terça-feira, 27 de junho de 2017

Mulher Maravilha (2017)


Semana passada fui ao cinema assistir o tão aguardado Mulher Maravilha! :) Peguei um resfriado chato porque tinha um moleque atrás de mim espirrando e espalhando vírus para os quatro pontos cardeais, mas tirando isso o filme foi excelente!

O filme conta a história de Diana, princesa de Themiscyra, uma ilha isolada no meio do oceano que é guardada pela magia dos deuses do Olimpo, pois nessa ilha habitam as guerreiras que são o elo entre humanos e deuses, as amazonas. Criada do barro, e traga à vida por Zeus, Diana vive uma vida tranquila, isolada na ilha, até que o destino a traz um espião americano, Steve Trevor, que acidentalmente cai na ilha fugindo dos alemães na Primeira Guerra. Sabendo que existe um mundo além daquele mar, Diana resolve se armar com as armas divinas da ilha e ir para o fronte da Primeira Guerra Mundial, parar a guerra e salvar o mundo.

Eu gostei do humor
A reclamação de muita gente depois de assistir Batman v. Superman - A origem da justiça era que o filme era sério demais. É perfeitamente plausível, pois ao contrário da DC, a Marvel quase nunca saía dos quadrinhos (tirando X-Men ou Homem-aranha no máximo que teve animações), e tem muita gente que tem muito preconceito da DC pelo seu público inicial ter sido o infantil, com suas conhecidas associações com os estúdios Hanna-Barbera. Eu conheço gente que, além de detestar a DC, acha que por exemplo os Super-gêmeos fazem parte da Liga da Justiça, desmerecendo uma trupe clássica de heróis por uma adaptação infantil mal-feita.

Eu prefiro mil vezes a seriedade do Batman v Superman, e morri de medo quando via piadinhas no meio dos trailers. Tava com medo de ficar como os filmes cômicos do Homem de Ferro, que embora muita gente goste, simplesmente perdeu totalmente o aspecto melancólico e inseguro do real Tony Stark dos quadrinhos (talvez eles conseguiram reverter um pouco no Homem de Ferro 3, mas voltou a cagar no Guerra Civil com ele querendo comer a tia May, que até eu queria comer).


Mas não ficou muito não. A Etta Candy (Lucy Davis) obviamente é muitas vezes a que mais faz a gente rir, mas ela fez a adaptação perfeita da personagem original dos quadrinhos, que é a melhor amiga gordinha da Diana Prince! Muitas piadinhas vem do Steve Trevor também e algumas raras vindas da Diana, mas não prejudica muito não. Quando tem que ser sério é sério, e não é o humor forçado do Tony Stark e cia. Mas como disse acima o medo era as piadas ficarem fora de controle e transformar o filme em uma comédia, e tomando em consideração o passado da DC com animações infantis, cagar a imagem dos filmes atuais. Mas não. Ficaram poucas e boas, bem colocadas.

Eu gostei porque foi dirigido por uma mulher
Eu não sei se uma mulher havia dirigido antes um filme de superheróis. E a DC acertou em cheio ao chamar a Patty Jenkins para dirigir o filme. Jenkins conseguiu manter o filme e os personagens na sua essência, e adicionou alguns pequenos detalhes, um toque feminino em cenas com tamanha profundidade que eu duvido que um diretor homem conseguiria fazer. Se você for assistir, repare nos detalhes.


Muita gente comentou que no filme a Diana é bem independente, que não tem homem que manda nela e blábláblá (é igual aquela "ilusão de feminismo" do Star Wars 7 com a Rey dizendo "não pega na minha mão!"), mas o que eu mais achei bacana foi como foi colocado o romance dela com o Steve Trevor. Como a relação evolui e, acima de tudo, a questão da troca de olhares (abaixo).


Ok, o facto da Gadot ser uma ótima atriz ajudou, mas se o diretor não permite uma cenas dessas, jamais rolaria. A cena da primeira vez que ela e o Trevor fazem amor é de uma delicadeza e romantismo imensa, e quase não tem diálogos. É algo que a gente não imagina ver em filmes de heróis, talvez o mais perto que a DC chegou foi naquela cena do começo do Batman v Superman que o Clark come a Lois na banheira. Eu duvido que um diretor conseguiria fazer cenas assim com tamanha profundidade. Patty Jenkins fez algo notável, e isso porque só estou citando uma das cenas. Existem várias outras menores e igualmente memoráveis.

Eu não gostei do timing
Isso é meio difícil de falar sem dar spoilers, mas vou tentar mesmo assim. Acho que timing em filme, assim como na comédia, é essencial. As coisas devem acontecer no ritmo certo e ir evoluindo, até o clímax e desfecho finais. E parece que os filmes da DC todos estão indo nesse sentido, e o que era sensacional no começo na época do Homem de Aço, Batman v Superman e até no Esquadrão Suicida, hoje tá meio batido e meio... Previsível.


Pra não dar spoilers sobre a Mulher Maravilha, vou dar exemplo o que acontece no Batman v Superman. O filme inteiro você fica no aguardo da batalha entre Clark Kent versus Bruce Wayne, e a batalha acontece (e ao contrário do que muita gente pensou, eu achei incrível), mas aí quando a batalha termina... Pum! O vilão era outro, era o Apocalypse (da DC, no caso).


A estrutura do filme da Mulher Maravilha é extremamente parecida. Você fica o filme inteiro achando que o vilão é uma pessoa e no final parece aqueles filmes do Scooby Doo. Mas o problema da Mulher Maravilha ainda é pior: o filme chega em uma "calmaria" depois da morte do "vilão-que-todo-mundo-achava-que-era-o-principal" e aí o vilão verdadeiro aparece sem dar nenhuma pista antes que era aquela pessoa, e isso é algo que sobe várias interrogações na cabeça, pois o filme fazia sentido terminar naquela parte. Acho que isso tá meio passado e repetitivo, espero que a Warner arrume isso e sejam mais criativos. A mesma fórmula fica chata se repetirem dez vezes em todos os filmes.

Eu gostei da Gal Gadot
Eu brinco que o mundo nunca antes foi tão democrático e receptivo. Temos um Superman interpretado por um britânico, uma Lois Lane ruiva (se bem que eu sou apaixonado pela Amy Adams), e uma Mulher Maravilha judia, israelense e tudo. Ok, tudo bem que as donzelas israelenses são bem conhecidas por sua beleza inegável e a Gadot não é diferente. No filme ela está impecável.



E ela tem esse corpaço e tem duas filhas, já! Essa entrevista no Jimmy Kimmel foi uma das que eu mais dei risada. Pra quem não entende inglês: Gadot conta que estava levando sua filha no parquinho para brincar, e a filha dela ao fazer amizade com as outras crianças diz: "Minha mãe é a Mulher Maravilha!", e as mães ouvem e ficam olhando pra Gadot, sem os trajes da heroína e ela responde: "Toda mãe é uma Mulher Maravilha", hahaha. Como não amar?

Eu não gostei da dublagem
No cinema que eu fui, no Shopping Mais Largo Treze, só havia cópias dubladas e o pior: em 3D. Estamos em 2017 e os cinemas continuam com essa merda que só dá dor de cabeça e conjuntivite nos óculos mais sujos que tudo. Mas nada me deixou mais frustrado que a escolha da dubladora da Gadot: Flávia Saddy.



Eu acho que nunca cagaram tanto. Flávia Saddy tem uma voz muito aguda, muito de menininha, muito de Mia Colucci do Rebelde ou Lisa Simpson. A Gal tem uma voz mais grave, mais de mulherão, não de adolescente. A dubladora original do desenho, Priscila Amorim, acho que estaria mais que perfeita, mesmo se fosse a Gadot. Infelizmente as dublagens brasileiras tão sempre com as mesmas vozes fazendo tudo, e tá ficando ridículo sem dar chances pros novos atores. Praticamente 80% das dublagens brasileiras tem a Flávia Saddy e o Alexandre Moreno (ou em muitos casos, ambos!). Acho que todo mundo que prestigia e gosta dos dubladores brasileiros também tá cansado de sempre as mesmas vozes. Chega, né? Tá muito saturado!

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Amber #62 - Era uma vez Alice, brincando com a gatinha Dinah.

11 de setembro de 1939
10h41

“Entendi. Muito obrigada então e desculpa o incômodo”, disse Alice enquanto desligava no telefone, o colocando de volta ao gancho, “Até mais”.

As batidas na porta eram constantes, sem pausa. A pessoa do outro lado parecia realmente estar com muita urgência. Alice Briegel já estava com os olhos cheios de lágrimas. Tinha perdido a conta das ligações por volta da trigésima – e já fazia pelo menos meia hora desde a trigésima. Limpou com um lenço o nariz e os olhos e foi até a porta da sua casa.

“Já vai, já vai!”, disse Alice se aproximando da porta. Ao abrir, era Liesl. Ela estava suada, sem ar. Aparentemente havia corrido bastante. Estava com um jornal na mão.

“Fui na SD, perguntei a todos lá, ninguém sabe de nada!”, disse Liesl enquanto entrava na casa de Alice, “Na volta passei e comprei um jornal. Olha só na sétima página o que tá escrito perto do rodapé”.

Alice ao ver ficou em choque. Segurando o jornal ela encostou na parede e levou a mão até a boca. Não havia como imaginar o que o pior havia acontecido ao ver aquele anúncio: Roland Briegel, agente da SD, encontra-se atualmente desaparecido.

“E como foi na SD? Não é possível que ninguém tivesse nenhuma pista!”, gritou Alice, agarrando Liesl pelos ombros, depois de jogar o jornal no chão.

Nessa hora Liesl se lembrou do que havia acontecido há uma atrás, quando havia ido até a SD:

“Weigl, espera aí, um minuto!”, chamou Liesl depois de passar por todas as pessoas do setor buscando por informações do coronel Briegel. Ela não gostava de conversar com Weigl, pois ele sempre dava umas cantadas extremamente bregas, mas se havia uma pessoa que ela tinha esperança de saber algo, era ele. Ao ouvir os chamados de Liesl, Weigl ainda segurando vários envelopes com documentos se virou com um sorriso para Liesl:

“Braun!”, chamou Weigl, chamando Liesl pelo sobrenome falso, “Como estão as coisas?”.

Ele parecia nervoso. Mas Liesl não sabia dizer se ele estava nervoso pois sabia de algo, ou se estava nervoso em falar com ela. Como sempre Weigl parecia aquele moleque apaixonado idiota padrão, sorridente, extremamente solícito e simpático. Ás vezes grudento, uma característica que Liesl detestava.

“Você sabe algo do coronel Briegel? Ele não voltou pra casa essa noite. Estamos todas preocupadas”, disse Liesl, observando cada uma das reações de Weigl.

Liesl aprendeu com Briegel como fazer leitura de linguagem corporal. Weigl, que já estava abraçado com a tonelada de papel, mostrou estar ainda mais focado nos papéis depois da pergunta sobre Briegel. Ela sabia que aquilo significava que ele estava entrando na defensiva, mas não sabia exatamente se era por conta de estar falando com ela ou se estava escondendo alguma coisa. Mas ela iria descobrir com algumas técnicas simples de interrogatório que Briegel a havia ensinado. Ela só precisava de tempo para lhe fazer mais algumas perguntas e ver a reação dele.

“O coronel? Não. Infelizmente não sei de nada”, mentiu Weigl. Seus olhos ficavam passeando por todo o redor, como se estivesse buscando uma rota de saída. Liesl ao observar isso sabia que talvez ele estaria mentindo, mais uma ou duas perguntas poderia no mínimo pegar sinais de evasão, o que poderia caracterizar como uma mentira, “Ele não voltou pra casa dele?”, desconversou Weigl.

Era hora do abate.

“Sim. Ele não voltou. Você viu que horas ele saiu, se ele deixou algum recado dizendo pra onde iria?”, perguntou Liesl. Mas nessa hora uma pessoa alta e imponente apareceu logo atrás de Weigl. Era ninguém menos que o chefe da SD, e do Gabinete Central de Segurança do Reich, e chefão da região, Reinhard Heydrich:

“Braun! O que raios está fazendo aqui? Porque não está auxiliando o Briegel?”, bufou Heydrich, com uma voz tão grossa e fria que lhe parecia conferir ainda mais o título de um dos homens mais cruéis do Reich. Liesl era corajosa, mas sabia que bater de frente com Heydrich poderia resultar em uma punição enorme.

“Herr Heydrich”, disse Liesl, encarando Heydrich, mas extremamente educada, “Infelizmente o coronel Briegel não voltou pra casa. Vim perguntar se alguém sabia de algo, ele não me avisou nada”.

Heydrich deu sinal mandando Weigl continuar com o que estava fazendo, levando os papéis até sua sala. Foi um imenso alívio para Weigl, e Liesl ficou sem jeito de continuar o interrogatório com ele. Encarando Liesl no corredor, Heydrich se aproximou dela. Até seu jeito de andar parecia pesado, ela raramente tinha que lidar com ele, uma vez que ela era subordinada de Briegel. Mas ainda assim Liesl permaneceu sem dar um único passo pra trás, enquanto seu coração disparava por estar na presença de um dos homens mais cruéis da elite nazista.

“Fiquei sabendo há pouco quando li o jornal”, disse Heydrich, dando um jornal pra Liesl, “Não podemos perder o Briegel. Será que você consegue ir atrás dele, Braun?”.

Liesl viu o jornal na página que Heydrich havia deixado e ficou assustada. De fato Briegel havia sumido, e uma nota no jornal na sessão de desaparecidos estava pedindo informações do seu paradeiro. Seu coração que já estava a mil agora estava ainda mais acelerado. Será que Briegel está bem?

“Eu irei sim”, disse Liesl, olhando para o nota no jornal sobre o desaparecimento, “Preciso de algumas semanas, herr Heydrich. Umas duas ou três semanas. Buscarei todas as pistas e irei atrás do coronel”.

“Faça isso. Está autorizada a ir buscar Briegel e averiguar quaisquer pistas. Agora saia da minha frente que tenho muita coisa a fazer!”, bufou Heydrich, passando por Liesl com pressa.

De volta com Alice, Liesl contou tudo o que havia acontecido na sede da SD. Incluindo o encontro com Heydrich e Weigl.

“Será que o Weigl não estava mentindo?”, perguntou Alice, “Você tem que voltar lá e terminar e interrogar ele!”.

Liesl balançou a cabeça. Era claro que Alice estava completamente desesperada, mas isso não a levaria a nada. Era Liesl quem devia manter a calma e tentar achar algum caminho no meio desse mar de dúvidas.

“Eu tenho uma pista”, disse Liesl. Nessa hora os olhos de Alice ficaram arregalados, como se no fundo se enchessem de esperanças, “Depois dessa conversa com o Heydrich eu fui até o escritório do coronel. Parece que ele havia saído ás pressas, pois ainda tinha umas pastas abertas em cima da mesa dele. Eu dei uma olhada por cima, mas todos ali pareciam ser engenheiros, físicos, mas de altíssimo nível, catedráticos mesmo. Só havia uma coisa que me deixou intrigada”, nessa hora Liesl olhou pro lado, como se algo extremamente perturbador havia ocorrido enquanto olhava esses documentos.

“O quê? O que te deixou intrigada?”, disse Alice, tentando fazer com que Liesl colocasse logo tudo pra fora.

“Haviam cinco pastas. Três engenheiros foram mortos em circunstâncias estranhas, como acidentes de carro, envenenamento e causa desconhecida. Um deles se mudou para os Estados Unidos como refugiado. E o último a ficha dele simplesmente não estava lá! Apenas a pasta!”.

“Papai sempre foi muito organizado. Ele nunca deixaria a mesa dele bagunçada, menos ainda levaria papéis e deixaria a pasta vazia”, disse Alice, que conhecia muito bem seu próprio pai. Nessa hora ela ficou refletindo, como se uma resposta para tudo aquilo viesse do nada na sua cabeça. Quando enfim sabia olhou pra Liesl com os olhos arregalados, como se soubesse de algo, “Exceto se ele pegou os papéis e deixou na casa dele! Vamos dar uma olhada no escritório dele, na casa dele!”.

A casa de Briegel era vizinha da de Alice, nos subúrbios ricos de Berlim. Era um bairro verde, extremamente bonito, onde vivia a mais alta classe da Alemanha. Alice e Liesl apenas cruzaram o portão e chegaram na casa ao lado, a casa de Briegel. Como Alice era a filha, e vivia visitando o pai, tinha um molho de chaves para poder entrar quando quisesse. E rapidamente as duas chegaram no escritório particular de Briegel, no primeiro andar da sua casa.

“É aqui. Onde será que ele deixou?”, perguntou Alice. Mas Liesl logo ao entrar perdeu grande parte das esperanças. Ao contrário da bagunça na mesa dele na SD, o escritório pessoal de Briegel parecia estar impecavelmente intocável, como se ele nem mesmo tivesse passado ali. Tudo estava organizado, limpo, absolutamente tudo no lugar.

“Ei, Alice, vem cá, rapidinho!”, chamou Liesl enquanto reparava algo na escrivaninha, “Tem uma gaveta aqui, está trancada com chave. Se existe um lugar talvez seja aqui. Exceto se ele guardar doces, ou fotos de mulheres peladas”.

“Se fosse o tio Schultz até daria pra imaginar, mas papai nunca teria essas coisas numa gaveta dessas”, disse Alice, que depois de ver a gaveta trancada olhou para a imensa estante de livros de Briegel, que cobria todas as paredes do seu escritório pessoal, “Sabe, quando a gente é criança a gente acha tudo o que os pais tentam esconder da gente. Tudo mesmo”, Alice pegou um livro, bem surrado, de Alice no País das Maravilhas. O mesmo livro com gravuras que ela havia visto pela primeira vez depois que seu pai a salvou na África. Ao abrir o livro uma chave caiu no chão carpetado, “Quando a gente é criança, acha tudo. Tente usar essa chave na gaveta, Liesl, por favor!”.

Liesl ficou assustada com aquilo, mas ainda assim pegou a chave. Realmente Alice conhecia Briegel como ninguém. Ela cobiçava essa intimidade que Alice tinha com seu pai. Queria muito ser assim com Briegel, mas sabia que ser como a filha seria muito difícil. Ao pegar a chave e colocar na fechadura da gaveta Liesl viu que realmente era aquela a chave que deveria abrir aquilo. Mas antes de girar a chave e puxar ela parou e olhou para Alice, segurando sua mão.

“Alice, eu não sei o que está nessa gaveta, mas tenho um pressentimento que a partir do momento em que descobrirmos qualquer pista que nos leve ao coronel não conseguiremos parar até que nós o encontremos”, disse Liesl, segurando firmemente a mão de Alice. Ao terminar a frase Liesl percebeu que Alice estava apertando a sua mão. Apertava tanto que era possível sentir até mesmo a pulsação uma da outra, “Não vai ter como parar depois de vermos isso, só poderemos seguir em frente. Tem certeza absoluta que é isso que você quer?”.

Alice nessa hora olhou para Liesl. Alice era um pouco mais alta que Liesl, mas a diferença era muito pouca. Os olhos da filha de Briegel começaram a brilhar e ela até esboçou um tímido sorriso, o que despertou muita confiança em Liesl. Não era preciso dizer muita coisa depois de ver aquela cena.

“Vai, Liesl, vá em frente. Abra a gaveta!”, disse Alice, cheia de esperanças. Nessa hora ela soltou a mão de Liesl que girou a chave, colocando a mão na empunhadura da gaveta, pronta para puxar.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Amber #61 - Quando o mágico pede para desaparecer.

10 de setembro de 1939
20h10

Hermann Weigl era um jovem de dezoito anos. Era também um dos muitos que pareciam ser o estandarte da nova juventude nazista que estava nascendo naquela época. Weigl era um bom garoto, apenas estava seguindo a ideologia errada. Muito obediente, conquistou seu espaço na SD depois de se destacar durante vários anos consecutivos na Juventude Hitlerista, a Hitlerjugend, um braço nazista para cultivar os preceitos de Adolf Hitler com a juventude da época, criando pessoas centradas no ideal da nacional-socialista.

Já estava tarde da noite daquele dia, e muitas pessoas já haviam deixado o escritório da SD. Porém Weigl ainda tinha muita papelada pra organizar, e decidiu ficar até um pouco mais tarde. Seus pais, embora fossem alemães e completamente arianos, não concordavam em ver o filho servindo tão próximo ao regime. Seus pais eram um dos muitos cidadãos alemães que foram obrigados a se calar do que falar algo contra Adolf Hitler.

Afinal o custo de uma opinião no meio de uma ditadura em geral é a própria vida.

“Weigl? Você ainda tá aqui?”.

O jovem Weigl no fundo tinha um bom coração. Talvez de tanto ter sofrido lavagem cerebral pelos discursos recheados de caretas de Adolf Hitler ele tenha criado uma visão distorcida, mas incrivelmente pura, do ideal do Führer. Ele não conseguia fazer mal a ninguém. Mas não acreditava que matar ou espancar judeus fosse errado, afinal, eles não eram dignos de serem chamados de humanos. Mas o fato de achar estar correto lhe fazia impedir de ver o quão terrível era aquela visão de mundo. Weigl não tinha um mal puramente calculista no coração como tantos outros chefões nazistas. Ele era uma dessas pessoas que estava tão impregnada com as leituras da autobiografia de Hitler, o Mein Kampf, que acreditava que aqueles conceitos de supremacia ariana que estava escrito lá eram verdade. E não via mal nenhum nisso.

“Coronel Briegel?!”, disse Weigl assustado. Ele tinha uma imensa admiração por Briegel, mas nem tinha ideia dos planos de Briegel de derrubar Hitler ou suas ideias anti-nazistas, “Pensei que o senhor já havia voltado! O que o senhor tá fazendo aqui?”.

“Sim, na verdade já estava de saída já”, disse Briegel se aproximando da mesa de Weigl, “Muita papelada?”.

“Sim, muita”, disse Weigl. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, e Weigl avançou na conversa ao mesmo tempo que Briegel: “O senhor pod--“.

Totalmente sem jeito depois de ter falado ao mesmo tempo que Weigl, Briegel gentilmente pediu pra ele prosseguir, gesticulando com a palma da mão.

“Por favor, diga Weigl. Você primeiro”, disse Briegel, cordialmente.

Weigl idolatrava Briegel. Ouvia as histórias, o jeito que ele sobreviveu em Guernica, as façanhas heroicas, e nunca conseguia ver que debaixo de todo aquele endeusamento que ele dirigia ao Briegel havia uma pessoa de carne e osso. Com todas as virtudes, defeitos, e sem nenhum daqueles atos fantásticos que ele havia ouvido de boatos. Embora Briegel desmentisse tudo, o garoto via Briegel com a certeza de na sua frente ver um ser em apoteose. Um ser humano que desafiava até mesmo os deuses.

“Eu fiz uma carta”, disse Weigl, tirando da gaveta, “Fiz especialmente pra Liesl. Será que o senhor poderia entregar e ela?”, ao mostrar a carta pra Briegel, Weigl estava com as mãos tremendo.

Briegel pegou a carta e colocou no bolso. Ele gostava de Weigl, afinal era um garoto gentil e trabalhador. Não parecia gostar de brigas, e tinha um futuro extremamente promissor. Só havia um problema que mudava tudo: Liesl era metade judia. Embora Briegel houvesse tomado todos os cuidados para que Liesl mudasse de nome para não levantar suspeitas, era claro que esse sentimento que Weigl sentia por Liesl era um amor impossível. Porém, Weigl do jeito que era fiel aos ideais nazistas, nunca poderia nem imaginar que Liesl era metade judia. Jamais. Se talvez ele não fosse um desses “estandartes da juventude nazista” como era estampado no seu rosto, sem dúvida Briegel daria a maior força para que ele ficasse com Liesl. Ela já era uma mulher, e merecia um cara como ele – tirando o fato de ser nazista, claro.

“Tudo bem, eu entrego sim”, mentiu Briegel. Ele sabia que Liesl sabia que Weigl tinha sentimentos por ela, mas ela própria sempre pediu pra Briegel a proteger dele, já que naquela época dificilmente uma pessoa declararia os sentimentos em algo não arranjado por pessoas mais velhas, “Então eu gostaria de aproveitar e te pedir um favor também”.

Weigl abriu um sorriso de bochecha a bochecha. Ele sempre sonhou em ser útil para o cara que lhe havia ensinado tudo. É verdade que Weigl era um dos muitos agentes que haviam recebido o treinamento de Briegel e Schultz. O que nenhum deles sabia era que o que Briegel e Schultz os ensinou era algo bem superficial, nem mesmo 10% da capacidade de um agente da Inteligência que os dois amigos tinham. Era uma forma de passar o tempo sem criar agentes muito qualificados trabalhando em prol do Terceiro Reich. Para as pessoas de fora eles eram a nata da Inteligência. Mas para Briegel e Schultz eram piores que muitos iniciantes na arte da espionagem.

“Weigl, eu preciso que você me faça um favor, uma coisa que só você é capaz de fazer”, pediu Briegel. A reação de Weigl era um misto de surpresa com determinação em fazer qualquer coisa que seu ídolo pedisse. Briegel depois prosseguiu: “Preciso que você me faça desaparecer do mapa”.

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