quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Dificuldades dos ciclos de depressão

Antigamente eu até gostava de épocas de fim de ano. Mas ultimamente, é horrível. Especialmente depois de tanto tempo desempregado, sem perspectiva de muita coisa, toneladas de tentativas dando errado e a autoestima lá embaixo.

Amber, o livro que estou escrevendo, também está nesse mesmo ritmo. A gente fica pra baixo, os dias vão se tornando semanas, e então meses. E a última publicação foi em outubro. Mas eu estava vendo aqui dos meus arquivos que já tem quase dez capítulos que escrevi nesse meio e não publiquei ainda.

É, pois é!

Mas acho que vou dar uma pausa nas publicações para que eu possa estruturar melhor, afinal é um arco importante dessa história do Schultz na China.

Esse ano foi um ano merda. Como se não bastasse toda a dificuldade do desemprego, com a demissão e aposentadoria do meu pai em janeiro, tudo virou de cabeça pra baixo. E desde janeiro foi tudo ladeira abaixo. Só pra ter uma noção, por exemplo, meu PC, que eu sempre cuidei com tanto carinho, está encostado por conta do HD que foi pro espaço.

Em suma, tá difícil. Precisava até mudar o layout do blog aqui, mas cadê o ânimo? Eu já passei por ciclos de depressão, mas ás vezes parece que esse ciclo veio para ficar. As coisas não melhoram, parece não haver esperança para nada, e tudo parece perdido. Um sofrimento sem fim.

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Amber #128 - Suspicious minds (5) - Ich liebe dich/Wo ai ni.

7 de dezembro de 1939
21h17

“Ai! Cansei! Com esse salto fica difícil de dançar essa música!”, disse Tsai, abraçando Schultz ao final da música no baile.

Schultz e Tsai haviam acabado de dançar uma frenética e empolgante música famosa daquele ano de 1939. Uma canção famosa de ninguém menos que a cantora brasileira Carmen Miranda, chamada “O que é que a baiana tem?”, imortalizada em um filme da mesma época. Envolta nos braços de Schultz, os dois pareciam dois amantes adolescentes. Dançavam juntos, mesmo se dançassem errado, mesmo se não tivessem um pingo de ritmo ou coordenação, bailando como se ninguém os estivesse observando. Mas eram eles, eram os dois. Todos em volta se sentiam contagiados por essa felicidade do casal, e isso só afirmava ainda mais a química extraordinária que os dois tinham.

“Parece que a próxima canção vai começar. Dá pra ver ele trocando o disco”, disse Schultz, abraçado com Tsai, no pé no ouvido dela. Ela sorriu e pousou o ouvido em seu peito. O coração de Schultz parecia se acalmar, mas ela sentia que o dela continuava palpitando forte. A próxima canção começou a tocar e Schultz reconheceu na hora qual era, “Não acredito que vão tocar essa! Eu adoro essa música!”.

Os dois começaram a fazer um “dois pra lá, dois pra cá”, abraçados, enquanto iam sendo levados para outra atmosfera graças aquele som. Aquele delicioso som de clarinetes e saxofones unidos era realmente algo único. Algo que fluía quase que como um som noturno, que cantava para a lua, na sua mais bela forma.

“Qual o nome dessa canção?”, perguntou Tsai, agarrada a Schultz.

“Se chama ‘Moonlight Serenade’ em inglês, do músico Glenn Miller”, disse Schultz, traduzindo o título depois: “A serenata da luz do luar”.

E então a chinesa fechou os olhos e continuou no ritmo da dança com o ouvido no peito de Schultz, que a envolvia com ternura, e a tinha nos braços como um verdadeiro cavalheiro que lhe protegeria de tudo e de todos. Eles flutuavam, já não sabiam se controlavam os corpos. Já nem se viam num baile com pessoas ao redor. Eram um único coração, unidos pelo toque do peito e dos braços que enlaçavam.

“Que lindo”, disse Tsai, num sussurro que apenas Schultz ouviu.

A vida real é repleta de amargor. Escalamos uma montanha após a outra, superamos uma dificuldade após a outra, e muitas vezes tudo o que vemos na nossa frente são obstáculos e mais obstáculos. Porém a vida também nos proporciona momentos que são doces como provar um cupcake no meio da amargor da realidade. E quando esse momento acontece, queremos muitas vezes fechar os olhos e apenas aproveitar a boa maré, sendo guiados em segurança, sem preocupação, no meio de uma calmaria no meio do mar revolto que é a vida.

“Schultz, querido, feche os olhos”, disse Tsai, e assim o alemão o fez.

Ela pegou a mão dele e colocou em seu peito, bem onde estava seu coração. Tsai ficou de olho na reação dele, o que ele sentia, mesmo com os olhos cerrados. E durante alguns segundos ele estava calmo, e ela se sentia segura também.

“Uau. Consigo sentir os batimentos! Que fortes!”, brincou Schultz. Ele estava sentindo o coração dela. Ou talvez nem estava sentindo tanto assim. A verdade é que eles estavam tão unidos por conta dessa corrente invisível e forte, esse enlace de almas chamado amor, que não importava nesse momento.

E Tsai então vira como é difícil ser uma mulher. Ter um único coração, e ter que confiar tudo isso para um único homem. E se ele não fosse o correto? O que ele faria com seu coração? E se ele o quebrasse? Essas dúvidas sempre são algo persistente na vida das mulheres. E ela vira que não era diferente com ela. Ela tinha anseios, dúvidas e questionamentos.

“Você sentiu?”, disse Tsai, sorrindo, derretendo o coração de Schultz de ternura. E nesse momento seu rosto ficou vermelho. E ela sentiu como se uma chama brotasse dentro dessa alma. E encontrar Schultz era agora como os raios de sol depois da chuva. E que toda a solidão que havia sentido, no meio de tantas responsabilidades, preocupações e dores, naquele momento haviam se esvaído. E ela não queria de forma alguma perder aquele sentimento que a preenchia tanto.

E então Schultz a envolveu em seus braços. E a Gongzhu sorriu. Uma pena que o alemão não viu, pois havia pousado sua cabeça contra o ombro da chinesa. Os olhos de Tsai brilhavam, iluminados pelos lustres de cristal que pendiam no teto. Um brilho único, um brilho repleto de felicidade.

Ela estava envolta por uma ternura indescritível. E ficaram assim até o final da música, dando uns pequenos passinhos ao ritmo da música, enquanto ela estava envolta pelo abraço carinhoso do alemão.

“Eu sempre ouvia os outros dizendo, mas nunca achei que sentiria isso”.

E as palavras de Schultz iam direto para o coração dela. E então, sentindo o aroma refrescante do perfume dele, Tsai ergueu suas mãos e o abraçou de volta, enlaçando suas mãos nas costas do alemão, enquanto dançavam. Tsai era alta, mas Schultz era um pouquinho mais alto que ela, mas ela não se sentia menor. Ela se sentia segura, fisicamente por conta do abraço, quanto emocionalmente ao ouvir aquela declaração no pé do seu ouvido.

“Entre todas as pessoas do mundo, acabei vindo parar do outro lado do planeta. Mas sinto a mão do destino, pois parece que tudo estava traçado para que a gente se conhecesse”, confessou Schultz, emocionado, vivendo aquele momento e relembrando todo seu passado.

Ludwig Schultz achava que amor era uma coisa de filmes, que fosse algo impossível, algo que não fosse para ele. Porém desde a primeira vez que vira Tsai, ele se deu conta que não queria aquela mulher apenas por uma noite. Ele a queria para sempre. Pois havia algo de especial nela, algo que nem ele sabia ao certo como descrever - uma vez que o próprio nunca sentira isso até então.

O que Schultz sentia era precisamente o sentimento único que nos eleva como seres humanos, que nos completa de maneira que nunca imaginaríamos que poderíamos ser completados. O sentimento que nos torna frágeis, mas ao mesmo tempo nos dá forças para enfrentarmos tudo o que aparecer em frente. Essa mesma coisa que dilata nossas pupilas, que tornam a pessoa que amamos verdadeiros colírios quando nossos olhos se encontram, acelerando nosso coração, nos dando felicidade em estar ao lado desse indivíduo especial, e gravando na memória de maneira permanente todos os momentos cheios de amor que dividimos com essa pessoa, as imortalizando em nossa alma.

“E a partir de agora, eu sinto que nunca mais precisarei procurar alguém. Pois achei a pessoa que mesmo que eu não tivesse ideia que existia, vejo hoje que não consigo mais viver sem”, completou Schultz, que prosseguiu, com um tom cheio de felicidade em sua voz: “E que quero passar o resto da minha vida assim. E chorar, rir, passar pelas dificuldades e trilhar esse caminho louco que é a vida. Pois ao seu lado, eu sou mais. Eu sou melhor. Eu sou quem eu nunca imaginei que seria”.

Carinhosamente Schultz ajeitou uma mecha fujona atrás da orelha de Tsai, deixando sua mão ali. Seus rostos foram se aproximando lentamente, e então os lábios dos dois se tocaram, e deram um tímido, mas romântico beijo, em três toques demorados, mas repletos de carinho.

“Ich liebe dich”, disse Schultz, e pouco depois disso os dois se desfizeram do abraço e tomaram uma pose de dança. Tsai deu um sorrisinho para Schultz e o perguntou:

“O que significa isso?”, perguntou Tsai, fingindo que não sabia. Tsai era fluente em alemão, ela sabia exatamente o que significava. Porém, Schultz entrou na brincadeira:

“‘Ich’ significa ‘eu’, e ‘dich’ significa ‘você’”, explicou Schultz, e Tsai percebeu que ele deixou “liebe” sem explicar.

“Mas e a palavra do meio? O que ela significa?”.

“A palavra do meio, ‘liebe’ eu não sabia o significado até te encontrar. Achava que era coisa de gente fraca, coisa de filmes, coisa que não fosse para mim. Procurava nos dicionários, mas nunca era conclusivo. É bem difícil de traduzir. A verdade é que ‘liebe’ não é algo que se coloca em palavras”, disse Schultz, dando um beijo na testa da chinesa, “Sabe o que é isso que você sentiu no coração quando te dei esse beijo na testa? Isso é ‘liebe’. E apenas achar uma outra palavra, ou muitas deles para explicar isso, é ser completamente injusto”.

Schultz deu uma volta imensa para evitar traduzir “liebe” como “amor”, em alemão. Mas essa não era sua intenção, nunca foi.

“Então no meu caso, falarei também”, disse Tsai, dando um selinho na boca de Schultz, “Wo xi huan ni”.

A expressão “wo xi huan ni” literalmente significa “eu gosto de você”. Schultz sabia bastante da língua chinesa, mas nesse momento ele ficou confuso. Não era a expressão que ele esperava.

“Pensei que a tradução literal fosse ‘wo ai ni’, ou meu chinês não está tão bom?”.

“Não, você tá certinho! Literalmente seria mesmo isso”, disse Tsai, sem dizer a frase, “Mas sei lá, não se diz isso em chinês”.

“Não?”.

“É muito pesado, acho que é algo cultural nosso. É difícil de descrever”, disse Tsai, com um olhar confuso, “Acho que usar essa expressão é algo muito vago e fugaz comparado com o que realmente o ‘ai’, que é amor em chinês, significa”.

“Curioso. Me explica melhor então”.

“O amor, ‘ai’ do ‘wo ai ni’ em chinês, a gente prefere mostrar no dia-a-dia. É nas pequenas coisas, nos carinhos, nas coisas que abdicamos e nas coisas que fazemos para o outro se sentir feliz. É também bem difícil de traduzir, como em alemão”, disse Tsai, falando pausadamente, como se buscasse uma explicação mais simples para um ocidental, “A expressão é algo muito pequeno para se traduzir a imensidão que significa. É um sentimento, é algo vivo, é algo que vamos moldando de acordo com tudo o que vivemos juntos. Por isso não usamos essa expressão. É muito vago falar ‘wo ai ni’ para uma coisa que é tão imensa”.

“Puxa, entendi nada e ao mesmo tempo entendi tudo”.

“É isso que chamam de ‘liebe’ em alemão, ou ‘ai’ em chinês, não é mesmo? Isso não tem um significado”, Tsai então, fez uma pausa, e olhou profundamente nos olhos de Schultz, tombando a cabeça, “Afinal o melhor sinônimo de amor, é amar”.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Amber #127 - Suspicious minds (4) - A dama de vermelho.

7 de dezembro de 1939
19h43

Schultz estava dando o toque final em seu smoking. A gravata borboleta preta estava atada com um laço perfeito, e seu cabelo também estava todo penteado para trás, mas Schultz não gostava daquele visual lambido. Ele olhava para o espelho e se achava extremamente parecido com um ator famoso da época, Gary Cooper.

“Ah, com esse cabelinho é bem capaz de me confundirem com o Mr Deeds”, disse Schultz, pensando em voz alto, enquanto se olhava no espelho. Por mais que ele não gostasse de se arrumar, infelizmente a noite exigia isso.

E no final das contas, ele nem era tão parecido assim com o ator, mas algo na cabeça deixava ele achando tal coisa.

Schultz então saiu do quarto onde estava se arrumando e foi andando pelo corredor. A casa estava quieta, porém era possível ver ao longe as luzes da cidade, especialmente iluminada a poucos quarteirões dali, na mansão de Chang Ching-chong. Pelo visto a festa estava começando.

Schultz deu uma rápida olhava onde estava Saldaña e White, e vira que os dois estavam quietos, ouvindo o rádio baixinho em seu quarto, sem oferecer resistência alguma. Era óbvio que eles não entendiam uma única palavra de chinês, mas era curioso ver a feição dos dois naquele rápido relance que Schultz teve ao observá-los. O alemão então foi onde estava Tsai, e ao entrar ele vira que ela estava se trocando.

“Ih, tá horrível. Ficou folgado. Você já é toda magrela, esse vestido ficou largo e esconde todo esse bumbum durinho e branquelo que você tem”, disse Schultz, se aproximando do espelho e pousando levemente a mão na cintura da chinesa e descendo vagarosamente dando um risinho.

O vestido de Tsai era verde. E mesmo aquele vestindo sendo horrível, ela parecia tranquila vendo o reflexo dela trajando aquilo. Não tinha nada a ver com o estranho sonho do vaso de flores que ela havia tido na noite anterior. Ver que aquele sonho não era algo premonitório, e que nada da vida real fazia um gancho com o que havia sonhado, a deixava segura e tranquila. Porém, como Schultz disse, o vestido não havia caído bem para o corpo esguio dela. Estava ridículo.

“Ah, não ficou tão ruim, vai. Se eu usar algo pra marcar a cintura vai melhorar muito, olha só…”, disse Tsai, e nesse momento duas empregadas de Cheng entraram no local.

“Senhorita Tsai, pedimos desculpas. Foi tudo muito na pressa, não conseguimos esse vestido no tamanho para a senhora”, disse uma das empregadas, que carregava um cabide protegido por um pano escuro, “Mas achamos este aqui, que o alfaiate garantiu que ficaria bem nas suas medidas”.

E então a Gongzhu se virou, e as empregadas de Cheng levantaram o pano escuro, revelando o vestido que traziam. Era vermelho. Um vermelho vivo e brilhante, com um tecido esvoaçante, idêntico ao tom que ela se viu vestindo no sonho. Tsai estava assustada e profundamente transtornada ao ver aquilo, a expressão estava estampada em seu rosto.

“É realmente lindíssimo. Vai ficar uma linda dama de vermelho”, disse Schultz, imaginando Tsai dentro daquele vestido chique, “Com um vestido lindo desse, vou ficar louco pra conseguir seu telefone para ligar pra você dizendo que eu te amo”.

Porém Schultz não entendia a expressão da chinesa. Porque ela estava encarando o vestido com aquela cara tão preocupada? Na sua mente muitas coisas saltavam, como se ela teria medo daquela cor, ou se aquela era a forma dela expressar que realmente gostava muito daquilo. Schultz se sentia muito confuso.

“Querida… Não gostou?”, perguntou Schultz, e Tsai meio tomou um susto, balançando a cabeça.

“Não é que…”, disse Tsai, pausando por um momento. Nesse momento ela julgou desnecessário entrar em detalhes do sonho, devia ser apenas uma superstição boba. Ela então disse ao alemão: “Ah, deixa pra lá. Vou vestir. Me dá uns minutinhos?”.

“Tudo bem! Vou pegar algo para beber lá embaixo!”, disse Schultz, saindo do quarto e indo até a grande cozinha da mansão de Cheng.

Chegando lá Schultz foi até uma mesa de canto e viu que tinha um pouco de uísque ali. Pegou um copo e colocou um pouco no copo. Deu dois goles, e quando se virou tomou um susto. Havia um mendigo ali na cozinha! Com o susto Schultz cuspiu o uísque que estava na boca em cima do morador de rua.

“Puta que o pariu, como é que você entrou aqui? Eu juro que não tem pão velho!”, disse Schultz, se afastando do pobre morador de rua, que ainda esfregava o rosto tirando o uísque do rosto que Schultz havia cuspido.

“Schultz, seu imbecil, sou eu, a Ho!”, disse Ho, vestida de mendiga, “Cacete, essa merda arde! Fiquei horas passando fuligem no rosto pra parecer suja, agora vou ter que ir no banheiro lavar isso tudo!”.

O alemão não sabia onde enfiar a cara. Realmente Ho estava muito bem disfarçada. Vestida como um maltrapilho, roupas rasgadas e velhas, com uma aparência realmente suja, e até os dentes pintados para parecer ainda mais pobre. Não tinha em nada a ver com aquela mulher de antes, foi uma transformação total.

“D-desculpa, Ho! Poxa, você podia ter me avisado! Apareceu do nada, eu pensei que era…”.

Huang então se aproximou. Ele vestia um traje furtivo de um azul bem escuro, típico de espiões indo para missões perigosas. Nas suas costas ele carregava uma pesada mochila, com bastante equipamento, e a pistola que Cheng havia dado num coldre logo abaixo do braço.

“Eita, onde que ela vai correndo? Tá apertada?”, perguntou Huang vendo Ho correndo pro banheiro. Ele viu Schultz ali em pé, vestido de gala, extremamente refinado e por um segundo deu um olhar de inveja para ele. Os dois se viram e ficaram em silêncio, uma vez que os dois não se bicavam. E então Huang prosseguiu: “Ela devia, sei lá, passar a mão na bunda e esfregar na cara dela. Ela não está com aquele cheiro de mendigo. A aparência está de fato de um morador de rua, mas o cheiro está o cheiro bom e limpo de sempre da Ho”.

“EU NÃO VOU FICAR FEDIDA!! TUDO MENOS ISSO!!”, disse Ho do banheiro, ao ouvir o comentário de Huang, que riu sozinho ao perceber a reação de sua amiga.

Schultz não riu da piada, deu apenas um sorriso sem graça olhando pra cima, e pediu licença para subir e ver como estava Tsai. Já havia passado alguns minutos, e quando ele entrou no quarto as empregadas de Cheng davam os últimos retoques em Tsai.

O alemão entrou no quarto e ficou boquiaberto. O vestido de Tsai era vermelho, e todo aberto nas costas. Era possível ver toda sua parte de trás das costas até a altura da cintura, cortada por uma faixa em “x” de tecido, que a alongava de maneira perfeita. Na parte debaixo era possível ver o lindo movimento que dava, e seu cabelo estava penteado num coque lindo preso por uma trança - do jeito que ela sempre usara.

“Por gentileza, pode me trazer aquela caixa, em cima daquela mesinha?”, pediu Tsai, enquanto a empregada de Cheng ia buscar a pequena caixa. Schultz então se sentou numa poltrona e ficou lá quietinho, apenas observando aquela mulher, que era a mulher mais linda do mundo. Tsai nesse momento viu no reflexo Schultz se sentando na poltrona exatamente atrás de onde ela estava, “Não ouvi você chegando. Não sei porque você tá com essa cara. Não tem nada aqui que você não viu nessa noite”.

“Não, nada disso. Acredite. Eu definitivamente estou agradecido por poder ver isso, essa coisa divina na minha frente. E um pouco triste também, de imaginar o quanto de tempo perdi na minha vida por não ter visto uma pessoa deslumbrante como você antes”.

A empregada levou a caixa para Tsai e ela abriu. Era um dos ornamentos de cabelo que Tsai sempre usava, os palitos usados para prender o cabelo. Porém este era dourado, e Schultz se levantou, curioso, indo até a chinesa enquanto ela o colocava no cabelo.

“Uau. Vocês aqui desse lado gostam de usar isso, não?”, disse Schultz se aproximando de Tsai por trás. Ela deu uma última verificava no espelho e se virou para o alemão. Tsai era uma chinesa muito linda, mas agora que estava toda produzida estava alguém de outro mundo, de tão maravilhosa.

“Binyeo. São assim que os coreanos chamam”, disse Tsai, espetando seu cabelo enquanto ficava de olho no espelho, para garantir que ficasse reto, “Eu gosto muito, acho bem prático. Esse é um bem especial, ganhei de meus pais quando eu fiz vinte anos. É de ouro, e tem um pequeno rubi”.

Schultz ficou de frente para Tsai, e reparou nos detalhes do ornamento que ela havia colocado no cabelo. Havia realmente um pequeno rubi, e quando ele reparou, vira essa gema estava cravejada no peito de um pássaro lapidado na ponta do palito, em ouro.

“É o pássaro vermelho?”, perguntou Schultz.

“Exato”, respondeu Tsai.

Schultz então sorriu e deus uns passos para trás, segurando com ternura na mão de Tsai. Ele passeava os olhos dos pés até a cabeça, e sentia que aquela imagem de Tsai preenchia seu coração com uma emoção que ele nunca antes tinha sentido. Tsai era uma mulher formosa, mas não era apenas beleza superficial.

Ele então parou nos olhos. Naqueles olhos negros e redondos, que brilhavam sob a luz das lâmpadas daquele quarto. A chinesa também estava feliz. Ela deu um singelo sorriso com os lábios, e aquela imagem fazia Schultz sentir como se o seu coração palpitasse de maneira tranquila. Por alguns momentos ele sentia como se lhe faltasse o ar. Como se tudo o que ele precisava para viver estava encapsulado naquele ínfimo momento, que não havia nada que nutriria tanto ele quanto ver na sua frente a mulher que mais amava. Podia ouvir as batidas de seu coração repletas de gratidão por ter tido uma chance com ela, e por ela tê-lo escolhido. Não havia mais nenhuma mulher no mundo, não havia ninguém que produziria aquele turbilhão de coisas maravilhosas que sentia naquele momento que tinha a chinesa em seus olhos.

Definitivamente ele tinha tudo o que precisava. O alemão sentia que a chinesa era acima de tudo como um lar. Uma pessoa que o fazia se sentir protegido, uma pessoa que estaria lá para lhe acolher, uma pessoa que não o fazia sentir que deveria ser outra pessoa, pois ela o aceitava incondicionalmente. Ver Tsai Louan naquele momento na sua frente fazia Ludwig Schultz se sentir em casa. E não há lar melhor no mundo do que dentro de um coração apaixonado.

“E como eu estou, querido?”, disse Tsai, ainda de frente para Schultz, segurando em sua mão.

Schultz se aproximou, e deu um carinhoso beijo na testa dela.

“A mulher mais linda do mundo, meu amor”.

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