quarta-feira, 20 de junho de 2018

Amber #114 - Improvável rendez-vous (3)

Saldaña e White continuavam ali, sem esboçar nenhuma reação de querer se desvencilhar, ou fugir da custódia do pelotão do Pássaro Vermelho. Ali, encarando todos os presentes, e observando a capacidade de destruição do monstro que havia sido mandado para buscá-los, estavam prontos para provocar todos ali, tecendo um comentário malvado mais uma vez.

“Vocês não têm como fugir. Desistam. É impossível”, disse Saldaña, carregado no sarcasmo, “Joguem a toalha. Vocês viram como transformar em churrasco mais de vinte nipônicos de uma só vez. Não tem como vencer. Ainda não querem nos entregar?”.

Ho, que ainda estava em choque vendo o massacre, não acreditou que estava ouvindo palavras naquele tom vindo de Saldaña. Seus olhos derrubavam lágrimas, mesmo vendo de longe todos aqueles corpos carbonizados, paralisados na posição em que morreram, fixando para sempre suas feições de terror, medo e dor para o além-vida.

“Transformar em churrasco? Espera aí, foi isso que eu ouvi? Depois de presenciar essa carnificina na sua frente, pessoas morreram, gritando sem chances de nem se defender, você ainda diz que eles viraram churrasco?!”, gritou Ho, se aproximando furiosa aos passos largos até onde estava Saldaña, “Seu patife cretino! Onde estão seus sentimentos, seu maldit–“.

“Espera, Ho”, disse Tsai, a impedindo de se aproximar de Saldaña, que não recuou um passo, e ficou encarando a chinesa do começo ao fim, “Eu já disse, Saldaña. Não vamos te entregar. Vamos lutar até o fim”.

Saldaña não conseguia entender da onde Tsai tirava essa firmeza de caráter. Absolutamente nada parecia a abalar, ela sempre se mantinha tranquila, mesmo nas situações que tirariam qualquer pessoa do sério. Por outro lado Tsai não entendia como Saldaña não fazia nenhum esforço em fugir sorrateiramente, e continuava lá, como se aguardasse uma autorização das pessoas que o detinham para que ele fosse entregue. Essa situação criava até uma estranha confiança e a certeza de que ele não fugiria, e que poderiam deixar ele lá, que ele faria nada.

“Ei, princesa, tenho uma ideia”, disse Schultz, ainda sentado, tentando não se mexer muito por conta da fratura. Ele gesticulou para que Tsai fosse rapidamente lá, “Tem uma granada de fumaça aí? O que temos que fazer é alguma maneira de interromper sua visão para que ele não ataque”.

Huang então se aproximou dos dois para ouvir o plano. Ho parecia precisar ficar um tempo a sós, estava abalada e ainda muito chocada pelas imagens que havia visto da chacina que aconteceu na sua frente.

“Eu tenho uma aqui comigo sim, Schultz”, respondeu Tsai, mostrando, “Mas como você acha que podemos ataca-lo? Balas apenas não funcionam”.

“Acho que tenho ideia do que você está pensando, alemão”, disse Huang, “Aquele caminhão de artilharia tem um canhão. Atirar o maior número de balas para neutraliza-lo”.

“Exato. O problema é se ele usar as chamas”, disse Schultz, pensativo, “Não consegui pensar numa solução para isso!”.

“Acho que já sei”, disse Tsai indo até suas coisas. Ela tirou das suas coisas uma forte corrente de aço com um gancho na ponta, que não era muito longa, mas teria alguma serventia, “Essa corrente aqui pode ser nosso trunfo”.

“Espera aí, porque diabos você carrega uma corrente de aço?”, perguntou Schultz, sorrindo sem acreditar no que via.

“Na verdade é da Ho. Mas como ela sempre tem que carregar muitas armas pesadas, eu dou uma força pra ela”, disse Tsai, mas aquilo não entrava ainda direito na cabeça de Schultz.

“Parece que só nós dois podemos fazer isso, Tsai”, disse Huang, olhando para o estado digno de pena que Ho ainda estava, “Eu o amarro e você atira o canhão?”.

“Não. Eu irei amarrar e você cuida do canhão. Eu sou mais rápida, tem que ser alguém que consiga escapar daquelas chamas”, disse Tsai, se prontificando para a missão.

“Melhor irem logo! Ele está começando a vir para cá!”, disse Schultz, e então os dois se prepararam.

Huang desceu na frente correndo a toda velocidade, lançando a granada de fumaça. Quase que de maneira instantânea uma cortina de fumaça se abriu na frente do monstro das chamas, atrapalhando sua visão.

Tsai e Huang se dividiram, cada um indo para um lado diferente do monstro, mas sem entrar na cortina de fumaça ainda. Huang foi pela esquerda, chegando até o local onde o caminhão de artilharia estava, rapidamente entrando e tomando o local do piloto.

O monstro começou a lançar chamas na sua frente, acreditando que Tsai e Huang eventualmente estariam na sua dianteira. Tsai foi pela direita, e munida da corrente, entrou na fumaça. A granada de fumaça duraria por ainda alguns segundos, eles tinham que ser rápidos.

Anda logo, Tsai! Cuidado!!, pensou Schultz, mas ele não conseguia fazer muita coisa, pois a cada pequeno movimento ele levava a mão ao seu peito, com a dor da costela fraturada rasgando sua pele.

A escuridão da noite simplesmente não existia no meio daquelas chamas todas lançadas pelo monstro queimando a vegetação ao redor. Já dentro da fumaça Tsai foi avançando vagarosamente, até que viu um vulto muito próximo na sua frente. Era o ser que cuspia fogo!

“Vamos ver se você aguenta isso!”, disse Tsai antes de lançar a corrente, mas nesse exato momento o monstro virou com os braços cuspidores de chamas na direção de Tsai, que rapidamente pulou por cima, se posicionando nas costas do monstro, e fixando o gancho da corrente na junção das asas.

Porém o monstro virou rapidamente em direção da Tsai, que tomando cuidado para não ser atingida pelas chamas se jogou no chão, e aplicou um golpe com suas pernas bem no meio dos membros inferiores do monstro, o fazendo cair de costas pesadamente no chão.

Tsai de início tomou um susto, pois ela teve que empregar muito mais força do que habitualmente empregaria. Era realmente um ser muito pesado, difícil de imaginar que conseguia voar com tanta facilidade mesmo com todo aquele peso. Mas uma vez no chão Tsai apressadamente pegou o outro lado da corrente e saiu correndo para fora da cortina de fumaça, se aproximando de uma árvore na direção de onde ele não havia queimado ainda, e dando duas voltas, segurando com as duas mãos o outro lado da corrente, com os pés no tronco da árvore para reforçar.

A Gongzhu então encheu os pulmões, e gritou:

“Agora, Huang!! FOGO!!!”, gritou Tsai, e nesse momento a fumaça começou a se dissipar, dado o tempo de duração da granada de fumaça. O monstro estava começando a se erguer, ainda tentando se localizar, e Huang mirou com o canhão do caminhão de artilharia japonês naquele monstro.

E então um disparo foi sendo lançado seguido do outro. Eram disparos que emitiam um som muito alto, e era possível ver até crateras se formando ao redor do monstro, que levava cada um dos tiros à queima roupa, absorvido pela armadura com escamas.

O monstro que cuspia chamas tentava se desvencilhar, tentava fugir, tentava caminhar ou mesmo mirar em Huang suas lança-chamas, mas sempre que ele tentava algo, era alvejado novamente pelo canhão que Huang disparava. Chegou um momento que a corrente já era, sem aguentar os disparos em sequência, e uma cortina de fumaça misturada com chamas e terra começava a se erguer ao redor do monstro.

“MORRA SEU MALDITO!!”, gritava Huang, sem desperdiçar um único disparo, e então os tiros acabaram, a arma devia ser recarregada.

Tsai então correu até onde estava Huang para ajuda-lo, mas conforme toda a poeira e fumaça ia se dissipando, logo viram que não seria necessário recarregar o veículo de artilharia. O monstro estava de joelhos, com grande parte da sua armadura trincada e amassada, com diversos pontos fáceis de serem atingidos com uma arma simples.

A chinesa então sacou sua pistola e apontou para o monstro, sem atirar. O jogo havia mudado drasticamente a favor delas. Ela apenas o encarava, já esgotada, cansada, mas ainda pronta para dar um ponto final naquilo. E ela precisaria apenas de uma simples pistola e um pouco de mira para que os disparos passassem a armadura e atingissem em cheio o monstro que havia por debaixo daquilo tudo.

Tsai foi se aproximando, apontando sua arma para o monstro, e nesse momento ela reparou como era aquele estranho ser. Parecia que emitia calor por si próprio, era uma coisa muito estranha. Parecia que gases escapavam das escamas trincadas ou quebradas, mas não era possível ver se havia cor ou cheiro, apenas o som agudo do gás sendo expelido. O monstro arfava, tinha uma respiração bem cansada, como se estivesse nas últimas depois de tantos disparos.

O monstro virou o rosto e encarou Tsai. Uma voz então ecoou por todos os locais:

“Não pensem que acabou por aqui. Vocês não perdem por esperar”.

Quando a voz ecoou, o monstro que cuspia chamas apontou as turbinas para o chão e tomou um impulso para cima, abrindo as asas e voando igual um foguete para longe dali. Agora era um voo diferente, pois ele parecia uma bola de fogo viva, pois as chamas envolviam seu corpo também.

Saldaña, do topo do aclive observava toda aquela situação em silêncio com os braços cruzados e as sobrancelhas arqueadas. Não havia nada mais a ser feito.

Toda suja, cheia de fuligem, arranhada e extremamente cansada, Tsai foi até onde estavam suas coisas e as guardou. Subiu mais um pouco e carregou Schultz, o pegando de lado. O americano continuava ali parado, apenas as encarando sem dizer nada. Seus planos haviam falhado miseravelmente.

“Escuta, posso te perguntar uma coisa, sinceramente? Porquê você não fugiu, saiu correndo, ou tentou armar uma emboscada contra gente?”, Tsai perguntou para Saldaña, com a feição séria e tranquila de sempre.

Saldaña olhou para ela, ainda mantendo o olhar de superioridade. Porém ele não respondeu nada.

“Orgulho. Esse aí é orgulhoso pra caralho, dona”, disse White, olhando pra baixo e balançando negativamente a cabeça.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Amber #113 - A certeza de Eunmi.

“Ah, eu? Quem sou eu?”, disse Yamada em japonês. O soldado reconheceu os trajes do exército imperial que Yamada vestia. Apesar de estarem sujos e cheios de terra, não havia dúvida que Yamada fazia parte do exército, “Meu nome é Yamada Koichi”, disse o japonês, e logo depois de dizê-lo, ele concluiu que foi uma besteira enorme ter dito seu nome verdadeiro. Se fosse contar mentiras, era melhor começar a começar a partir daquele momento: “Eu sou da divisão trinta e oito, e me perdi do grupo tem um dia. Vi uns barulhos aqui e vim pedir ajuda, eu estou morrendo de fome e sede, será que vocês podem me ajudar?”.

O soldado ficou encarando Yamada e então gesticulou para que ele subisse.

“Tudo bem, venha cá. Tem um pouco de água aqui pra você, Yamada”, disse o soldado, e Yamada subiu fingindo estar desesperado atrás de água.

Muito bem, Yamada! Ele caiu nessa conversa igual um patinho!!, pensou Yamada, enquanto bebia água dando altas goladas.

Depois de beber a água, Yamada devolveu a garrafa e olhou ao redor. Vira que o rifle SMLE da Li estava encostado ao lado de uma mureta, e discretamente foi até onde o rifle estava, colocando sua bandoleira no ombro, pronto para levar para Li, como ela havia pedido.

Yamada foi se distanciando, verificando os cantos, fingindo buscar as chinesas que estavam ali no acampamento. Ao olhar para trás vira que o soldado que o havia achado estava conversando com alguns superiores, e volta e meia eles fitavam Yamada, enquanto verificavam alguns cadernos e fichas.

Droga! Eles devem estar me procurando nas fichas. Sorte minha que foi justo uma companhia de soldados que nem têm ideia de quem eu sou. Preciso é dar o fora antes que descubram quem eu sou, pensou Yamada enquanto se apoiava numa pedra esperando o momento certo para correr.

Do outro lado Eunmi se juntava a Chou, Chen, e Li. Esses três últimos estavam parados atrás de algumas árvores, com seus rostos voltados a uma direção, observando algo.

“Meninas, cheguei. Pra onde estão olhando?”, sussurrou Eunmi, e Li apontou para um jipe militar a poucos metros dali, guardado por alguns soldados.

“É tentador, mas perdemos nossas roupas, dinheiro, comida, tudo ali no acampamento por conta dessa patrulha inesperada deles. Acho que seria justo ao menos nós levarmos alguma coisa deles”, disse Li, piscando com o olho para Eunmi.

“O quê? Você tá maluca?”, disse Eunmi, descartando imediatamente a ideia de Li, “O Yamada nos disse para a gente seguir essa trilha, que havia alguém nos esperando no final dela!”.

“Qual é a sua, coreana? Você acha mesmo que a gente deve confiar naquele japonês?”, perguntou Li, e Eunmi nesse momento ficou profundamente decepcionada por ouvir que Li ainda tinha suspeitas infundadas contra Yamada.

“Li, não acredito que você vai começar com isso de novo! O Yamada é confiável! Ele nunca fez nada de errado contra a gente, até decidiu deixar o próprio exército para se juntar a gente, mesmo que a gente não tivesse nada a oferecer!”, disse Eunmi, enquanto Chou e Chen apenas ficavam ali ouvindo a conversa das duas atentamente, “Vocês suspeitando do Yamada assim nem parece que conviveram com a Tsai tanto tempo. Não seriam capazes de agir com o coração nobre que a Tsai tem, mesmo convivendo com todos os exemplos de postura e caráter que ela sempre demonstrou a todos!”.

Li então se calou, prestando atenção no que Eunmi tinha a dizer:

“Mesmo eu, que não conheço a Gongju há tanto tempo igual vocês, eu sei como é a Tsai. E consigo imaginar o que ela faria no meu lugar. A Tsai é uma pessoa com um coração tão bom que ela nunca levantaria suspeitas infundadas por apenas não ir com a cara de alguém”, disse Eunmi, e nesse momento algumas memórias brotaram na sua cabeça. Memórias que fizeram ela de certa forma sentir vergonha de si mesma, “Ao contrário de mim, que tenho muito a aprender, afinal eu não sou exemplo pra ninguém. Vocês mesmos me viram com o Jin-su. A Gongju nunca teria feito aquilo que eu fiz, mas nem por conta do meu erro eu vou deixar de tentar me aproximar dela e ser uma boa líder”.

“Então você sugere que a gente confie no Yamada e siga a trilha?”, perguntou Chou, interagindo na conversa.

“A Tsai que eu conheço mesmo que a pessoa que ela confiou a traísse, ela nunca diria que ele é errado, ou não daria uma segunda chance, ou iria puni-lo de alguma forma”, disse Eunmi, “A Gongju na verdade é uma pessoa que se erraria, erraria por ser uma pessoa boa demais. E isso na verdade é uma característica muito nobre da pessoa. Então por isso, não há motivos para suspeitar do Yamada. Se ele diz para seguirmos por aqui, seguiremos. Se der certo e chegarmos num local protegido, ótimo. Se não, mesmo que a gente morra, a gente morrerá sabendo que confiou nas pessoas, e ficaremos com a consciência limpa por ter feito o correto”, Eunmi então concluiu: “A Gongju ofereceria a vida dela por qualquer um aqui. Se mesmo a gente que estamos longe de ser como ela não fizermos assim, quem fará? Estaremos seguindo os passos dela e a deixando orgulhosa de nos ter como parceiros e amigos?”.

Aquelas palavras acertaram em cheio a alma de Li. Em seu coração a chinesa sentia um misto de vergonha com vontade imensa de agir, de mostrar em ações o que ela havia compreendido. Porém ao mesmo tempo ela tinha um orgulho, um sentimento que não a deixava mostrar uma feição diferente de descreio, embora por dentro seu coração acreditava em cada palavra que Eunmi havia dito:

“Tudo bem, você me convenceu. Deixa esse jipe pra lá, vamos seguir pela trilha”, disse Li, avançando na frente seguida pelas outras.

Yamada do outro lado tentou outra tática. Se misturou em um grupo de outros soldados para tentar fugir dali de maneira incógnita. Porém, pelo seu estado, todo sujo e fedido, cada soldado que Yamada cruzava fazia uma expressão de repulsa por conta de seu estado. O japonês, então, fingindo que não estava vendo nada vira que a ideia de tentar sair pelos fundos do acampamento era uma melhor opção, mas naquele instante já era tarde. Ele já estava perto da saída.

A melhor parte é que eles nem se ligaram que eu estou com o rifle da Li. Acho que eles devem estar achando que eu sou o dono real do rifle! Foi mais fácil que eu pensei!, pensou Yamada.

“Pare aquele soldado!!”, gritou um oficial, mas Yamada fingiu que não era com ele. Alguns soldados ao redor ouviram a voz do tenente e viram que ele apontava para Yamada, e logo os soldados encararam Yamada, que mesmo sob o olhar de todas as pessoas continuava andando, fingindo que não era com ele.

Com o coração na boca, Yamada orava por todos os deuses por um milagre que o tirasse dali. E então o mesmo tenente que havia dado o último grito, soltou outro, ainda mais sonoro:

“YAMADA KOICHI, NÃO É ESSE O SEU NOME?”, gritou o tenente, um grito tão alto que até Eunmi e as outras ouviram do outro lado.

“Li, é o Yamada. Temos que voltar. Acho que descobriram ele!”, disse Eunmi quando ouviu o sonoro grito do tenente ecoando por todo o local.

“Ah, merda! Eu juro pra você, coreana, se ele estiver nos levando para uma emboscada, eu vou te atormentar tanto no inferno, que você vai implorar para morrer de novo!”, disse Li, tirando a caixa e enfim a abrindo, revelando seu misterioso conteúdo, sua inesperada ‘arma secreta’.

Eunmi ficou boquiaberta ao ver o que havia na caixa. Mas enquanto Li se aprontava para salvar Yamada, Eunmi apontou com a cabeça para o jipe. Chou e Chen rapidamente entenderam o recado.

“Descobri, eu sabia que tinha ouvido esse nome em algum lugar!”, gritou o tenente, descendo na direção de Yamada, “Koichi Yamada, ex-soldado recruta do exército imperial japonês. Atual status: DESERTOR!”, disse o tenente japonês, gritando na direção de Yamada a última palavra. Apontando o dedo para o japonês, o tenente ordenou aos gritos: “DETENHAM ESSE TRAIDOR DO IMPERADOR AGORA!!”.

E então quando os soldados foram para cima de Yamada, que obviamente saiu correndo, algo acerta em cheio o peito do tenente gritão, o fazendo cair pesadamente no chão.

“Yamada, por aqui, vamos!!”, gritou Eunmi, dando a mão e puxando o japonês, que passou na frente de Li segurando o rifle dela. Quando Li viu que Yamada havia recuperado sua amada SMLE, ela deu um sorriso pro japonês.

Muito bem, japonês. Agora deixa com as meninas aqui. A gente vai salvar a sua pele, pensou Li, engatilhando rapidamente outra flecha da aljava.

A tal arma secreta de Li era um arco-e-flecha. Parecia bem antigo e usado, extremamente simples, se constituindo apenas de um pedaço de galho entortado e uma corda, sem nenhum tipo de mira, nem nada. Tinha uma aparência gastada, cheio de arranhões, marcas de uso, e até pedaços de tecido na empunhadura. Mas seus tiros tinha uma precisão milimétrica e uma velocidade incríveis. Em um piscar de olhos ela havia derrubado quatro soldados que seguiam Yamada, com tiros precisos exatamente no mesmo lugar: no meio das sobrancelhas de cada um deles.

Se Li era mortal com um rifle, naquele momento todos viram que ela poderia ser até mais letal com um simples arco-e-flecha.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Amber #112 - Improvável rendez-vous (2)

“Puxa, algo pra falar comigo?”, disse Tsai, dando um sorriso, “Então agora mais do que nunca temos que sobreviver na luta contra aquilo”, e então Tsai olhou para o estranho ser que cuspia fogo demoradamente, “O que quer que ‘aquilo’ seja”.

“As balas vão funcionar”, disse Schultz, “A Ho tem muitas balas, vai conseguir acertar. Eu sei a fraqueza desse monstro, é atirar nas junções dessa armadura. Eu já fiz isso antes”, nessa hora Tsai olhou para Schultz, assustada, “É, longa história! Depois eu conto!”.

Tsai desceu rapidamente na frente de Ho. O chão já estava ficando cheio de buracos, todas balas ricocheteando para os arredores próximos, acertando as árvores, solo, gramado, chamas, tudo o que havia ao redor do ser que cuspia fogo. Ela se aproximou dela e deu a dica que ouvira de Schultz.

“Ho, acerte as articulações! As balas vão entrar no vão, e vamos conseguir neutraliza-la!”, disse Tsai, e Ho imediatamente mirou no local que seria o ombro do ser bípede, e Tsai ordenou: “Continua atirando!!”.

E Ho com a ajuda de Huang que a ajudava a recarregar sua metralhadora atirou sem piedade no local que Tsai indicara. E estranhamente o ser que cuspia fogo havia parado de manter a pose estática, estava sendo empurrado, reagindo, mexendo os membros superiores!

“Está dando certo!!”, disse Huang, vendo os movimentos, “Vamos conseguir!!”.

E então algo aconteceu. O ser que cuspia fogo abriu os braços, e então um som ensurdecedor grave dominou o local, e de dentro das turbinas dos seus braços saíam labaredas, que não se comportavam como uma lança-chamas normal. As chamas pareciam um ciclone, se contorcendo num jato, saindo dos dois braços que estavam abertos. O barulho, as chamas, a baforada de calor, tudo aquilo foi muito súbito, assustando todos ali, que tentaram buscar abrigo.

Era um verdadeiro rugido do dragão.

“Não pode ser!”, exclamou Schultz ao observar a armadura do ser que cuspia fogo, “As balas não fizeram absolutamente nada! Nem mesmo danificaram a armadura!”.

“Caralho, do que é feito essa merda?”, perguntou Huang, sem acreditar. Saldaña e White se ergueram, as chamas ao redor estavam cada vez mais fortes, depois dos dois ciclones de chamas que saíram dos braços então, o calor era imenso, parecia que eles estavam todos assando vivos. Até respirar doía dentro do peito, de tão quente.

“Não queremos ferir vocês. Apenas queremos Saldaña e White”.

Schultz olhou para os lados. Era uma voz muito estranha no meio daquele barulho imenso de estar numa floresta sendo arrasada pelo fogo. Tsai e os outros também pareciam igualmente confusos. Era uma voz extremamente clara, soava como a composição de mais de uma voz falando em uníssono, portanto era complicado definir se era uma voz masculina ou feminina. O que era confuso era que a voz era muito clara, como se não fosse possível ouvir de onde vinha. Uma voz onipresente, impossível de se definir a fonte.

“Hã? Ouviram isso?”, perguntou Ho, confusa.

“Desistam de Saldaña que iremos sem combater. Mas caso decidam combater, não pararemos até seu extermínio total”.

“Heh... Palavras como ‘extermínio’ são aterrorizantes por si. Seguidas de um ‘total’ só mostra que você não está aqui para brincadeira, seja lá o que você for”, brincou Huang, “Eu estava cagando para esses dois aí. Mas depois dessa ameaça, eu não consigo pensar na possibilidade de os devolver para vocês”, os olhos de Huang pareciam desafiadores: “Vocês vão ter que vir pegar!”

Espera aí, porque usou o plural, quando disse que queriam Saldaña e que iriam sair sem combater? Existe outros desses? Eles possuem uma ligação? Pelo visto houve uma evolução desde o último encontro. Como se a falha das junções estivesse sido consertada, pois nenhum tiro funcionou. A área foi visivelmente reforçada!, pensou Schultz.

O ser que cuspia fogo não respondeu Huang. Aquele monstro sequer tinha expressão. Na verdade até mesmo uma cabeça convencional era difícil de enxergar nele, embora tivesse algo ali que indicasse uma cabeça, por ser bípede. O monstro flexionou os membros inferiores e apontou as turbinas do braço para o chão, e então o som do rugido foi ouvido novamente, e chamas começaram a ser lançadas para o chão, que pareciam se espalhar pelo solo, querendo dominar todo o local, queimando todo mundo de baixo para cima.

“Merda. Só se um meteoro cair aqui que a gente se salva!”, disse Schultz, colocando a perna para tentar se levantar.

Aquilo era realmente algo amedrontador. Ninguém nunca havia visto algo como aquilo, e aquele ser tinha um poder de destruição inigualável comparado com qualquer arma que o ser humano havia criado desde então. Huang puxou White pelo braço, enquanto Ho puxava Saldaña. Tsai deu apoio a Schultz para se erguer e todos começaram a fugir.

Quando o monstro cuspidor de chamas percebeu a fuga de todos, aumentou ainda mais o barulho e o nível das chamas, mas então uma explosão aconteceu, empurrando o monstro ao chão. Tsai, carregando Schultz, virou para trás para ver o que havia acontecido, sem entender. Mais uma explosão aconteceu, o acertando em cheio, e Tsai e Schultz viram que um míssil tinha vindo de cima, do céu.

“Tsai, vamos subindo, não para aqui!”, alertou Schultz, “Olha ali! São japoneses subindo!!”.

E então mais dois ou três mísseis vieram do céu, acertando em cheio o monstro que cuspia chamas, e então Tsai se escondeu no topo do aclive com os outros, observando tudo o que acontecia com o monstro lá de cima.

Diversos japoneses apareceram armados, atirando granadas, dando tiros contra o monstro, que já estava se erguendo.

“Explosões! Talvez eles tenham uma chance. Olha ali, Schultz!”, disse Tsai, apontando para um veículo militar que estava já bem próximo do local onde o monstro das chamas estava.

“É um caminhão de artilharia britânico. Uma arma antiaérea, que lança mísseis”, disse Huang, reconhecendo logo de cara o que era, “Isso aí é peça de museu. Os japoneses não tinham algo mais moderninho não?”.

“Seja peça de museu ou não, causou um belo estrago”, disse Tsai, mas a verdade era que mesmo que houvessem soldados em número muito maior, nada garantia que eles venceriam.

Na realidade, nada garantia que eles sairiam dali vivos.

O ser que cospe chamas então se ergueu, e no meio daquelas árvores pegando fogo começou a apontar as turbinas nos braços e disparar um jato de chamas sem dó contra todos os soldados japoneses, que instantaneamente viam seus corpos em chamas, e uma cena horrenda se desenrolou ali na frente de todos.

A verdade é que o ser humano capta o ambiente da maneira que bem entende. O som grave que o monstro emitia ao lançar as chamas dominava o local, mas conforme os soldados japoneses iam sendo queimados vivos, o agudo dos seus gritos desesperadores se tornava mais e mais audível. Corriam de um lado para o outro pedindo por ajuda, agonizando enquanto seus corpos eram consumidos pelas labaredas cuspidas pelo monstro, que ia os matando sem dó.

Temendo por suas vidas, alguns soldados começaram a fugir, mas o ser que cuspia chamas parecia os rastrear com eficiência total. Ele posicionava os braços no chão e um jato de chamas o impulsionava para cima, que uma vez no ar abria asas retráteis, e descia precisamente em cima dos soldados em um rasante, e então vários pontos em chamas eram vistos, um após o outro, no meio daquele morro. O monstro subia, voava uma distância, e descia em um assalto implacável, massacrando um após o outro.

E junto das mortes, obviamente viam os gritos. Gritos cheios de terror e dor, que tiravam qualquer honra ou heroísmo de se lutar uma guerra. Aquela era uma chacina. Uma chacina causada por um ser que era infinitamente mais forte do que qualquer pessoa ali jamais poderia ser. Era a covardia. Era o que a guerra tinha de mais medonho, de menos heroico, e de mais doentio.

Schultz, Tsai, Ho e Huang estava paralisados com a cena que viam.

“Inacreditável”, disse Schultz, “Mas ainda existe uma pessoa. Não tinha uma pessoa dentro do caminhão de artilharia?”.

E então, quase como se ouvisse Schultz, o monstro foi até onde estava o caminhão. Flexionou o braço para trás e deu um potente soco na porta, a amassando com uma força sem igual. Deu mais um soco, e no terceiro, a porta já havia caído, amassada como papel. Lá dentro um japonês estava aterrorizado, chorando, com o semblante expressando o pânico iminente da morte.

“Não, aquele monstro não vai fazer isso”, disse Ho, sem acreditar na cena brutal que estava prestes a acontecer, “Vai, foge, foge, foge!”.

O japonês num gesto de desespero então sai correndo do assento do caminhão de artilharia desesperadamente, esbarrando com o ombro do monstro, mas apenas o soldado foi quem foi levado ao chão. O monstro das chamas permaneceu por alguns segundos estático, ainda voltado para o caminhão antiaéreo. E então, ainda sem se virar, ergueu o braço na direção do soldado nipônico, e mais uma baforada de chamas foi lançada, o consumindo vivo.

“Não, não, não pode ser. Não acredito!”, disse Ho, em choque depois de tanta brutalidade. Era verdade que todos aqueles soldados eram seus inimigos, mas a cena, e as circunstâncias de tudo o que aconteceu, deixava esse fato de serem inimigos como apenas um detalhe. Apesar de tudo eram vidas. Vidas arrasadas de maneira implacável e impiedosa, por uns monstro que desafiava qualquer capacidade humana.

“Eles não mereciam isso gente. Eles não mereciam ter morrido assim”, desabafou Tsai, tão chocada como todos os outros ali.

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