quarta-feira, 26 de julho de 2017

Quando a morte nos faz lembrar que a nossa vida é um sopro...

Hoje acordei com uma mensagem no whatsapp da Bianca, namorada da Renata, uma grande amiga minha. Na mensagem ela dizia que tinha que me ligar. Na hora fiquei feliz, achei que era uma festa que estavam combinando, ou algo do gênero, mas logo ao ligar ela disse:

"Alain, a Renata faleceu ontem".

Como a vida é um sopro. E uma coisa tão frágil, que um dia estamos conversando com a pessoa como se nada tivesse acontecido e no outro simplesmente a pessoa falece. Renata era uma pessoa muito especial pra mim. E desde que recebi a notícia, não sei, não consegui chorar. Óbvio que estou muito triste. É muito difícil perder alguém e viver com essa única certeza que nunca mais viverá bons momentos com uma amiga querida.

Não acho que você também Renata, que sempre foi tão bem humorada e sorridente, iria querer me ver triste também. Acho que isso dentro do meu coração reflete que no fundo você sempre quis o bem de todas as pessoas à sua volta.

Por isso só quero lembrar das coisas boas.

Quero lembrar de quando te conheci no templo e você, apesar de super tímida, deixou todos surpresos com sua linda voz quando cantou. Quando voltávamos juntos e ficávamos no ônibus comentando "Nossa, essa menina é gata demais, né!". Quando meu coração quase parou quando fiquei sabendo que você foi internada e ficou entre a vida e a morte depois de uma crise de bronquite. Quando eu te levei flores no hospital, e disse "Quando eu fiquei sabendo que você tava internada senti um medo imenso do pior ter acontecido. Não pude deixar de me preocupar, afinal somos amigos né?". Quando você ia comigo no templo mesmo depois de trabalhar a madrugada inteira e estar exausta. Quando você me veio toda feliz que havia encontrado uma menina legal e estava namorando. Quando você lia meu livro, Amber, e dizia que achava o máximo e sempre esperava no meu blog pelo próximo capítulo.

Tem alguns meses desde a última vez que a gente se viu. Mas vou guardar no coração aquele abraço que demos aos nos despedir. Se eu soubesse que aquele seria o último abraço que eu daria na minha amiga eu teria apertado mil vezes mais!

Toda vez que eu escrevia um capítulo de Amber pensava em você lendo, e não tenho dúvidas que você lia todos, pois sempre queria discutir comigo o andamento da história e tudo mais!

Da última vez que a gente se falou você dizia estar tão empolgada com o trabalho de tatuadora, mas que ainda assim dava seus pulos, já que você estava bem, apesar das dificuldades. Vivendo junto da Bianca, correndo atrás dos seus sonhos, e eu juro que não teve um único dia que eu não tenha pensado: "Puxa, preciso ir lá visitar ela um dia desses!". Devia ter saído do pensamento e me esforçado mais, pois a partir de hoje infelizmente não tem mais como realizar isso.

Renata faleceu de uma crise respiratória. A bronquite que uma vez havia ameaçado sua vida dessa vez veio de maneira fatal. Infelizmente ela não resistiu, e faleceu indo pro hospital ontem.

Mas eu não quero pensar que nunca mais verei essa amiga, minha afilhada budista, essa parceira, essa pessoa que foi tão especial pra mim. Quero na verdade pegar esses incontáveis "quandos", as memórias que eu tenho dela e tantas outras como as que escrevi acima, e gravá-las no meu coração pra sempre.

Uma das coisas que eu sempre te ensinei foi que você, ao ser uma pessoa boa, se esforçasse em ser uma pessoa que os outros sentissem saudade de ter você ao lado.

Renata, você conseguiu.

Vá em paz, e sei que a partir de hoje vai estar sempre conosco.


Renata Pires da Costa
10/12/1988 - 25/07/2017

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Amber #69 - É a noite, é a morte, é o laço, é o anzol.

“Eu não aceito... Eu não aceito... Eu não aceito!”, disse Sundermann, encarando Liesl com fúria. Alice já havia deixado o local, levando a polonesa com ela. O rosto de Sundermann era intragável, ele realmente parecia alguém transtornado. Não por ter perdido para uma mulher altamente treinada em artes marciais. Mas por ter perdido de uma judia.

“Sundermann, só queremos um acordo. Nenhuma de nós quer o seu mal. Você já vive num dilema horrível, caçando até mesmo outros homossexuais a mando do exército enquanto você mesmo é um deles. Ninguém aqui quer piorar a situação pra você, por favor, vamos parar com isso?”, pediu Liesl, pausadamente.

“Cala essa sua boca, sua desgraçada, eu vou te matar, e vai ser agora!!”, disse Sundermann baixinho, mas profundamente enfurecido. Olhou pra sua mão esquerda e viu que ali estava o cinto que segurava suas calças, que ele havia tirado depois que Liesl o desafiou, mandando estupra-la. As ideias fervilhavam na sua cabeça a cada segundo, mas ele resolveu que talvez o mais lógico poderia ser o mais efetivo.

Ele jogou seu cinto ao redor do pescoço de Liesl e começou a enforca-la com toda sua força. Liesl deu um grito chamando por ajuda (o mesmo que Alice ouviu, do lado de fora do celeiro), enquanto tentava se soltar de Sundermann. Seu reflexo a fez levar as mãos na cinta, tentando soltar do seu pescoço, mas a força do alemão era maior. Seu objetivo era apenas um: mata-la a todo custo.

Sundermann estava com a cara ainda mais distorcida. Era curioso ver o que a guerra fazia com as pessoas. Ele havia perdido totalmente a humanidade e qualquer controle que tinha sob sua mente. Seus olhos estavam vermelhos, esbugalhados. Transpirava por todos os poros possíveis da sua pele. Bufava um hálito pesado e fétido. Da sua boca caía uma baba esbranquiçada, que era expelida cada vez mais que ele bufava em cima do rosto de Liesl.

“É agora que você vai morrer!”, dizia Sundermann fora de si, “Você vai morrer agora!”, repetindo a mesma frase várias e várias vezes baixinho, como se recitasse um estranho mantra enquanto tentava matar Liesl.

Liesl não sabia o que fazer. Ela havia lutado, e ela ainda estava se recuperando dos últimos golpes dele. Golpes esses que, embora ela tivesse passado por um intenso treinamento, não deixavam de ser dolorosos e causar algum dano nela. Debilitada, puxava com toda sua força tentando folgar aquela cinta que estava atada cada vez mais forte no seu pescoço.

Eu tenho que tirar isso de mim, nossa, que força! Esse homem tá completamente fora de si! Vamos Liesl, força, força, força!, pensou Liesl, mas cada vez mais ficava mais e mais apertado.

Respirar ficou difícil logo naqueles primeiros segundos. Tentava puxar ar pela sua boca mas parecia que havia algo dentro da garganta dela, como se estivesse esmigalhando os ossos do seu pescoço entre eles. Nessas horas o desespero é tão grande que ela imaginou que sequer conseguiria voltar a respirar depois disso, de tão desesperador que era aquele sufocamento. Seu rosto começou a ficar mais e mais quente, ela estava completamente vermelha.

Vamos, força! Eu tenho que dar um jeito! Vou tentar golpear ele com as minhas pernas, talvez ele sinta e dor e comece a soltar!, pensou Liesl desferindo três chutes no peitoral de Sundermann. Porém não funcionaram, o alemão parecia uma rocha. Não apenas era resistente, como estava tão fora de si que nem mesmo a dor dos potentes chutes dela ele conseguia sentir.

Sentiu que suas forças estavam se esvaindo. Ela não conseguia mais puxar com a força inicial o cinto no pescoço que a estava enforcando, simplesmente os braços não respondiam. Tentava manter a atenção para ver se recuperava a força, mas cada vez mais e mais a visão que ela tinha de Sundermann ficava mais e mais embaçada e turva.

Coronel, coronel, não posso morrer aqui. Não agora! A gente começou essa busca por você agora, dias atrás! Por favor, se você consegue me ouvir, ouça o meu coração. Não deixe que nada aconteça!!, pensou Liesl, já começando a ser tomada pelo desespero.

Seu corpo estava se apagando. Já não sentia mais dor no seu pescoço, parecia que tudo estava caindo num imenso torpor.

Não, minhas forças estão se esvaindo... Coronel, seja meu cavaleiro e me salve. Apenas você pode fazer isso! Eu não sei onde você está, mas por favor, me ouça. Eu te peço! Não! Eu imploro! Saia da onde você está, ouça meu grito e venha me ajudar!, pensou Liesl, e como se mergulhada num mundo de alucinações via o coronel Briegel na sua frente. Mas obviamente ele não estava lá. Era algo da sua mente.

Pela primeira vez desviou o olhar, e seus olhos foram pra cima. Não havia mais Sundermann. Não havia mais os sussurros dele intermináveis dizendo que a iria matar. Francamente tudo estava sumindo, cada vez mais perdendo suas texturas, suas cores, sua luz.

Eu estou morrendo? Não acredito, justo aqui, justo agora?! Quer dizer que tudo aquilo que eu passei não valeu de nada? A vida humana realmente é tão frágil assim? Eu derrotei o Sundermann na luta. Eu sou mais forte que ele. Então porque ele está fazendo isso comigo? Coronel, porque você não me salva? Coronel, porque você está... Sumindo?, pensou Liesl, e tão rápido a alucinação apareceu, sumiu. Não havia Briegel, e tampouco havia antes. Tudo o que havia eram sombras que cada vez mais dominavam seu campo de visão, deixando-o mais e mais estreito.

Liesl estava imergindo num mundo de profunda escuridão e silêncio. E o pior disso tudo é que tudo parecia uma experiência viva, algo real, como se aquelas sombras toda a engolissem, ela perdesse os sentidos, mas ainda conseguia perceber isso, como se estivesse sendo tragada por algo mais forte que ela.

Coronel, me salva. Por favor, me salva. Apareça agora, saia da onde estiver e me salva, pensou Liesl, num último implorar.

Esse algo mais forte que ela era a própria morte.

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“Ei, olha, ela acordou!”.

A primeira coisa que Liesl viu ao abrir os olhos era um céu colorido. Na direção dos seus pés estava escuro, e era possível até mesmo ver algumas estrelas. Na sua frente havia um azul médio, que se tornava amarelo, laranja e vermelho conforme ela voltava o olhar pra cima. Deduziu que estava deitada, e pelo barulho do motor, estava deitada dentro de um jipe. O mesmo carro militar que as havia levado até lá. E estavam cobertas pelo lindo manto colorido do pôr-do-sol acima delas.

“Coronel!”, disse Liesl, se erguendo depois de despertar, “Você viu? Era ele! Ele que me salvou!”.

Do seu lado estava a jovem Anastazja. Liesl ao lembrar dela virou o rosto, mas sentiu uma dor imensa no pescoço ao fazê-lo. Estava repleto de hematomas, por conta do estrangulamento. Ao virar o corpo para tentar manter o pescoço reto viu que quem estava na direção do carro era Alice, que ao olhar pelo retrovisor viu que Liesl havia acordado.

“De quem ela tá falando?”, perguntou Anastazja para Alice, sem entender.

“Espera um pouco, vamos parar um pouco aqui. Precisamos acampar e comer alguma coisa”, disse Alice, virando o carro e o parando numa estrada de terra no meio do nada, em território polonês. Ela tirou a chave do contato, e com o rosto ainda iluminado pelo pôr-do-sol virou para o babageiro do jipe onde Liesl e Anastazja estava, e prosseguiu: “Você viu coisas, Liesl. Papai não apareceu. Eu sinto muito”.

“Mas eu o vi, Alice! Eu estava lá, sendo enforcada, eu vi claramente! Eu pedi ajuda pra ele e ele veio!”, disse Liesl, como se não pudesse entender que aquilo tudo havia sido uma alucinação. Alice olhou e baixou os olhos pesadamente, como se aquelas lembranças do que havia ocorrido há algumas horas a machucasse muito. Tanto a ponto dela não conseguir nem mesmo explicar o que havia acontecido.

“Foi a senhora Alice que te salvou”, disse Anastazja, explicando, “Ela ouviu seu grito, me deixou fora do celeiro e foi correndo até onde você estava, voltou, buscou uma pedra bem pesada e jogou na cabeça do nazista. Ele caiu desacordado, mas você também estava quase morta. Seu pulso estava muito fraco, e aí ela nos levou pro carro, já que você estava desacordada. Ainda bem que aquele outro nazista não nos fez nada! Quando eu o vi junto do outro que estava batendo em você pensei que estávamos perdidas”.

“Outro nazista? Havia mais um?”, disse Liesl assustada.

“Era o marido do Sundermann, o Goldberg”, explicou Alice, quebrando seu silêncio, “Acho que ele no fundo tem algo na cabeça. Com certeza ouviu tudo aquilo que você disse, que não fazia sentido um militar homossexual nazista caçando outros homossexuais só por que admira e segue Adolf Hitler. Eu disse a ele que o Sundermann estava só desacordado, e ele olhou pra mim com uma cara de quem estava profundamente envergonhado, como se havia se questionado internamente o motivo daquilo tudo. Ele não me disse nada, apenas me olhou com cara de tristeza e foi até Sundermann, para ampara-lo. Ele nem sequer participou do embate entre vocês. Curioso, não?”.

Liesl permaneceu no bagageiro do jipe. Anastazja desceu e ajudou Alice a montar uma barraca militar que estava junto das coisas do carro para que as três pudessem passar a noite. Por dentro ela estava destroçada. O que mais a machucava era que ela achou realmente que o coronel Briegel a salvaria, como ele sempre disse que faria, como ele sempre prometeu pra ela.

Mas não havia mais ele.

A pobre Liesl sentiu uma melancolia imensa dentro dela. Como ela, que era a pessoa que havia tomado a iniciativa e a responsabilidade da proteção de todos falhou miseravelmente dessa maneira? Se Alice não estivesse ali, com certeza ela morreria enforcada e Anastazja também já estaria mais do que morta também. Achou que Briegel surgiria montado em um cavalo branco e a salvaria de tudo e de todos, como um herói que aparecesse sempre que a donzela estivesse em perigo, mas isso nunca iria acontecer. Aquela era a vida real. E a vida real não tinha desses acontecimentos fantasiosos que ela via nos livros que tanto gostava de ler. Sentiu um medo tremendo, que se não fosse por Alice com certeza ela não estaria lá, apesar de toda machucada.

A tristeza era tanta, que ela sequer conseguia chorar. Aquele sentimento de culpa a estraçalhava por dentro, mas a vergonha de ter falhado a impedia de derrubar uma única lágrima. O jeito era prosseguir. Olhou para a polonesa e viu que não havia se apresentado formalmente a ela. Era a hora de enfim fazê-lo:

“Me desculpe, acho que agora que estamos mais tranquilas posso me apresentar. Meu nome é Liesl Pfeiffer, muito prazer”, disse Liesl, estendendo a mão para a polonesa.

Anastazja ficou completamente ruborizada, de tão tímida que ela era. Liesl por um segundo estranhou, mas prontamente abriu um sorriso para fazer a polonesa se sentir mais confortável.

“A-a-Anastazja... Maslak”, disse Anastazja, baixinho.

“Igual Anastásia, a filha do tsar russo?”, brincou Liesl para quebrar o gelo.

“Sim. Apenas se escreve diferente, mas o som é o mesmo”, disse Anastazja, já mais tranquila, soletrando seu nome.

“Prazer em conhece-la”, disse Liesl, estendendo a mão para cumprimenta-la, “Já conhece a Alice, certo?”.

“Sim!”, disse Anastazja, ainda com o rosto pra baixo, bem tímida. Ao se virar para ver Alice ela acabou tropeçando na cabana, derrubando ela toda.

“Oh, perdão, eu não vi...!”, disse Anastazja se erguendo. Mas as três deram muitas risadas pelo jeito atrapalhado e nerd da menina.

“Tem certeza que ela vai vir conosco, Alice? Essa aí vai dar muito trabalho!”, brincou Liesl. Anastazja nessa hora não entendeu a brincadeira e ficou com os olhos esbugalhados, como se elas fossem abandonar ela ali mesmo.

“Não liga pra ela, Anastazja!”, respondeu Alice, voltando sorridente a montar de novo a cabana, “Acho que é a gente quem vai te dar mais trabalho, isso sim!”.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Amber #68 - A dor da incapacidade, e o sofrimento da impotência.

“Solta ela, seu idiota!!”, gritou Alice avançando contra Sundermann. Alice, apesar de ser filha de Briegel, não sabia nada a não ser um pouco de defesa pessoal. Sua força era nada contra Sundermann, que mais se assustou com o grito do que com o empurrão que ela deu.

Liesl nessa hora aproveitou a distração de Sundermann e lhe deu um potente chute no queixo, o jogando pra trás. Sundermann caiu em cima de alguns móveis velhos gritando de dor depois do impacto. Enquanto ela observava, Liesl percebeu que algo estava ardendo no seu olho esquerdo. Quando ela colocou a mão pra tirar o que estava coçando enfim percebeu: era sangue.

“Liesl! Você tá ferida!”, gritou Alice. Liesl na verdade nem sentiu o corte, foi um corte limpo com a faca, não sentiu nenhuma dor. Apenas percebeu que estava ferida agora, por conta do sangue respingando nos olhos, “Você tá legal? Foi só aí que ele te acertou?”.

O corte era horizontal na parte superior esquerda da sua testa. Não era muito longo, mas certamente era profundo, por conta do intenso sangramento.

“Não, eu estou bem Alice, agora sai daqui! Eu desviei no último momento, ele quase acertou meu olhos. Sorte sua que você assustou ele com aquele grito que você deu. Preciso que você vá ajudar aquela menina ali no canto, ela tá em choque, acho que você pode fazer algo!”, gritou Liesl, pedindo pra Alice ir ajudar Anastazja.

Novamente era o embate entre Sundermann e Liesl. Ele se ergueu segurando a faca em mãos, e Liesl enfim jogou sua pesada mochila de lado e arregaçou as mangas do seu traje militar. Ela já havia feito treinamentos de combate contra facas com o coronel Briegel, também era uma área que tinha alguma experiência.

“Eu sou uma judiazinha porca, é? Então vem então. Finca essa faca em mim, vem!”, desafiou Liesl. Sundermann tentou dar umas investidas com a faca, mas Liesl desviou facilmente. Os dois estava girando um ao redor do outro, aguardando o melhor momento para dar uma investida, “Você quer me matar, não é? Vem logo então!”.

“Sua porquinha imunda!”, gritou Sundermann indo pra cima de Liesl, que desviou do braço dele com a faca e o segurou forte, dando um golpe e torcendo a mão do alemão, o fazendo além de soltar urros de dor, soltar a sua faca.

“Agora é a minha vez!”, anunciou Liesl, e virando o corpo com Sundermann em seu poder, fechou o punho e desferiu um golpe em seu rosto, seguido de outros dois, um no abdome e mais um no rosto. Sundermann se apoiou numa pilastra e tomou impulso indo pra cima de Liesl com um soco, que foi mal colocado e não causou muitos danos na garota.

Antes de Sundermann desferir mais um golpe, Liesl o empurrou contra a pilastra com um chute, e Sundermann bateu com as costas na pilastra e segurou o pé da menina. Liesl pegou, deu um salto e deu um potente chute no maxilar de Sundermann. Ela terminou o chute com um sorriso, como se esperasse que esse chute enfim acabaria a luta ali, mas Sundermann parecia ser feito de metal, pois ele simplesmente não caía.

Seu rosto estava completamente vermelho e sangrando. Os golpes de Liesl eram potentes e precisos. Fechando os dois punhos Liesl desferiu mais três socos em Sundermann, mas ele não apenas os suportou, como deu um contra-ataque potente contra a menina, acertando um soco no rosto e outro no seu abdome.

Porém, para sua surpresa, Liesl deu mais um chute na direção da orelha de Sundermann, o lançando contra o chão violentamente. Ela, ainda de pé, se encostou numa pilastra, cuspindo um pouco de sangue. Ela não esperava que ele ainda tinha forças pra dar um soco como aquele.

“Chega disso, Sundermann!”, gritou Alice, abraçada com Anastazja, “Isso que você faz é injusto! A Liesl não pediu pra nascer judia, eu não escolhi nascer negra e essa donzela aqui menos ainda pediu pra nascer polonesa! Você quer nos castigar não por uma escolha que fizemos, mas por algo que não tivemos como escolher antes de nascer!”.

Sundermann estava de quatro, com o rosto pra baixo. Esse último chute da Liesl foi muito mais forte do que ele pensava. Sangrando muito, transpirando, cansado, e sem ar, Sundermann imaginou que tudo poderia ter sido fácil se ele tivesse acertado aquele primeiro tiro e matado Liesl sem nenhum combate. Ele não imaginava nunca que aquela menina soubesse lutar tão bem, a ponto de subjuga-lo desse jeito.

“Asneiras e mais asneiras! Eu sou um alemão puro! Eu sou a síntese da melhor das raças desse mundo! Vocês são os erros, as falhas, e merecem ser exterminados!”, dizia Sundermann, crente no ideal que ele acreditava ser correto.

Liesl estava encostada, se recuperando dos golpes. Seu sangramento ainda não estava doendo, mas estava atrapalhando muito sua visão aquele sangue todo caindo no seu olho esquerdo. Com uma mão no ferimento e outra no estômago tentando massagear para diminuir a dor, ela viu que era a hora dela lançar alguns questionamentos contra Sundermann.

“Exatamente como a Alice falou. Eu não escolhi ser judia, nem ela negra, nem aquela menina polonesa”, disse Liesl, tomando respiração para falar a fala mais importante que viria a seguir: “E você também não escolheu ser homossexual. Você simplesmente nasceu assim. Você está nas listas de alvos de Adolf Hitler tanto quanto nós estamos!”.

Sundermann nessa hora se ergueu e correu pra Liesl, a agarrando com suas mãos, gritando de fúria. Liesl estava sendo erguida por ele pela gola da sua jaqueta, pressionada contra uma pilastra agressivamente.

“Eu não sou homossexual!! Eu não sou homossexual!!”, dizia Sundermann, mentindo pra si mesmo em voz alta, “Eu tenho uma carreira, uma vida, e ela não vai terminar por conta de uma mentira como essa! Como ousa levantar uma mentira dessas contra mim?”.

“Você não é homossexual, então? Então me prova!”, disse Liesl, olhando com um olhar de quem estava com total controle da situação, apesar do fato de Sundermann estar a segurando erguida numa pilastra, “Me come! Vamos!! Me come!!”.

Sundermann por dentro ficou profundamente transtornado com aquilo. Uma pessoa gay ouvir isso era algo invasivo e humilhante, seria como se um hétero ouvisse um pedido de um gay para transar com ele. O alemão sequer havia visto uma vagina na vida, e sequer tinha noção de como era a sensação, apenas havia transado com outros homens.

“Vai, Sundermann! Bota esse pinto pra fora! Me estupra! É capaz disso? Me come!! Vamos!!”, gritava Liesl, vendo a expressão no rosto de Sundermann ao ouvir aquilo. Ela indagava e desafiava cada vez mais Sundermann, que não conseguia fazer nada a não ser ficar lá, parado, sem reação.

Ele sequer havia visto uma vagina, e nem saberia por onde começar. Claro que ele sabia obviamente como que era o intercurso sexual entre casais heterossexuais. Mas ele nunca tinha experimentado isso numa mulher. Achava a vagina uma coisa nojenta, sem forma definida, peluda e fedida. Aquilo definitivamente não o despertava nenhum sentimento ou vontade nele.

“Me estupra, Sundermann! Faz igual aqueles seus amiguinhos do seu pelotão! Vem, Sundermann, me pega de quatro! Goza tudo o que você tem dentro de mim! Me faz chorar! Vai logo, Sundermann! Vai logo!!”, gritava Liesl, em tom cada vez mais de deboche contra Sundermann.

E aí ele foi a soltando e Liesl foi calmamente sendo levada de volta ao chão. Sundermann a olhou com uma raiva profunda nos olhos, as sobrancelhas arqueadas em fúria, como se não soubesse nem por onde começar. Decidiu então seguir o lógico, puxou seu cinto que segurava suas calças, as desabotoou e puxou o zíper. Sequer deu pra ver sua cueca, pois parou ali mesmo quando viu que a incapacidade de conseguir transar com uma mulher era bem maior do que ele poderia imaginar. Em seu coração havia um misto de medo, insegurança, incompreensão e nojo. Achava o corpo feminino algo nojento.

Ele no fundo estava profundamente constrangido, e o fato dele ter chegado até mesmo a desabotoar suas calças e parado no meio o deixou ainda mais encabulado com toda aquela situação em que ele apenas conseguia demonstrar uma raiva imensa de não ser capaz de fazer algo que parecia tão fácil, algo que todos os outros homens conseguiriam facilmente. Seu pinto continuava mole. Absolutamente nenhum tesão, nenhuma libido, nada. Era exatamente o contrário.

“Não consegue, né?”, disse Liesl. Aquele era o momento mais vexatório que Sundermann havia sentido até então, “Não consegue...”.

“Nós sabemos que você vai ser enviado para um campo de concentração se descobrirem sua orientação sexual, Sundermann. Acredite, nós não queremos isso. Não queremos que ninguém vá, nem mesmo você”, disse Alice se erguendo com Anastazja, que ainda chorava muito e estava inconsolável, “Nenhum de nós escolheria ser o que somos nessa época e nesse momento se pudéssemos escolher. A mesma coisa é com você. Nenhuma pessoa escolhe ser gay, não é uma ‘opção’ como algo que você pode escolher e deixar para trás. Simplesmente as pessoas nascem assim, e não temos nada a fazer a não ser aceitar. Acha que num mundo preconceituoso, que condenam pessoas homossexuais à morte, acha que realmente uma pessoa escolheria ser homossexual se tivesse esse poder de escolha? É óbvio que não! Você é uma das poucas pessoas que sabem que a Liesl é judia. E nós sabemos que você é homossexual. Será que não podemos fazer uma trégua? Essa luta provou com a Liesl é bem superior a você, e não temos motivos pra denunciar você, e você também não tem motivos para nos denunciar”.

Alice, abraçada com Anastazja saiu pela porta dos fundos do celeiro, de onde haviam entrado. Ao sair e olhar pro lado viu ninguém menos que Izaak Goldberg, o marido de Sundermann, com uma cara abatida. Ao contrário de Sundermann, Goldberg sempre se questionou por ser gay e ter que trabalhar fazendo o trabalho sujo, lutando pelo Führer. Sua expressão triste e envergonhada mostrava que ele sabia que aquelas duras palavras que Alice havia dito eram repletas de verdade.

Goldberg não conseguiu falar nada. E tampouco Alice disse algo para ele, os dois apenas trocaram olhares. No fundo Goldberg tinha tanta vergonha do que Sundermann estava fazendo que talvez nem saberia onde enfiar a cara.

“Aaaaaaah!”, gritou Liesl, de dentro do celeiro. Alice deixou Anastazja sentada no gramado e foi correndo até lá. Ao cruzar a porta viu que Sundermann estava enfocando Liesl com seu cinto.

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