domingo, 24 de março de 2019

Canta-me, ó moira, sobre o fio que me levou até ela (#1)

Crianças, essa NÃO é a história de como eu conheci sua mãe. Mas uma de muitas histórias que mostram que a vida é composta por fios que se entrelaçam, e mesmo que esse encontro dure apenas um ponto, e essa linha vá para outro caminho que não seja conosco, ainda assim é intenso o suficiente para deixar uma marca para sempre na nossa vida.

A primeira garota pela qual me apaixonei foi a Luana*, na segunda série. Tínhamos oito anos, ela era baixinha, tinha uma voz meio rouca, tipo a Janis Joplin, era o tipo "caboclinha", uma menina de pele morena e cabelo longo, preto e liso, o tipo que minha mãe sempre quis que eu namorasse. Acho que talvez era porque era parecido com ela, sei lá.

Essa Luana eu lembro que ela vivia fazendo entregas que a professora pedia. Levando diários de classe, papéis na secretaria, ou buscando giz e apagador. Ela sempre ia e voltava correndo, talvez fosse a pessoa que a professora mais confiava para tais serviços. Na época eu lembro que eu assistia muito o desenho Doug, da Nickelodeon (hoje é da Disney). Como eu sempre me via como o Doug Funnie, imaginava a Luana como a Patty Maionese. Era engraçado!

Meu coração sempre batia forte quando a gente conversava. Talvez as pessoas ao lerem pensem: "Ah, mas vocês tinham oito anos!", mas acho que talvez nessa época talvez existisse algo puro, talvez algo que eu sinto que é inerente em mim, algo que faz parte do que eu sou. Essa estranha capacidade de sentir um sentimento inocente de amor quando encontro alguém especial.

Aquele sentimento era algo inédito dentro de mim até então. E se quando somos adultos exista coisas como "saber o quão bom é o beijo da pessoa", ou "o quanto essa pessoa é boa na cama", naquele momento tudo o que eu queria era estar perto dela. Porque aquilo preenchia meu coração, e eu sentia que quando íamos embora eu ficava triste. Mas aí no outro dia nos encontrávamos na escola novamente e meu coração se preenchia de felicidade de novo. Simples.

Acho que essa é uma definição bem prática do que vem a ser o amor, não? Porque depois que nos tornamos adultos tudo fica mais difícil: é o quanto a pessoa ganha, é o quanto a pessoa é bonita, é o quanto a pessoa é boa de sexo, é o quanto a pessoa é de uma família x ou y, é o que a pessoa tem, entre outros diversos fatores.

Ali não havia nada disso. Era tudo bem mais simples, afinal era tudo novo.

Ela só estudou aquele ano comigo. Nos reencontramos algumas vezes anos mais tarde, acho que foi na oitava série que estudamos juntos de novo, não lembro bem ao certo. Mas sei lá, não havia mais aquele sentimento. Talvez as coisas estivessem começando a ficar mais complexas, e eu estivesse apaixonado por outra (ainda chegaremos lá!). A verdade é que na nossa vida tantas pessoas passam, mas nunca será o tempo medido que contará. Pode se passar um dia, uma semana, e ser algo intenso e marcante como uma vida. Ou podemos passar anos com a mesma pessoa parecer ter vivido nada.

Eu lembro que achava a Luana a menina mais linda do planeta. Ela sempre me cumprimentava com um sorriso, era uma pessoa de um astral altíssimo. Elétrica, ligada na 220v. Eu era aquela criança gorda e super tímida, que de tão confuso tentando entender o que se passava dentro do meu coração para bater tão forte por ela, não soube se declarar, contar o que sentia, e eventualmente ver se era correspondido de certa forma. Eu apenas sabia que me sentia bem ao lado dela, bem melhor do que me sentia com qualquer outra garota, e esse sentimento especial preenchia meu coração. Acho que foi a primeira vez que me apaixonei por alguém.

No entanto, marcas são deixadas, e uma vez que essa pessoa deixa nossas vidas, podemos apenas deixar a cargo da imaginação em desenhar o que teria acontecido se tivesse dado certo...

*Uns são nomes reais, outros fictícios. Mas não quero falar aqui sobre identidades ou pessoas, quero falar sobre sentimentos. ;)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Livros 2019 #1 - As irmãs Makioka


Vamos fazer uma pausa nas séries e ler uns livros que faz bem pra cabeça. Como sempre estou ali na região da Paulista, bem perto do Sesc Paulista, que possui uma biblioteca, descobri que emprestam livros gratuitamente. Passeando pela modesta biblioteca decidi começar com o livro As irmãs Makioka (細雪; Sasameyuki) escrito em 1944 por Jun'ichiro Tanizaki.

O livro na verdade é uma compilação de três livros, possui quase umas oitocentas páginas. Mas é um livro muito bem escrito, desses que a gente nem sente o tempo passar enquanto lê. Foi traduzido para o português direto do japonês (parabéns para as tradutoras!), e tenho que admitir que foi muito bem feita. Dá pra ver toda a adaptação bacana da linguagem polida japonesa, os termos de época, e as notas dos tradutores explicando os termos em japonês. Eu não tenho nenhuma ascendência asiática, mas como sempre estou a par da cultura oriental, aprecio bastante e percebo quando coisas são bem bem feitas, como a tradução. Vamos dar os créditos pra equipe: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro. Parabéns, ficou um excelente trabalho!

A história é sobre as quatro irmãs Makioka: Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko. De uma família abastada de Osaka, os Makioka, elas perdem os pais, e como únicas herdeiras do nome, vêem a decadência de seu nome dentro da sociedade japonesa, seja pelo esforço de guerra japonês (o romance se passa de 1936 até 1941, e termina um pouquinho antes do ataque a Pearl Harbor), ou pela pobreza mesmo, pois dinheiro não dura pra sempre. Cada uma delas tem um perfil, e o autor ao longo da história as desenvolve muito bem. É o tipo de livro que quando a gente termina, a gente se sente como se fizesse parte daquela família, passando por todos os perrengues, felicidades, anseios e brigas.

Tsuruko é a mais velha. Casada com o Tatsuo, que pegou o sobrenome da mulher pois como só haviam mulheres Makioka na família, existe uma tradição no Japão que nesse caso o homem pega o sobrenome da mulher para que o sobrenome não "morra" por terem nascido apenas mulheres na geração (no Japão, apenas o sobrenome do homem passa para os filhos, inclusive a esposa deixa de ter o sobrenome dela). Ela é a esposa ideal, teve muitos filhos, vive na "casa principal" dos Makioka, leva uma vida confortável, mas é muito preocupada e ás vezes até paranóica. Apesar de ser admirada, na verdade ela tem uma mente muito insegura, e nunca sabe direito fazer as coisas.

Sachiko é a segunda, e é casada com o Teinosuke. Ela tem uma filha pequena, a Etsuko, que é muitas vezes o alívio cômico do romance, com suas peraltices. Ela é talvez a "protagonista", por ter um leve destaque em relação às outras irmãs, muito porque como a irmã mais velha vive a vida dela, sobra pra Sachiko apagar todos os incêndios e problemas com as irmãs mais novas. Muitas vezes a história é contada do ponto de vista dela, então acho que ela é meio protagonista.

Yukiko pode não ser tão protagonista como Sachiko, mas ela é a "irmã coringa" que transita no meio de todas. Yukiko é uma solteirona de trinta anos (o que na época era tipo, inaceitável. Hoje ainda é um pouco... hahaha) e talvez por conta de sua falta de atitude, e de sempre estar disponível para as irmãs, é a única que não consegue um casamento. Conhece pessoas, recebe propostas de miai (casamento arranjado) vive com problemas de beribéri (falta de vitamina B no corpo), mas nunca nada dá certo. Quando conhece um cara legal, a família descobre um podre dele e cancela. Quando acham um cara com um perfil íntegro, Yukiko não vai com a cara dele. Sem contar que ela vive ajudando as irmãs, cuidando da Etsuko (filha da Sachiko) ou ajudando a irmã Tsuruko na casa dela. Ela sofre muito por não conseguir um casamento, e o livro inteiro é mostrando essa trajetória de idas e vindas do amor dela.

Taeko, a caçula, é constantemente chamada de Koisan, que no dialeto de Osaka é uma forma carinhosa de chamar a irmã caçula. Taeko é a rebelde, veste roupas ocidentais, quer trabalhar e fazer sua vida, mas para a época uma mulher do nome Makioka trabalhar era algo impensável, pois elas tinham que manter seu nível social, casar com alguém de posses, e a coitada da Taeko sofre um bocado por não conseguir poder fazer suas escolhas. Isso sem contar que ela até tem pessoas interessadas para casamento, mas como ela é a caçula, ela acha que seria indelicada passar na frente da irmã Yukiko, mais velha que ela, e se casar antes.

Existem outros personagens na trama, mas se eu ficar entrando em detalhes o post vai virar uma bíblia. Mas em suma o livro é muito bom, e Kanizaki é um autor extremamente talentoso. Uma narrativa gostosa e envolvente, sabendo focar tanto no interno quanto no externo, mesmo que não tenha uma profundidade tão grande dentro da alma feminina. Mas os acontecimentos, e as atitudes que são desenhadas pelo autor são bem interessantes de ver como são discorridas.

Parece que o autor se baseou na família uma de suas esposas para escrever o livro, e pelo que está escrito também parece que sofreu censura na época da guerra. Acho que foi muito porque como o Japão estava em guerra, tinha muito racionamento, e o governo dizia para abrir mão dos luxos, etc, e como o livro trata da vida de uma família da alta sociedade, seria eventualmente alvo de censura na época do Japão Imperial. Todo mundo tinha que "ser pobre" para ajudar o Japão a vencer a Guerra do Pacífico.

Você chega a um momento sentir quase como se elas fossem da sua própria família, principalmente conforme o livro vai avançando. A gente torce por uma, se entristece com a outra, fica com raiva das ações delas, e por aí vai. Um drama familiar de época, mostrando a vida, os costumes e os valores desse Japão tão distante, mas que hoje em dia ainda tem influência em como a sociedade nipônica é construída.


Teve até filme (imagem acima), de 1982. Engraçado que depois de ler o livro dá pra sacar certinho quem é quem. A escolha das atrizes acho que foi bem feliz, nem vi o filme mas já acho que deve ser excelente!

quarta-feira, 13 de março de 2019

Amber #139 - Suspicious minds (16) - Um dia da caça...

“Quem? Fyodo-de-quem?”, perguntou Eunmi, chocada em saber que Schultz sabia até o nome daquele homem.

“Leon Fyodorov. Ele é um russo fugido da União Soviética. Ele é o contato do submundo que o coronel usa”, disse Schultz, e Eunmi ao ouvir ficou ainda mais confusa:

“Coronel? Que coronel?”.

“Ah, verdade, você não o conhece. O coronel Briegel, Roland Briegel. Meu melhor amigo. Puxa, como eu queria que vocês o conhecessem!”, disse Schultz, com felicidade enquanto falava do melhor amigo, “Mas o que esse russo está fazendo aqui, no meio da China?”

“Tem certeza que é ele?”.

“Sim, absolutamente!”, disse Schultz, enquanto encarava Fyodorov no meio das pessoas, cheio de dúvidas, “Enfim, mas obrigado Eunmi por ter vindo atrás de mim. Vou me juntar à Tsai, mas antes preciso saber mais sobre o Fyodorov”

“Mas ele não te conhece?”.

“A mim, não. Ele conhece só o Briegel. Posso usar isso como vantagem”, disse Schultz, ajudando Eunmi a se erguer, “Agora deixa eu te ajudar aqui a se levantar, isso! Eunmi, a Ho está lá fora. Acho melhor você se juntar a ela lá. Tenho medo do que o Fyodorov possa fazer se ele te ver aqui”.

“Tudo bem Schultz. Pode deixar!”, disse Eunmi, passando a mão no rosto para limpar as lágrimas. Apesar de um pouco abatida, ela estava com uma expressão bem melhor do que antes. Ela se despediu, e Schultz foi caminhando de volta para o salão, sempre com o olhar em Fyodorov, que não parecia ter noção de que estava sendo observado.

Escadaria do peixe. Ela está logo ali. Preciso ir logo me juntar à Tsai, talvez ela precise de minha ajuda, agora que ela descobriu onde realmente está Chang Ching-chong, pensava Schultz enquanto caminhava entre as pessoas no meio da festa, avançando até onde estava Leon Fyodorov.

Um sorriso é capaz de abrir muitas portas, e Schultz sabia disso. Ao mesmo tempo, ele devia ser cauteloso, pois uma pessoa como Leon Fyodorov poderia eventualmente ter olheiros ao seu lado, então era necessário agir de maneira rápida, mas cautelosa. Passeando calmamente entre as pessoas, dando uma volta inteira ao redor de Fyodorov e prestando atenção em todas as pessoas nas proximidades do russo, Schultz usava o seu charme e puxava assuntos em pequenas conversas com as pessoas ao redor de Fyodorov, sem ir direto ao alvo, pelo menos naquele primeiro momento.

E então Schultz percebeu que havia uma pessoa, a uns dois metros de Fyodorov, que ficava sempre de olho no russo e nas pessoas ao redor. Ele tentava disfarçar, sentado em uma mesa, mas era curioso como sempre de tempos em tempos olhava para Fyodorov. Era o único que repetia tal padrão.

“Puxa, o senhor é todo bonitão, não fomos apresentados ainda?”, disse uma mulher, talvez uma chinesa ou coreana étnica, se jogando pra cima de Schultz, falando em um inglês carregado de sotaque.

“Oh, acho que não!”, disse Schultz, com um sorriso amarelo, “George Croasdell, ao seu dispor, madame”.

“Sou Rita Lin, esse é o meu nome ocidental”, disse a mulher, completamente mole por conta do excesso de bebida, e com o hálito bem característico, “Meu marido me deixou, ele tá do outro lado da festa com uma vagabunda, sabia?”.

“Puxa, sério?”, disse Schultz, pensando em se livrar daquela mulher. Mas então uma ideia lhe veio na cabeça.

“É! Esses homens, são todos uns lixos mesmo! Vem cá, porque não me beija?”, disse a mulher, lascando um beijo na boca de Schultz, que assustado, não sabia como se desvencilhar daquela bêbada, “Ah, qual é? Não quer transar comigo? Não quer saber se a minha xoxota não é na horizontal igual vocês ocidentais acham?”.

“Moça, minha esposa está aqui”, disse Schultz, tentando despistá-la, “Mas eu tenho um amigo ali, que ele disse que te achou muito bonita, e está de olho em você desde o começo da festa”.

“Mentira! Jura? Quem?”, perguntou a chinesa bêbada, e Schultz apontou para o homem que devia ser o segurança de Fyodorov.

“Aquele ali ó. O nome dele é Wilson. Mas olha, não diga pra ele que eu disse isso, ok? Ele é muito tímido!”, disse Schultz, contando uma estória para sustentar sua mentira.

E então a mulher foi até o homem de olho em Fyodorov, enquanto Schultz ficou ao longe observando. Pego desprevenido com uma mulher que apareceu do nada, ele não soube o que fazer, e o alemão ficou de olho vendo a mulher bêbada o levar para longe dali, deixando Fyodorov sozinho.

Depois de aguardar, de olho na mulher até o momento que ela estivesse longe, Schultz enfim abriu um sorriso. O plano tinha dado certo. Agora era hora de se aproximar de Fyodorov.

“Por gentileza, o senhor poderia me acompanhar?”, disse uma voz masculina atrás de Schultz, o segurando pelo ombro. Depois de ter feito a pergunta, Schultz sentiu algo encostado em sua lombar. Uma coisa que ele previu que fosse uma arma, dada ao formato de cano que ele sentia ao encostar, “Não esboce nenhuma reação, senhor. Sabemos exatamente quem você é. A brincadeira termina aqui para todos vocês”.

Imobilizado, Schultz tentava disfarçar o nervosismo, mesmo no meio daquela festa imensa, com todas as pessoas dançando, bebendo, e conversando. Fyodorov estava a dois passos na sua frente, de costas. Mas pelo visto ele havia sido descoberto, não tinha muito o que fazer. O alemão pelo visto ficaria sem saber o que Fyodorov estava fazendo naquele lugar tão distante da Europa.

Sem dizer uma única palavra, apenas seguindo as instruções do homem que lhe havia rendido, Schultz, agora em suas mãos, foi sendo levado para o local onde estava antes, seguindo o falso Chang Ching-chong. O alemão foi extremamente obediente, ele sabia que não ia dar certo chamar a atenção para si com aquele tanto de gente, e com certeza algum inocente ia sair ferido. O jogo começaria no momento em que ele chegasse no local onde o queriam colocar.

Ao chegar na sala, já haviam quatro homens aguardando, entre eles, a pessoa que o garçom disse que era Chang Ching-chong.

“Poxa, pensei que iam me trazer onde estavam as prostitutas”, disse Schultz, tranquilo e irônico, “O que significa isso, senhor? Será que não se confundiram?”.

Um dos homens começaram a amarrar Schultz, pegando seus punhos. Ele deixa a arma em uma mesa, e Schultz presumiu que ele era a único armado ali naquela sala. Eles não responderam nada que o alemão perguntou, o ignorando completamente.

“Puxa, vão me amarrar? Mas eu não tenho esse fetiche, eu gosto é de ficar por cima! E vocês são bem feios, eu gosto de homens mais gatinhos!”, disse Schultz, fingindo estar alegre por conta da bebida, mas os homens continuavam tentando dar um nó com a corda.

O homem que amarrava Schultz ficava entre resmungos e trocas de olhares e comentários com os outros, incluindo o suposto Chang Ching-chong. Era claro que ele não sabia como amordaçar uma pessoa, e Schultz sabia que poderia ludibriá-los sem problemas. Eles eram muito amadores.

“Fica quieto, sabemos quem é você, alemão! Logo pegaremos a Tsai, e estará tudo acabado!”, disse o homem que fingia ser Chang Ching-chong, pegando a arma do cara que havia rendido Schultz, que estava em cima da mesa, “Fica quietinho aí, queremos entregar você vivo!”.

“Vocês estão me dando medo!”, disse Schultz, aos risos, “Seus danadinhos! Se vocês tocarem em um fio de cabelo meu que eu demorei tanto pra me aprontar, juro que vou pegar todos vocês!”.

“Queremos te entregar vivo sim, mas não quer dizer que vamos entregá-lo inteiro”, disse o homem que amarrou Schultz, fechando o punho e lhe dando um soco bem no rosto.

O soco pegou bem errado em Schultz, e praticamente nem doeu. Tava na cara que o chinês não sabia nem um pouco lutar.

“Me entregar inteiro? Que coisa mais clichê, amiguinho!”, disse Schultz, carregado no sarcasmo, dando até uma risada depois de receber aquele soco pífio, “Quer saber? Isso parece fala de vilão de filme de quinta categoria. Nem bater você sabe”, e ao dizer isso, Schultz o encarava como uma cobra prestes a dar o bote na presa.

O chinês recuou ao ver o olhar ameaçador de Schultz.

“Fraco? O que você acha que pode fazer, hein?”, disse o chinês, que desferiu outro soco, que também Schultz quase não sentiu, “Você que está amarrado nessa cadeira, não eu!”, e de novo o chinês deu um soco, mas quem gritou foi o próprio chinês que desferiu o golpe.

Quando Schultz percebeu, era o próprio chinês quem estava segurando seu próprio punho, que parecia deslocado, uma vez que a mão estava caída, parecendo sem vida. O chinês soltava berros e mais berros de dor, encarando a mão ali fora do lugar.

“Ah, fala sério! Me colocam para me sequestrar o grupo circense de Pequim, só pode! Só tem palhaço aqui!”, disse Schultz, se erguendo da cadeira. Como ele vira o laço péssimo e frouxo que o chinês havia feito nos seus punhos, Schultz na frente de todos ali se desatou e ergueu a corda mostrando a todos, gozando da cara deles, antes de jogá-la no chão.

O homem armado então a apontou para Schultz no momento que o viu em pé. Pela forma que ele apontava para Schultz era claro que ele não sabia manusear a arma, sequer sabia mirar.

“Vem cá, vamos te achar uma utilidade”, disse Schultz, erguendo o homem com o punho deslocado, e o usando como escudo humano.

“Solta ele! Solta ele senão eu atiro!”, disse o homem armado.

“Atira mesmo? Então vai lá, atira”, disse Schultz, o desafiando. Mas o homem permaneceu apenas mirando, sem reação.

Schultz balançou a cabeça com os olhos virados pra cima. Aquilo só devia ser uma piada. Um segundo chinês veio de lado e Schultz pegou o homem que gritava de dor e bateu forte com sua cabeça na parede, o deixando inconsciente, e depois foi para cima do chinês que veio pelo seu lado. Ele não sabia fazer nada, e foi facilmente derrubado por Schultz depois de dois ou três golpes.

Havia apenas o armado, que era o falso Chang Ching-chong e um outro comparsa.

“Vai, atira! Eu tô te dando uma chance, tô aqui parado”, disse Schultz, dando de ombros, “Anda logo, atira!”, mas o homem simplesmente não atirava. O outro chinês estava começando a ficar em pânico vendo Schultz se aproximar, e então o falso Chang Ching-chong deixou a arma no chão e começou a correr em direção da outra porta.

“Ah, cacete, será que eu tenho que fazer tudo? Não me pagaram para isso!”, disse o outro chinês que pegou a arma do chão, ao ver o falso Chang Ching-chong correr. Rapidamente ele aponta para Schultz e puxa o gatilho. E nada acontece. Vendo a arma não funcionar, ele olha para ela desesperado, gritando: “Caralho!! Por que não funciona?”.

E nesse momento Schultz se aproxima do chinês armado, lhe tomando a arma das mãos sem maior resistência.

“Ei, essa arma é falsa, amiguinho, olha só aqui dentro do cano”, disse Schultz, mostrando para ele o que ele já tinha visto de longe, “O cara não pintou a parte de dentro, esse amarelo aqui mostra que isso aqui é mais vagabundo que plástico”.

O chinês desesperado tentou aplicar um golpe em Schultz, que o segurou sem maiores problemas, e depois deu um chute no estômago que o deixou no chão gemendo de dores.

“Agora só falta você. Espera aí!”, disse Schultz, quase que indo aos pulinhos atrás do falso Chang Ching-chong, que corria desesperado tentando fugir de Schultz.

A porta que ele tentava abrir estava trancada do outro lado. Ele tentava com toda a força girar a maçaneta, mas ela simplesmente não abria.

“Por favor, não me mata! Eu juro que eu não sabia no que isso ia dar! Fui enganado!!”, disse o falso Chang, com os olhos cheios de lágrimas, e uma cara de profundo terror no rosto.

“Calma, calma! Eu não quero te fazer mal. Vamos conversar”, disse Schultz, se aproximando do homem tomado pelo pânico, “Quero saber quantos Chang Ching-chong falsos temos aqui, e qual o plano de vocês com tantos sósias por aqui”.

“E-eu não s-sei!”, disse o homem gaguejando, “E-eu só lembro d-de uma m-mulher loira que d-disse que iria n-nos pagar uma g-grana! Só isso!”

“Uma mulher loira? Hã? No meio da China?”, perguntou Schultz, já cansado de surpresas. Ver Leon Fyodorov no meio da China já era algo bem inesperado.

“Isso! Eu juro, não me mata! Ela que arranjou tudo isso!”, disse o homem, e Schultz ficou por um momento pensando quem poderia ser essa pessoa que aquele homem se referia. Dado ao seu estado de pânico e medo, era claro que ele estava falando a verdade. Aquele ali, todo esse plano com sósias, tudo isso só os tornavam meros coagidos no meio disso tudo. Eram os pequenos no meio de um esquema muito maior. Agora Schultz tinha que descobrir quem era essa tal “mulher loira” que ele se referia.

Então subitamente Schultz ouviu sons de tiros. Uma rajada de tiros foi efetuada na sua frente, e graças ao reflexo Schultz conseguiu dar um salto para o lado, caindo no chão, enquanto os disparos eram feitos.

Ainda se recuperando do susto, Schultz depois de ter se jogado no chão olhou para sua frente, onde estava o falso Chang Ching-chong. A porta estava cheia de buracos, e o corpo do chinês escorregava na porta até o chão, tingindo toda a madeira de vermelho. Ele havia sido baleado, e os projéteis haviam atravessado a porta e o matado.

Schultz tenta se erguer, mas sente uma dor no seu braço. Ao colocar a mão percebe que estava sangrando.

“Ai, que droga!”, disse Schultz, levando a mão ao ferimento. Ele percebera que havia levado um tiro de raspão. Mas o corpo do homem na sua frente não tinha tido a mesma sorte.

Pelos buracos na porta ele via que tinha alguém. E essa pessoa estava destrancando a porta e a abrindo.

Cacete, preciso sair daqui!, pensou Schultz se erguendo rapidamente e se afastando da porta, buscando cobertura na mesa, a tombando no chão para servir de proteção.

Porém quando a porta se abriu, Schultz ficou na expectativa para ver quem era a pessoa que havia atirado, e no momento que olhou percebeu na hora. Se tratava da tal “mulher loira” que o chinês se referia. Estava vestindo um uniforme da Gestapo completo, naquele exato tom de cinza, gola preta, quepe, e até a cruz de ferro alemã, em um lugar de destaque entre as golas do uniforme. A diferença é que no lugar de calças, estava uma saia. E na mão, estava uma pistola M1911 ainda com fumaça no cano.

“Schultz? Sua voz é inconfundível, sabia querido?”.

A mulher deu uns passos para frente, e conforme a luz ia iluminando seu rosto, o alemão sentiu quase como se o seu coração parasse quando a reconheceu:

“Ingrid? É você?”, disse Schultz, ao reconhecê-la.

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