que voltar. Acho que descobriram ele!”, disse Eunmi quando ouviu o sonoro grito do tenente ecoando por todo o local.

“Ah, merda! Eu juro pra você, coreana, se ele estiver nos levando para uma emboscada, eu vou te atormentar tanto no inferno, que você vai implorar para morrer de novo!”, disse Li, tirando a caixa e enfim a abrindo, revelando seu misterioso conteúdo, sua inesperada ‘arma secreta’.

Eunmi ficou boquiaberta ao ver o que havia na caixa. Mas enquanto Li se aprontava para salvar Yamada, Eunmi apontou com a cabeça para o jipe. Chou e Chen rapidamente entenderam o recado.

“Descobri, eu sabia que tinha ouvido esse nome em algum lugar!”, gritou o tenente, descendo na direção de Yamada, “Koichi Yamada, ex-soldado recruta do exército imperial japonês. Atual status: DESERTOR!”, disse o tenente japonês, gritando na direção de Yamada a última palavra. Apontando o dedo para o japonês, o tenente ordenou aos gritos: “DETENHAM ESSE TRAIDOR DO IMPERADOR AGORA!!”.

E então quando os soldados foram para cima de Yamada, que obviamente saiu correndo, algo acerta em cheio o peito do tenente gritão, o fazendo cair pesadamente no chão.

“Yamada, por aqui, vamos!!”, gritou Eunmi, dando a mão e puxando o japonês, que passou na frente de Li segurando o rifle dela. Quando Li viu que Yamada havia recuperado sua amada SMLE, ela deu um sorriso pro japonês.

Muito bem, japonês. Agora deixa com as meninas aqui. A gente vai salvar a sua pele, pensou Li, engatilhando rapidamente outra flecha da aljava.

A tal arma secreta de Li era um arco-e-flecha. Parecia bem antigo e usado, extremamente simples, se constituindo apenas de um pedaço de galho entortado e uma corda, sem nenhum tipo de mira, nem nada. Tinha uma aparência gastada, cheio de arranhões, marcas de uso, e até pedaços de tecido na empunhadura. Mas seus tiros tinha uma precisão milimétrica e uma velocidade incríveis. Em um piscar de olhos ela havia derrubado quatro soldados que seguiam Yamada, com tiros precisos exatamente no mesmo lugar: no meio das sobrancelhas de cada um deles.

Se Li era mortal com um rifle, naquele momento todos viram que ela poderia ser até mais letal com um simples arco-e-flecha.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Amber #112 - Improvável rendez-vous (2)

“Puxa, algo pra falar comigo?”, disse Tsai, dando um sorriso, “Então agora mais do que nunca temos que sobreviver na luta contra aquilo”, e então Tsai olhou para o estranho ser que cuspia fogo demoradamente, “O que quer que ‘aquilo’ seja”.

“As balas vão funcionar”, disse Schultz, “A Ho tem muitas balas, vai conseguir acertar. Eu sei a fraqueza desse monstro, é atirar nas junções dessa armadura. Eu já fiz isso antes”, nessa hora Tsai olhou para Schultz, assustada, “É, longa história! Depois eu conto!”.

Tsai desceu rapidamente na frente de Ho. O chão já estava ficando cheio de buracos, todas balas ricocheteando para os arredores próximos, acertando as árvores, solo, gramado, chamas, tudo o que havia ao redor do ser que cuspia fogo. Ela se aproximou dela e deu a dica que ouvira de Schultz.

“Ho, acerte as articulações! As balas vão entrar no vão, e vamos conseguir neutraliza-la!”, disse Tsai, e Ho imediatamente mirou no local que seria o ombro do ser bípede, e Tsai ordenou: “Continua atirando!!”.

E Ho com a ajuda de Huang que a ajudava a recarregar sua metralhadora atirou sem piedade no local que Tsai indicara. E estranhamente o ser que cuspia fogo havia parado de manter a pose estática, estava sendo empurrado, reagindo, mexendo os membros superiores!

“Está dando certo!!”, disse Huang, vendo os movimentos, “Vamos conseguir!!”.

E então algo aconteceu. O ser que cuspia fogo abriu os braços, e então um som ensurdecedor grave dominou o local, e de dentro das turbinas dos seus braços saíam labaredas, que não se comportavam como uma lança-chamas normal. As chamas pareciam um ciclone, se contorcendo num jato, saindo dos dois braços que estavam abertos. O barulho, as chamas, a baforada de calor, tudo aquilo foi muito súbito, assustando todos ali, que tentaram buscar abrigo.

Era um verdadeiro rugido do dragão.

“Não pode ser!”, exclamou Schultz ao observar a armadura do ser que cuspia fogo, “As balas não fizeram absolutamente nada! Nem mesmo danificaram a armadura!”.

“Caralho, do que é feito essa merda?”, perguntou Huang, sem acreditar. Saldaña e White se ergueram, as chamas ao redor estavam cada vez mais fortes, depois dos dois ciclones de chamas que saíram dos braços então, o calor era imenso, parecia que eles estavam todos assando vivos. Até respirar doía dentro do peito, de tão quente.

“Não queremos ferir vocês. Apenas queremos Saldaña e White”.

Schultz olhou para os lados. Era uma voz muito estranha no meio daquele barulho imenso de estar numa floresta sendo arrasada pelo fogo. Tsai e os outros também pareciam igualmente confusos. Era uma voz extremamente clara, soava como a composição de mais de uma voz falando em uníssono, portanto era complicado definir se era uma voz masculina ou feminina. O que era confuso era que a voz era muito clara, como se não fosse possível ouvir de onde vinha. Uma voz onipresente, impossível de se definir a fonte.

“Hã? Ouviram isso?”, perguntou Ho, confusa.

“Desistam de Saldaña que iremos sem combater. Mas caso decidam combater, não pararemos até seu extermínio total”.

“Heh... Palavras como ‘extermínio’ são aterrorizantes por si. Seguidas de um ‘total’ só mostra que você não está aqui para brincadeira, seja lá o que você for”, brincou Huang, “Eu estava cagando para esses dois aí. Mas depois dessa ameaça, eu não consigo pensar na possibilidade de os devolver para vocês”, os olhos de Huang pareciam desafiadores: “Vocês vão ter que vir pegar!”

Espera aí, porque usou o plural, quando disse que queriam Saldaña e que iriam sair sem combater? Existe outros desses? Eles possuem uma ligação? Pelo visto houve uma evolução desde o último encontro. Como se a falha das junções estivesse sido consertada, pois nenhum tiro funcionou. A área foi visivelmente reforçada!, pensou Schultz.

O ser que cuspia fogo não respondeu Huang. Aquele monstro sequer tinha expressão. Na verdade até mesmo uma cabeça convencional era difícil de enxergar nele, embora tivesse algo ali que indicasse uma cabeça, por ser bípede. O monstro flexionou os membros inferiores e apontou as turbinas do braço para o chão, e então o som do rugido foi ouvido novamente, e chamas começaram a ser lançadas para o chão, que pareciam se espalhar pelo solo, querendo dominar todo o local, queimando todo mundo de baixo para cima.

“Merda. Só se um meteoro cair aqui que a gente se salva!”, disse Schultz, colocando a perna para tentar se levantar.

Aquilo era realmente algo amedrontador. Ninguém nunca havia visto algo como aquilo, e aquele ser tinha um poder de destruição inigualável comparado com qualquer arma que o ser humano havia criado desde então. Huang puxou White pelo braço, enquanto Ho puxava Saldaña. Tsai deu apoio a Schultz para se erguer e todos começaram a fugir.

Quando o monstro cuspidor de chamas percebeu a fuga de todos, aumentou ainda mais o barulho e o nível das chamas, mas então uma explosão aconteceu, empurrando o monstro ao chão. Tsai, carregando Schultz, virou para trás para ver o que havia acontecido, sem entender. Mais uma explosão aconteceu, o acertando em cheio, e Tsai e Schultz viram que um míssil tinha vindo de cima, do céu.

“Tsai, vamos subindo, não para aqui!”, alertou Schultz, “Olha ali! São japoneses subindo!!”.

E então mais dois ou três mísseis vieram do céu, acertando em cheio o monstro que cuspia chamas, e então Tsai se escondeu no topo do aclive com os outros, observando tudo o que acontecia com o monstro lá de cima.

Diversos japoneses apareceram armados, atirando granadas, dando tiros contra o monstro, que já estava se erguendo.

“Explosões! Talvez eles tenham uma chance. Olha ali, Schultz!”, disse Tsai, apontando para um veículo militar que estava já bem próximo do local onde o monstro das chamas estava.

“É um caminhão de artilharia britânico. Uma arma antiaérea, que lança mísseis”, disse Huang, reconhecendo logo de cara o que era, “Isso aí é peça de museu. Os japoneses não tinham algo mais moderninho não?”.

“Seja peça de museu ou não, causou um belo estrago”, disse Tsai, mas a verdade era que mesmo que houvessem soldados em número muito maior, nada garantia que eles venceriam.

Na realidade, nada garantia que eles sairiam dali vivos.

O ser que cospe chamas então se ergueu, e no meio daquelas árvores pegando fogo começou a apontar as turbinas nos braços e disparar um jato de chamas sem dó contra todos os soldados japoneses, que instantaneamente viam seus corpos em chamas, e uma cena horrenda se desenrolou ali na frente de todos.

A verdade é que o ser humano capta o ambiente da maneira que bem entende. O som grave que o monstro emitia ao lançar as chamas dominava o local, mas conforme os soldados japoneses iam sendo queimados vivos, o agudo dos seus gritos desesperadores se tornava mais e mais audível. Corriam de um lado para o outro pedindo por ajuda, agonizando enquanto seus corpos eram consumidos pelas labaredas cuspidas pelo monstro, que ia os matando sem dó.

Temendo por suas vidas, alguns soldados começaram a fugir, mas o ser que cuspia chamas parecia os rastrear com eficiência total. Ele posicionava os braços no chão e um jato de chamas o impulsionava para cima, que uma vez no ar abria asas retráteis, e descia precisamente em cima dos soldados em um rasante, e então vários pontos em chamas eram vistos, um após o outro, no meio daquele morro. O monstro subia, voava uma distância, e descia em um assalto implacável, massacrando um após o outro.

E junto das mortes, obviamente viam os gritos. Gritos cheios de terror e dor, que tiravam qualquer honra ou heroísmo de se lutar uma guerra. Aquela era uma chacina. Uma chacina causada por um ser que era infinitamente mais forte do que qualquer pessoa ali jamais poderia ser. Era a covardia. Era o que a guerra tinha de mais medonho, de menos heroico, e de mais doentio.

Schultz, Tsai, Ho e Huang estava paralisados com a cena que viam.

“Inacreditável”, disse Schultz, “Mas ainda existe uma pessoa. Não tinha uma pessoa dentro do caminhão de artilharia?”.

E então, quase como se ouvisse Schultz, o monstro foi até onde estava o caminhão. Flexionou o braço para trás e deu um potente soco na porta, a amassando com uma força sem igual. Deu mais um soco, e no terceiro, a porta já havia caído, amassada como papel. Lá dentro um japonês estava aterrorizado, chorando, com o semblante expressando o pânico iminente da morte.

“Não, aquele monstro não vai fazer isso”, disse Ho, sem acreditar na cena brutal que estava prestes a acontecer, “Vai, foge, foge, foge!”.

O japonês num gesto de desespero então sai correndo do assento do caminhão de artilharia desesperadamente, esbarrando com o ombro do monstro, mas apenas o soldado foi quem foi levado ao chão. O monstro das chamas permaneceu por alguns segundos estático, ainda voltado para o caminhão antiaéreo. E então, ainda sem se virar, ergueu o braço na direção do soldado nipônico, e mais uma baforada de chamas foi lançada, o consumindo vivo.

“Não, não, não pode ser. Não acredito!”, disse Ho, em choque depois de tanta brutalidade. Era verdade que todos aqueles soldados eram seus inimigos, mas a cena, e as circunstâncias de tudo o que aconteceu, deixava esse fato de serem inimigos como apenas um detalhe. Apesar de tudo eram vidas. Vidas arrasadas de maneira implacável e impiedosa, por uns monstro que desafiava qualquer capacidade humana.

“Eles não mereciam isso gente. Eles não mereciam ter morrido assim”, desabafou Tsai, tão chocada como todos os outros ali.

sábado, 9 de junho de 2018

Amber #111 - A suspeita de Li.

“Rápido, vamos, a gente tem que fugir daqui!”, sussurrou Chou apontando para que a seguissem, e Eunmi e Chen assim o fizeram, “Esses japoneses vão acabar achando a gente aqui!”.

Porém Li continuava lá, com a cara emburrada.

“Li, não é hora disso! Vamos logo!! Vem!!”, sussurrou Chou para Li, mas ela continuava a ignorar, olhando para o acampamento onde os japoneses faziam a varredura.

“Não vou sair daqui. Não enquanto não recuperar meu rifle”, disse Li, decidida, mas ainda com a cara amarrada, “Se quiserem ir sem mim, podem ir”.

Eunmi tentou tomar a frente, mas Chou ainda agachada se aproximou de Li, e levou sua mão em direção ao braço da batedora.

“Pode tirar essa mão daí. Não quero que um lixo de quinta categoria como você sequer encoste em mim!”, disse Li, muito grossa, para Chou, que antes mesmo de tocar no braço da colega, recuou a mão. Porém Chou não virou as costas, ela continuou ali, parada, sinalizando que não iria de forma alguma se Li não fosse junto.

“Ai, não acredito! Justo agora estão tendo uma briga!”, disse Eunmi, sem saber o que fazer para apartar aquela guerra de cochichos, “Chen, você é o mais velho aqui, vai lá resolver isso, por favor”, disse Eunmi o empurrando, e Chen foi também agachado, completamente confuso até onde estavam Chou e Li, tomando todo cuidado para não ser visto pelos japoneses. Antes de abrir a boca pra falar algo como Li e Chou ele virou o rosto pra Eunmi e apontou o indicador no seu ouvido, que Eunmi de início achou que ele queria gesticular que “elas estavam loucas”, ou algo assim. Mas logo ela percebera que era porque ele era surdo mesmo, seria uma conversa bem difícil de terem ali.

Porém os japoneses continuavam a varredura no acampamento. Tudo delas estava lá, comida, roupas, água, barracas, e a arma de Li, que ela sem intenção havia deixado lá, e fora justamente naquele curto período que justamente os japoneses apareceram, coincidentemente.

“Não! Merda! Minha caixa com minha outra arma!”, disse Li quando vira um japonês pegando na caixa em formato de tubo com pouco mais de um metro que ela carregava sempre.

O soldado abriu o tubo pela tampa e olhou para dentro. Fez uma cara de indiferença e fechou de volta, jogando a caixa perto de onde Eunmi estava.

Essa é a tal ‘outra arma’ da Li, não? Ela nunca deixa ninguém nem chegar perto, e ninguém nunca fala o que é essa “outra arma” da Li. Eu lembro que o Schultz reparou quando ela trouxe, mas ele nunca conseguiu descobrir – e menos ainda a Li nunca mostrou o que havia dentro dali, pensou Eunmi, puxando da sua memória o que achava que sabia sobre aquele misterioso artefato.

“Ei, psiu!! Coreana!! Pega esse negócio aí!”, sussurrou Li, apontando para a caixa cumprida em forma cilíndrica, “Anda logo, eles estão olhando para o outro lado!”.

E tomando todo o cuidado, Eunmi foi lá a resgatou a caixa, sem abri-la, por mais que a curiosidade a atiçasse de vontade de querer ver o que havia lá dentro. O japonês na direção oposta que estava com o rifle SMLE de Li, por outro lado, havia até vestido a bandoleira e praticamente tomado o rifle para si – o que deixava Li ainda mais a ponto de ter um ataque de nervos vendo aquela situação.

Li sinalizou com a mão para que Eunmi fosse até ela lhe entregar o rifle, e assim a coreana o fez, agachada tomando todo o cuidado para não fazer nenhum barulho, e lhe entregou a caixa. Porém, logo na frente delas, um soldado japonês percebeu um movimento estranho no meio daquela moita e se aproximou com passos constantes até o local onde estava vendo aquilo.

De início apenas Chen percebeu que havia um japonês vindo em direção delas, mas não havia muito tempo, apenas poucos passos os separavam, e o chinês olhava desesperadamente para os lados tentando buscar outro esconderijo, enquanto Eunmi apartava aquela discussão de sussurros que Li e Chou contracenavam.

Quando Chen sinalizou para as garotas que havia um soldado se aproximando delas já era tarde. Ele estava a poucos metros da moita!

“Merda. Vamos ter que utilizar a força!”, disse Chou, destravando sua Fedorov Avtomat e apontando para onde o japonês iria aparecer, já com o dedo no gatilho.

Eunmi nesse momento pousou sua mão no cano da Fedorov de Chou, baixando o rifle, e fazendo o gesto com o dedo na frente dos lábios pedindo silêncio para todas ali. A ideia era evitar um conflito a todo custo, e por mais estranho que pudesse parecer, Li e Chou obedeceram Eunmi e ficaram quietas.

Inesperadamente uma explosão então aconteceu na direção oposta de onde elas se escondiam. Pelo som era possível presumir que aconteceu longe, mas ainda assim todos os soldados japoneses se assustaram e foram até lá, averiguar a fonte da explosão, inclusive o soldado que quase as encontrou escondidas atrás de toda aquela vegetação.

“Minha nossa, o que foi isso?”, perguntou Li, assustada.

“Eu não sei. E francamente não quero nem saber”, disse Eunmi, dando uma olhada por cima do arbusto, “Tivemos sorte isso sim, vamos aproveitar isso e vamos todas dar no pé daqui”, e quando Eunmi se virou, deu de frente com ninguém menos que Yamada, que estava arfando, mas com um sorriso que o preenchia de orelha a orelha.

“Minha nossa, enfim achei vocês! Rápido, eu sei um lugar para escaparmos, é só a gente ir por ali e...”

“Cala a boca, japonês! Por que a gente confiaria em você?”, perguntou Li, furiosa e desconfiada de Yamada, “Onde raios você se meteu?”.

“Li, o que é isso? Eu já pedi, por favor, pra não dizer coisas assim!”, pediu Eunmi, encarecidamente. Ela queria poupar Yamada de ouvir asneiras por parte dela.

“Ah, você tá certa. Eu juro que vou explicar no caminho, mas precisamos sair daqui logo! Eu que deixei uma granada lá para assusta-los para que possamos fugir!”, disse Yamada, apressando.

“Sim! Vamos logo, meninas! Depois o Yamada explica tudo, temos que aproveitar e fugir agora!!”, pediu Eunmi, acompanhando Yamada, mas logo viram que estavam sozinhos nessa.

Li e Chou continuavam irredutíveis.

“Eunmi, acorda! E se isso for uma emboscada?”, disse Li, “Eu ainda não confio no Yamada. O Schultz disse que você se encontrava às escondidas com pessoas suspeitas. Pessoas que ninguém tem ideia de quem são!”.

“Li, não é hora disso. Por favor, vamos logo! Eles vão voltar a qualquer momento!”, dizia Eunmi, tentando expor os fatos e a opção mais lógica para aquele momento.

Mas Chou e Li continuavam ignorando completamente os apelos de Eunmi. Chen apenas queria sair de lá, fosse com Yamada ou sem ele, por isso se juntou a Eunmi, que estava ao lado do japonês. Yamada então tomou a frente com um olhar sério.

“Olha, por favor, só peço que venham comigo. Eu juro que vou explicar, é uma longa estória, mas vocês têm que confiar em mim”, disse Yamada, e mais uma vez ele fitou no fundo dos olhos Chou e Li e ressaltou o que havia acabado de dizer, repetindo: “Confiem em mim, por favor. Eu juro que vamos sair, mas temos que ir rápido. Eu explico no caminho!”.

Chou então deu de ombros e se aproximou do grupo com Eunmi, Chen e Yamada. Ela sentiu sinceridade no olhar e na fala do japonês. Mas Li continuava ali, de braços cruzados, os encarando séria. Eunmi franziu a testa, como se perguntasse para Li se ele iria se juntar a elas ou não, e então a chinesa respondeu:

“Tudo bem, eu irei. Mas eu preciso do meu rifle, japonês. Ele pode estar com muitos anos de uso, mas eu cuido dele como se fosse de estimação. Não consigo nem pensar na ideia de que um japonês vai usa-lo sem o menor cuidado!”, disse Li, propondo os seus requisitos.

“Eu não posso ir lá e dar a cara, pedindo o rifle. Mas eu tenho dois amigos que podem fazer isso e eles estão nos esperando, naquela direção”, disse Yamada, apontando para uma trilha que estava escondida no meio do mato, “Eles podem conseguir de volta a arma. Conseguir agora, nesse momento, vai ser meio difícil”.

Li então se aproximou delas, ainda meio relutante.

“Tá certo, pode ser. Espero que eles não ferrem com minha arma querida”, disse Li, tomando a frente, “Para onde, japonês, por aqui mesmo? São japoneses amigos seus que estarão por lá?”.

“Sim, são japoneses sim”, disse Yamada, meio hesitante. Quando Chou ouviu isso na hora se virou para ele.

“O quê? Japoneses? Vai dizer que tá nos levando para uma emboscada?”, perguntou Chou, voltando até onde Yamada estava, mas Chen logo colocou a mão nos seus ombros e a puxou em direção da trilha lentamente, com um sorriso de confiança no rosto, enquanto Chou continuava questionando e pedindo para voltar.

“E você, vem?”, perguntou Eunmi, preocupada com o japonês. Ele ficou vermelho, completamente envergonhado vendo a preocupação da coreana, e então ele respondeu:

“Eu irei sim. Vou ficar na retaguarda de olho neles caso algo aconteça. Vai indo!”, disse Yamada gentilmente apontando com a mão para o caminho, pedindo por gentileza para Eunmi ir seguindo em frente. A coreana se aproximou do rosto do japonês e deu um beijo na sua bochecha. Yamada ficou vermelho, e quando os lábios da coreana encostaram nele, ela sentiu que ele estava quente, de tanta vergonha. Ela deu um risinho e seguiu em frente, se juntando aos outros que estavam na frente enquanto Yamada ficava lá de olho, completamente abestado vendo a coreana ir.

Yamada ficou tão abobado depois do beijinho que Eunmi lhe deu que ele se distraiu e cometeu um erro grave. Um erro tão grave que iria comprometer toda a inesperada fuga do pelotão naquele momento:

“Ei, você? Quem é você?”, disse um soldado ao aparecer logo atrás de Yamada. Nesse momento ele ficou totalmente paralisado de medo. Todo o seu plano havia ido pelo ralo abaixo.

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