segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Amber #82 - A linha entre humildade e burrice.

“O quê? A Anastazja?”, perguntou Liesl, olhando pra Alice sem acreditar. Depois disso voltou seu olhar para Anastazja, pronta para perguntar algo: “Mas o que você tem assim de tão importante?”.

Alice continuava com um olhar confuso fitando Anastazja. Ela estava começando a suspeitar o que poderia ser, mas ainda era muito cedo pra poder arriscar um palpite.

“Não, não deve ser eu!”, disse Anastazja, como se fosse culpada de algo, “Gente, eu não sei nada sobre física ou química. Eu sou uma negação em qualquer coisa, sou toda atrapalhada!”, nessa hora ela virou o olhar para Natasha, como se ensaiasse um pedido sincero de desculpas, “Talvez isso seja um engano. Eu não tenho nada demais, nem tenho onde cair morta! Meus pais são super pobres, e estão dando duro para que eu estude na faculdade, mas apenas isso”.

“Tá, mas você sabe matemática”, disse Natasha. Na hora que Alice ouviu isso ela viu que sua dedução estava certa, e abriu um sorriso de alguém que havia descoberto algo. Liesl nessa hora percebeu e trocou um olhar com Alice tentando saber o que era, mas Alice apenas a sorriu, como se mentalmente pedisse pra ela aguardar que as explicações seriam dadas daqui a pouco.

“Bom, eu gosto de números, e de matemática”, disse Anastazja, sem jeito, “Isso nunca foi algo muito atraente pra conquistar rapazes, e as meninas também não se aproximavam muito de mim porque eu era sempre a melhor da classe”, nessa hora Anastazja virou pra Natasha, parecia ansiosa pra saber onde aquela conversa iria chegar, “Mas você disse bem: uma arma pra derrubar Hitler. Exceto que o Führer participe de uma olimpíada da matemática, saber equações e álgebra não vão ajudar em nada a parar ele!”.

“Essa conversinha parece que não vai dar em lugar nenhum mesmo”, disse Brigitte, sem paciência, “Uma coisa é a pessoa ser humilde, insegura. Outra coisa é a pessoa ser burra. Não precisamos que você ensine raiz quadrada ou números racionais. Você tem uma capacidade de calcular e resolver problemas complexos muito acima da média. É o típico caso de homens que levam todo o mérito do trabalho pesado que nós mulheres fazemos...”, disse Brigitte, como se estivesse de alguma forma cansada dessas injustiças, “...Anotem o que eu estou falando: quando o homem pisar na lua, vai ser graças a um monte de mulheres anônimas que fizeram todo o trabalho duro nos bastidores”.

Anastazja parecia ainda mais confusa. Pisar na Lua então era algo impensável naquele tempo, parecia algo saído das estórias de Júlio Verne. Olhava pra Natasha sem entender muito o que Brigitte queria dizer, que depois de dizer isso simplesmente entrou na barraca buscando por algo. O silêncio perdurou entre as quatro: Alice sorria, como se soubesse exatamente do que se tratava. Liesl continuava com uma cara confusa tanto quanto Anastazja. E Natasha olhava pra barraca onde Brigitte havia entrado aguardando o que ela iria trazer de lá com uma cara de que já imaginava o que seria isso.

Quando Anastazja estava abrindo a boca pra falar e quebrar o silêncio, Brigitte saiu da tenda, carregando uma pasta e a abrindo, pegando algumas fotografias em preto-e-branco na mão para mostrar a Anastazja.

“Presumo que você conheça Marian Rejewski”, disse Brigitte mostrando a foto. Anastazja assentiu com a cabeça. Brigitte guardou e mostrou mais duas fotografias para a polaca: “E quanto a Jerzy Rozycki e Henryk Zygalski?”, e novamente Anastazja confirmou balançando a cabeça.

“Sim. São todos matemáticos. Já tive algumas aulas com eles, palestras e grupos de estudos. Eles são verdadeiros gênios!”, disse Anastazja, com um sentimento de profunda admiração e gratidão pelos três.

“Muito bem. Agora, você consegue confirmar quem resolveu esse problema?”, disse Brigitte, tirando uma cópia de uma folha com vários números nela. Anastazja não conseguia acreditar. Ela lembrava exatamente o que era aquela folha.

“Espera aí, é a minha letra!”, disse a polonesa, pegando o papel. Liesl se aproximou do lado dela pra ver também. Eram tantos números que parecia grego, “Eu lembro disso. Tem um tempinho já. Foi um teste que eu fiz na Universidade de Posnânia. Inclusive o senhor Rejewski estava lá e conversamos um pouco”, quando Anastazja disse isso, Liesl reparou nas diversas anotações, feitas por um corretor, mas estavam em polaco.

“O que significa ‘zatwierdzony’ nesse carimbo?”, perguntou Liesl. Anastazja enfim reparou nesse carimbo e olhou para Liesl sem acreditar também. Mas antes mesmo de responder foi interrompida por Natasha:

“Em polaco significa ‘aprovado’. Como numa prova”, disse Natasha, apontando pra folha, “Esse é um teste dificílimo de matemática. Não apenas para testar a proficiência, como exatidão nos cálculos”, nessa hora todas olharam para Natasha, “Mas o mais importante é que esses cálculos na verdade eram um teste de Rejewski e os outros pra saber se alguém conseguiria decifrar uma parte de uma equação maior que eles não tinham a mínima noção de como se fazer”, nessa hora Natasha fez uma pausa, “E olha só, você conseguiu Anastazja”.

“Mas um teste, pra quê? Se eles quisessem resolver um problema matemático era só ter criado um grupo de pesquisa”, disse Anastazja, ainda tentando entender.

“Natasha, parece que você tá se contaminando com a mentalidade medíocre dessas aí. Fala a verdade, vai”, disse Brigitte, pedindo para Natasha, “Você não apenas conseguiu, como foi a ÚNICA pessoa que conseguiu resolver”, ao dizer isso Anastazja arregalou os olhos, como se não acreditasse. Brigitte prosseguiu, apesar do olhar abismado da menina: “Vários pedidos para que você participasse secretamente do Biuro Szyfrów foram enviados para você. Mas você colocou seu endereço errado, e as cartas nunca chegaram em Cracóvia”.

Brigitte então tirou da pasta duas das cartas que foram interceptadas por elas. Anastazja não sabia onde enfiar a cara.

“Acho que no lugar de 4 eu coloquei 9...”, disse Anastazja vendo onde estava o erro, “Meu endereço em Cracóvia não chegava até o número noventa”.

“Ai, Anastazja, só você mesma! Hahahaha!”, riu Alice. Anastazja deu um sorriso amarelo pra amiga. Aquelas cartas haviam sido enviadas há meses.

“Tá, mas o que significa esse negócio que você disse aí, o Biuro Szyfrów?”, perguntou Liesl, com uma pronúncia péssima.

“Escritório de cifras”, disse Anastazja.

“Cifras? Criptografia?”, disse Liesl, abismada.

“Sim. Essa menina é um verdadeiro gênio da matemática”, disse Brigitte, “O escritório de cifras polonês possui diversos matemáticos renomados, e essa equipe é a mesma que está decifrando uma das coisas que vai deixar Hitler de joelhos, totalmente desprevenido. Dizem que eles já conseguiram encontrar uma forma de decodificar a comunicação alemã, quebrando o código da máquina Enigma”.

Nessa hora Alice olhou para Anastazja, e uma sorriu gentilmente para a outra. As duas não pareciam nem um pouco surpresas. Liesl olhava pras duas sem entender também o que estava acontecendo. Mas Natasha e Brigitte pareciam cada uma, à sua maneira, indignadas. Esperavam uma reação mais animada por parte das duas, especialmente de Anastazja.

“Pensei que vocês reagiriam de forma diferente. Porque se olharam e ficaram em silêncio?”, perguntou Brigitte Briegel.

“Lembra que eu disse que descobrimos de uma comunicação nazista dizendo que havia uma Briegel no sul da Polônia?”, iniciou Anastazja, fazendo uma pausa. Natasha, Liesl e Brigitte confirmaram com a cabeça, pedindo pra ela prosseguir, “Então... Eu montei um rádio, bem vagabundo mesmo, e consegui interceptar um trecho da comunicação deles. Eu tive muita sorte, pois o pedaço que eu decodifiquei era onde uma das palavras formadas justamente era ‘Briegel’ e ‘sul’”.

“Espera aí, você tá dizendo que decodificou sozinha o código impossível de ser decifrado?”, perguntou Natasha, sem acreditar.

“Na verdade não foi lá essas coisas. Volta e meia eu conseguia interceptar com um pequeno rádio em casa e eu descobri em alguns dias o segredo do código deles há algumas semanas. Não foi difícil, apenas levava tempo, são muitos cálculos”, disse Anastazja, com muita humildade, “E eu fazia tudo usando um ábaco, então foi meio que trapaça! Um verdadeiro matemático não usa equipamentos como esses”, ela concluiu dizendo totalmente sem jeito.

“Você decifrou o enigma em minutos usando a porra de um ábaco?”, disse Brigitte, acendendo um cigarro, para ver se iria ajuda-la a se acalmar, “Quer dizer que o que eles estão se matando pra calcular você descobriu uma maneira de fazer isso usando a merda de um brinquedo de criança?”.

Anastazja não sabia o que falar. Brigitte parecia extremamente furiosa e indignada aos seus olhos. Mas na verdade ela estava era descrente.

“Quer saber, vou fumar e dar uma volta. Eu disse que vocês duas eram loucas de entrar na Polônia sendo exterminada pelos nazistas e soviéticos, mas a louca aqui é essa menina, que não tem noção nenhuma do que acabou de fazer!”, disse Brigitte, saindo pra dar uma volta para fumar.

“É um feito e tanto! Inacreditável na verdade!”, disse Natasha, sem acreditar tanto quanto Brigitte, “Você interceptou essa comunicação que te trouxe até nós aonde? Varsóvia mesmo?”.

“Isso. Na casa dos meus pais”, disse Anastazja, “Ah, e Liesl, eles estão bem. Seguiram para a Romênia enquanto eu e a Alice escolhemos te aguardar aqui”.

“Entendi então porque disseram que você é tão valiosa!”, disse Liesl, “Saber decodificar a Enigma traria uma vantagem enorme para a Inglaterra e a França para parar a expansão nazista pela Europa! O exército deles estaria nas nossas mãos!”.

“Nossa missão é levar Anastazja para um local seguro. A Romênia é o primeiro lugar para longe desse inferno antes que os nazistas a descubram. Talvez junto com os outros matemáticos do Biuro Szyfrów, o escritório de cifras”, disse Natasha, se erguendo do banquinho, como se estivesse pronta para ir, “Temos que nos apressar então! Vamos chamar a Brigitte para...”.

Natasha nessa hora não completou a frase. Ao longe vira Brigitte Briegel conversando com dois soldados soviéticos. Ela vinha correndo com o cigarro na boca, com sua cara rabugenta de costume em direção delas. Mas algo dentro de Natasha dizia que ela trazia más notícias.

“Temos que ir logo”, disse Brigitte, “Os soldados disseram que tem uma caravana de poloneses vindo nessa direção. E muitos são militares. E pelo que viram, estão em sua maioria armados”.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Amber #81 - Primogênita.

20 de setembro de 1939
13h03

“Presumo que você seja Liesl Pfeiffer. Alice e Anastazja falaram de você”, disse a russa, com um ar sério, “No mínimo tem que se admitir que elas tinham fé. A ideia era ir atrás de você em Lvov quando as coisas se acalmassem, mas pelo visto você foi bem mais rápida. Quando recebemos notícias do telégrafo de que havia uma senhorita chamada Liesl buscando Alice e Anastazja, desistimos de tentar voltar até Lvov e aguardar aqui”.

“Telégrafo?”, perguntou Liesl.

“Sim, meio rústico, e com muitas falhas, mas sobrou algo em pé do que foi um dia a comunicação dos poloneses”, disse a russa, “Aliás, me perdoe a falta de modos. Meu nome é Natasha. Natasha Aleksandrovna. Como pode ver, sou uma agente soviética da NKVD. Estou na liderança dos homens daqui”.

Liesl nessa hora ficou abismada. Tudo bem que Natasha não parecia nem um pouco jovem. Mas não apenas era uma líder do local, como uma agente da inteligência. E possivelmente de alta patente também. Era difícil de acreditar que tudo aquilo estava acontecendo. Mas antes de encontrar Alice e Anastazja, Liesl tinha que fazer uma coisa antes. Pediu licença para Natasha e foi correndo até a carroça onde estava a menina sem nome. Pediu para pararem e subiu no local onde havia viajado no último dia. A menina sem nome estava lá, como sempre, olhando para o nada e brincando com o que tinha na mão.

“Ah, você tá aqui”, disse Liesl ao encontra-la. A menina olhou pra Liesl e continuou brincando com uma bolinha de gude, jogando de um lado pro outro, “Escuta, eu as encontrei, vou ficar por aqui. Você vai ficar bem sozinha?”.

“Sim”, disse a menina, sem esboçar nenhum tipo de preocupação consigo mesma.

“Eu vou fazer isso que você pediu. Encontrarei as três pessoas. Voltarei para a Alemanha, vou anotar meu endereço aqui e você pode me...”

“Eu te encontro”, disse a menina.

Liesl suspirou. Nem mesmo na hora da despedida a menina aparentava expressar uma emoção. Continuava distante, e ao mesmo tempo alerta. Era muito complicado decifra-la.  Liesl apenas a fitou e balançou a cabeça positivamente. Provavelmente a menina nem viu o gesto de Liesl. Mas isso não importava. Se o destino as faria cruzar novamente, ele mesmo faria com que isso acontecesse.

Liesl desceu da carroça e foi até Natasha.

“Muito bem. Vamos indo então. Nessa direção?”, perguntou Liesl indo ao lado de Natasha.

“Sim, é logo ali”, confirmou Natasha. Quando Liesl enfim chegou perto da entrada na barraca viu que Anastazja estava do lado de fora, sentada numa pedra. De início não acreditou, Liesl estava toda ferida e enfaixada, andando com dificuldades. Mas quando confirmou que ela era mesma, Anastazja deu um grito de alegria chamando Alice:

“Minha, nossa, eu não acredito!! Alice, Alice, Alice!! Vem logo! É a Liesl mesmo!!”, gritou Anastazja e segundos depois Alice também saiu da barraca. Anastazja correu até Liesl e a abraçou de maneira apertada. Liesl soltou uns gritinhos de dor, mas aquela dor não era nada comparada com o alívio de ver as duas sãs e salvas. Momentos depois Alice também colocou a cabeça pra fora da barraca e viu Liesl lá, e assim como Anastazja, Alice gritou e correu até ela, e as três se abraçavam e choravam, como se não se vissem há anos.

“Liesl, sua boba! A gente ia te buscar!”, gritava Alice enquanto derrubava lágrimas de felicidade em cima de Liesl, que também não acreditava que estava no meio daquele abraço.

Depois de tantos beijos, abraços e gritos, enfim as duas pareciam mais calmas, e foram em direção da barraca:

“Eu não acredito que vocês foram sozinhas atrás do coronel. Vocês são malucas!”, disse Liesl, como um desabafo, “Da próxima vez eu vou matar vocês!”, brincou.

Nessa hora Alice e Anastazja trocaram um olhar sem graça. Liesl percebeu isso e ficou confusa.

“Espera aí. Vocês acharam o coronel Briegel, não acharam?”, perguntou Liesl.

E logo após dessa pergunta uma mulher saiu da barraca. Ela aparentava ter uns sessenta anos, tão velha quanto era Natasha. Mas ainda assim tinha um corpo em tão boa forma quanto, que não dava aparência de fragilidade, apesar das poucas rugas e sinais de expressão. Tinha um cabelo castanho claro, olhos escuros e estava fumando. Era bem alta, e parecia ser uma pessoa forte. Sua expressão era séria, com as sobrancelhas arqueadas e um ar esnobe de superioridade. Ao ver Liesl se aproximando fixou o olhar nela.

“Olha, na minha defesa, havia um Briegel sim, como eu decifrei na mensagem. Eu não errei”, disse Anastazja, como se falasse num tom de desculpa, “Acontece que não era bem o Briegel que estávamos atrás”.

“Não acharam o coronel?”, disse Liesl, enquanto se aproximava ao lado das duas da barraca, e da mulher que fumava, “Então quem era o Briegel da mensagem?”.

Alice tomou a frente e apontou o dedo para a mulher que fumava. Mulher esta que ao mesmo tempo permanecia com um olhar inquisidor contra Liesl.

“Liesl, vou te apresentar a irmã mais velha do papai, a primogênita da família”, disse Alice, apontando para a mulher, “Essa é Brigitte Briegel”.

Os olhos de Liesl se arregalaram. Era a última opção que ela pensava que fosse. E de todos os irmãos teria que ser justamente a que o coronel mais dizia que detestava? Brigitte Briegel nessa hora cruzou os braços e ficou encarando Liesl, enquanto tragava seu cigarro e soltava a fumaça pelo nariz. Ela não parecia em nada o coronel. E menos ainda o pai, Heinrich. Nessa hora Liesl percebeu que talvez Brigitte teria eventualmente puxado mais a mãe, pois não tinha quase nada de parecido com os dois. Exceto aquela cara emburrada e de poucos amigos. Essa era similar a do pai. Até um pouco pior de certa forma.

“É você a tal pirralha que o idiota do meu irmão treinou?”, perguntou Brigitte. Liesl apenas confirmou com a cabeça, sentindo um pouco de medo de Brigitte, “Pelo visto o treinamento dele foi te ensinar a ser uma imbecil sem cérebro. Tem uma guerra acontecendo lá fora, sua pentelha. Você poderia ter morrido. Chegou viva aqui por sorte, nada mais”.

Nessa hora Liesl ficou quieta. Por mais que pensasse, não conseguia ver nada de errado na fala de Brigitte. Realmente foi um ato de sorte. Especialmente viajando ao lado da menina anônima, um perigo enorme, além de ter se infiltrado numa caravana polonesa, mesmo sendo uma alemã, no meio da Polônia sendo estuprada pela Alemanha nazista de um lado e a União Soviética do outro.

Mas dentro da sua mente, ela tinha várias perguntas a fazer. Brigitte Briegel mandou trazer alguns bancos para que se sentassem, e conversaram ali fora mesmo da barraca. Liesl, Alice, Anastazja e Natasha sentadas, e Brigitte Briegel em pé, um pouco mais na frente, mas de forma que conseguisse visualizar tanto o horizonte, quanto ouvir a conversa.

“O que exatamente aconteceu? Minha cabeça tá toda embaralhada, eu pensei que tinha passado apenas alguns segundos, e tomei um susto quando acordei sozinha em um lugar que não conhecia e toda machucada”, disse Liesl, buscando na sua mente o que havia acontecido, “O que fizeram nesse meio tempo depois que o Dirlewanger estava me chutando?”.

Alice e Anastazja se olharam. Foi Alice quem começou.

“Bom, se quer saber se consumaram o estupro comigo, felizmente não. Nem eu sabia que tinha tanta força dentro de mim. Aqueles homens, aquelas mãos, aquilo era tão aterrorizante! E eu não sei porque nenhum deles me ameaçou com uma arma, ou canivete, ou algo assim. Talvez eles estivessem achando que eu não ofereceria resistência, ou algo do gênero. Obviamente foi horrível aquilo tudo”, disse Alice, nessa hora fazendo uma pausa. Seus olhos ficaram marejados, e seu rosto tinha uma expressão de nojo enquanto recordava, “Mas eu tive foi muita sorte. E mais uma vez obrigada, Anastazja. Você foi quem nos salvou de algo pior”.

“Não tem o que me agradecer”, disse Anastazja, passando a mão nas costas de Alice, tentando consola-la, “Naquela hora que eu corri, mesmo machucada, consegui chegar numa estrada. Uma menina, um pouco estranha por sinal, me mostrou onde tinham soldados poloneses, da resistência, por ali. Saí correndo e os achei, e os levei de volta para onde estávamos. Eles chegaram atirando, e os homens que estavam prestes a estuprar a Alice também sacaram suas armas e começaram e trocar tiros. Eles nem sabiam se abotoavam as calças, se corriam, ou se atiravam. Foi um ataque bem de surpresa”.

“Nossa. Que bom que a Alice mandou justo você”, disse Liesl, começando a encaixar os resquícios de memória daquele dia, “E o Kovač?”.

Alice e Liesl ficaram em silêncio por um momento, cabisbaixas.

“Dirlewanger e os outros o levaram”, disse Alice.

“O quê?!”, disse Liesl, se erguendo do banco sem acreditar.

“Ei, senta aí pirralha”, disse Brigitte, ainda se mantendo de costas para Liesl ali perto, “No mínimo aquele inútil do meu irmão te ensinou a levar uma surra. É a única coisa que ele deve prestar mesmo”.

Liesl virou o olhar para Brigitte, mas essa a ignorou. Voltando o olhar para Alice e Anastazja, pediu para que elas continuassem a falar sobre Kovač.

“Eles o levaram. Dirlewanger disse desde o começo que aquele era o objetivo dele. E no meio do tiroteio ele correu para pega-lo, e depois até pisou em cima de você estirada no chão”, disse Alice, “E agora o destino dele está nas mãos dos nazistas”.

“O grande cabeça por trás da fissão nuclear, Leo Szilárd, está seguro nos Estados Unidos. Quero ver se realmente vão conseguir fazer um armamento quebrando uns átomos sem explodirem Manhattan antes”, disse Natasha, carregada na ironia, “Mas de qualquer forma de nada adiantava terem salvado o cabeça e terem deixado Kovač, que no máximo devia ser um pé. E dos tortos. Embora não tenha sido o gênio por detrás, ele sabe exatamente o processo de como se fazer, tanto quanto os que descobriram. Protegeram o cara que inventou a arma, mas deixaram aqui o cara que poderia construir uma. Patético”.

“Era pra eu ter resgatado o Kovač”, disse Brigitte, virando o rosto e encarando Liesl, Alice e Anastazja, “Ele estava aguardando ‘um Briegel’. E ‘esse Briegel’ era eu. Se eu tivesse chegado lá antes, nada disso teria acontecido. Vocês são uma desgraça mesmo, bando de irresponsáveis! Colocaram o mundo em perigo com suas brincadeiras!”, Brigitte Briegel nessa hora jogou o cigarro no chão e o pisou, e começou a andar com passos pesados no chão em direção das três, “Agora aquele imbecil do Hitler pode criar uma arma capaz de destruir cidades inteiras por meio da fissão nuclear. E foi tudo culpa de vocês que deviam ter ficado na Alemanha e jamais terem colocado os pés na Polônia!”.

“Brigitte, não sei se Alice contou, mas o seu irmão desapareceu! Simplesmente sumiu!”, disse Liesl, mas Brigitte não esboçou nada em específico. Isso era um sinal de que ela sabia disso, “Ele parecia estar pesquisando o paradeiro de algumas pessoas, e achamos no meio dessas fichas justamente o Kovač! Achávamos que se fôssemos atrás de Kovač nós encontraríamos o coronel Briegel”, nessa hora Brigitte cerrou os olhos. Provavelmente Alice nem Anastazja lhe contaram essa parte da estória, “Mas acabamos encontrando o Briegel errado”, ao falar Liesl olhou com um olhar ligeiramente irônico para Brigitte, que fingiu não ter visto.

“Mas enfim, pra concluir então”, disse Anastazja, chamando a atenção para si, “Os soldados poloneses nos ajudaram a te prestar os primeiros socorros. Mas qualquer lugar era muito perigoso. Conseguimos um carro e corremos o máximo que podíamos, tentando com todas as forças te manter estável. Francamente foi um milagre você ter sobrevivido”, nessa hora Anastazja fez uma pausa, como se dentro dela fosse preenchida com uma imensa gratidão, “Nos seus delírios você sempre chamava por esse tal ‘coronel Briegel’, a toda hora”, nessa hora Liesl ficou vermelha. Alice deu um sorriso tímido pra ela, como soubesse exatamente o que aquele enrubescer significava, “Mas enfim conseguimos te colocar em um casarão que foi adaptado por uns membros da cruz vermelha. Ficamos lá com você, mas um homem estranho apareceu, disse que havia um tal de Briegel nos procurando, e a pista parecia muito boa”.

“Um homem?”, perguntou Liesl, “Quem?”.

“Não temos ideia”, disse Alice, “Ele não se apresentou. Era careca, bem magro, velho e usava um par de óculos redondo”

Liesl estava profundamente tocada. Apesar de não achar o coronel, ela estava feliz em ver que todas estavam bem. Agora tudo se encaixava perfeitamente.

“Obrigada vocês duas”, iniciou Liesl, “Eu não tenho palavras pra descrever o quanto me sinto grata. No começo eu achava que seria eu quem protegeria vocês, mas pelo visto vocês me protegeram bem mais do que poderia imaginar. Eu agradeço profundamente por tudo”, nessa hora Liesl pegou na mão de Alice carinhosamente, “É verdade que tudo deu errado, não conseguimos achar o coronel, perdemos o Kovač, quase morremos nas mãos de nazistas, entre outras coisas. Mas quer saber, eu faria tudo de novo, afinal...”, nessa hora Liesl virou o olhar pra Anastazja, que estava com os olhos cheios de lágrimas, “...Foi graças a esse ‘erro’ que foi vir para a Polônia que tivemos o maior êxito de todos. Conhecer essa polonesa atrapalhada e ganharmos uma nova e valiosa amiga!”.

Anastazja emocionada começou a chorar de felicidade, enquanto Alice e Liesl a observava com os olhos também marejados.

“Sua boba! Você sabe que eu choro fácil!”, disse Anastazja, limpando as lágrimas teimosas que inevitavelmente caíam dos seus olhos, “Se não sabia, está ciente agora! Vou cortar relações se me fazer ficar assim de novo, dona Liesl Pfeiffer!”, e ao dizer isso, Alice e Liesl caíram na risada.

“Que cara de pau! Ainda me chama de boba, é mole? Eu salvei sua vida, sua mal agradecida!”, disse Liesl, quebrando o gelo, “Mas voltando um pouco, você disse que havia uma menina que você tinha encontrado quando saiu correndo buscando por ajuda. Você lembra dela?”, perguntou Liesl, se lembrando dos detalhes que Anastazja havia dito segundos atrás.

“Sim, eu lembro!”, disse Anastazja enquanto pegava um lenço para enxugar as lágrimas, “Ela não me falou o nome. Mas era baixinha, devia ter uns sete ou oito anos, tinha o cabelo castanho claro encaracolado e uns olhos lindos, que nunca tinha visto antes naquele tom. Eram olhos cor-de-mel extremamente vivos e brilhantes!”.

Liesl nessa hora ao ouvir a descrição ficou de olhos arregalados. Alice também não conseguia acreditar. As duas ainda sem dizer nada olharam entre si. O silêncio perdurou naquela conversa.

“Não entendi a cara e esse silêncio de vocês duas. Devia ser apenas uma menina perdida por aí. Tá cheio de órfãos de pais que foram mortos por nazistas nesse país”, disse Natasha tentando compreender.

“Será que ela era ‘aquela menina’, Alice? Aquela que eu e o coronel achamos na antiga casa da Brigitte um tempo atrás?”, perguntou Liesl. Alice apenas confirmou com a cabeça, ela parecia estar ainda mais chocada.

“Hã? Minha casa?”, perguntou Brigitte ao ouvir que havia sido citada.

“Sim. Na sua antiga casa. É uma longa estória. Mas havia uma criança vivendo lá na sua casa em Brandenburgo. A gente nunca conseguiu descobrir nada dela. Ela não falava muito, se explicava pouco. Mas a descrição era exatamente como a Anastazja contou. Aparentemente sete ou oito anos, cabelo encaracolado e castanho claro e olhos cor-de-mel. Não acredito que ela estava justamente por aqui, porque eu também a encontrei!”, disse Liesl, e nessa hora as outras duas se assustaram, “Foi ela quem me trouxe até aqui. Me tirou do hospital, me colocou numa carroça e veio comigo até aqui”.

Alice continuava chocada. Mas também parecia estar ansiosa, como se tivesse algo que precisasse botar pra fora.

“Liesl, tem uma coisa que eu não te contei. Na verdade com toda essa correria nem mesmo consegui de qualquer forma”, disse Alice, começando a se explicar. Liesl ficou atenta, mas não sabia exatamente o que esperar, “Foi essa menina que apareceu pra mim dizendo que você precisava de ajuda, no celeiro com Anastazja enquanto o Sundermann estava caçando vocês duas”.

“Puxa! Ela é esperta pra uma menina de sete anos. Tem certeza que ela não era um anão?”, disse Brigitte, carregada na ironia, “A mesma menina apareceu pra vocês três. Incrível”.

As três apenas olharam pra Brigitte, também não conseguindo entender o que isso significava.

“Bom, mas podemos ter perdido o Kovač, mas temos aqui um imenso trunfo. Vocês vieram com um objetivo para a Polônia, mas falharam miseravelmente, e só tomaram uma surra atrás da outra. Mas ao menos não precisamos sair dessa terra de ninguém de mãos abanando. Um trunfo que pode nos ser mais útil pra derrubar Hitler do que sabe-lá-deus o que ele vai fazer com uma meia dúzia de átomos que aquele caipira do Kovač pode criar. Isso é, se conseguir é claro, o que eu acho muito, realmente muito difícil”, disse Natasha, e nessa hora as três viraram para ela sem compreender o que ela queria dizer, “Esse trunfo vai realmente mudar o destino dessa guerra. E eventualmente até acabar com ela, antes mesmo de começar”.

“Um trunfo? Não tô entendendo”, disse Alice, olhando pra Liesl tentando achar se devia ter algo nela. O mesmo fez Liesl, olhando pra Alice tentando achar o que poderia haver nela de tanto valor a ponto de acabar com a guerra, “E o que é esse trunfo?”.

“O correto não seria dizer ‘o que é’, e sim perguntar ‘quem seria’”, disse Natasha, apontando com a cabeça para Anastazja, “A melhor arma pra derrubar Adolf Hitler e acabar com o nazismo está sentada nesse banco aqui do meu lado. É uma jovem polonesa chamada Anastazja Maslak”.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Amber #80 - Goin' places.

Liesl estava acomodada em uma carroça coberta levada por duas mulas. Haviam mais cinco pessoas, todas essas polonesas de idade, que por problemas de locomoção ficaram em uma das poucas charretes que ia junto daquela caravana. Ferida, Liesl ficava sentada dentro da carroça, e seu corpo, pedindo cada vez mais repouso, despertava e acordava em intervalos. A tarde passou, na noite acamparam mas ela decidiu continuar repousando na carroça ainda com as outras pessoas de idade.

Foi então que ao acordar na manhã do dia vinte, viu que a menina sem nome estava na sua frente, olhando a estrada e o caminho por onde estavam passando. Não haviam muitas pessoas. Não passavam de trinta no total. Uma caminhada mais discreta rumo à liberdade. O paraíso que naquele momento se chamava Romênia.

“Enfim acordou”, disse a menina, do mesmo jeito, sem expressar muita coisa, “Durante a noite conversei com várias pessoas. Eu tinha ouvido aquela mulher negra dizendo que iria com a polonesa na direção sul. Era onde tinham conseguido pistas sobre o paradeiro de Briegel”.

“Sim. É isso mesmo. O que exatamente você estava conversando com as pessoas?”

“Disse que estava em busca de uma mulher negra que andava com uma polonesa de óculos”.

“E então?”

“Uma família que mora por aqui diz ter visto uma mulher negra a uma polonesa de óculos, e ao conversar com elas, elas indicaram que iam na direção de Chernivtsi, na Romênia. É bem perto da fronteira polaca com a romena, provavelmente estão em um acampamento. Disseram que se tudo correr nesse ritmo cruzarão a fronteira antes do entardecer. Então será antes disso que vamos passar no local onde estão”.

“Como vamos saber que chegamos?”

“Ele vai nos avisar”.

“Escuta, quem é você?”.

Novamente ela ficou em silêncio. Seu rosto não expressava nada, ela nem parecia ignorar, parecia simplesmente não ter ouvido, olhando pro nada. Liesl insistiu.

“Eu te fiz uma pergunta! Quem é você?”

“Você não me conhece. Porque saber meu nome iria mudar algo?”.

“Ora, eu não sei. Mas é isso que pessoas normais fazem!”.

“Quem eu sou não tem importância”.

Liesl suspirou. Arrancar alguma informação pessoal daquela menina era mais difícil que ela pensava.

“Eu tô com fome. Meu estômago tá roncando”.

“Coma isso. Trouxeram alguns pães”, disse a menina, passando um pedaço de pão meio velho pra Liesl. Apesar de duro, ela comeu e achou delicioso, “Tem um pouco de leite também. Tá frio”, e junto do leite Liesl comeu aquele pão com muita vontade. O descanso havia feito ela acordar muito bem no outro dia, agora preencher seu estômago com algo ajudou ainda mais a se sentir melhor.

“Hoje estou bem melhor que ontem. Não me sinto bem em fazer esforços, mas também não estou sentindo tantas dores. Deu realmente pra descansar. Acho que até conseguiria caminhar, sem precisar ser carregada”.

A menina continuava em silêncio, com o olhar perdido.

“Escuta, porque você sumiu? Quer dizer, a gente te achou, vivendo naquela casa abandonada pela Brigitte, sozinha. Você não tem pais?”.

“Não entendi. Você fez duas perguntas. O que quer que eu responda?”.

“Pode começar por ‘onde estão seus pais’, se quiser”.

“Minha mãe faleceu quando eu era menor. Nunca conheci meu pai”.

“Mas você tem um nome, certo?”.

“Tenho”.

“Certo. Entendi. Mas porque você sumiu? Tenho certeza que a Alice te daria tudo do bom e do melhor. Você teria uma vida boa na Alemanha com a gente”.

“Não sei”.

“Hã? Como assim ‘não sabe’? É só isso que você tem pra responder?”.

Novamente a menina ficou em silêncio, cutucando umas casquinhas de ferimentos cicatrizados que ela tinha no braço, parecendo dar a mínima pra Liesl.

“Mais uma pergunta então: O que você está fazendo no meio da Polônia”.

“Eu vivo por aí. Ando pelos lugares”.

“Nossa, suas respostas também não ajudam muito”, disse Liesl. A menina sem nome apenas ficou em silêncio diante do comentário de Liesl, “Andando por aí, sem rumo. Uma criança de rua completamente nômade, vivendo sozinha, comendo quando tem comida, dormindo no relento, enfim. Muito estranho”.

Em silêncio a menina apenas ouvia Liesl. Parece que ela só interagia de volta quando faziam uma pergunta direta pra ela.

“Você disse que precisava de um favor meu. O que é?”.

“Quero que ache umas pessoas pra mim”, a menina vasculhou nas coisas de Liesl e achou um pedaço de papel e um lápis, onde anotou três nomes: Flavia Anzanello, Frédérique Beaudoin, e Jérome d’Uston de Villeréglan, “Os dois primeiros eu preciso que você ache tudo o que puder sobre. O último eu o quero morto”.

“Morto? Você acha que eu seria capaz de matar alguém inocente?”, perguntou Liesl, sem acreditar no pedido que ouvia de uma criança.

“Você vai achar uma maneira. Trato é trato. Te levarei ao Briegel, preciso que faça isso por mim”, disse a menina, sem dar maiores explicações.

“Tudo bem. Assim que voltarmos pra Alemanha irei atrás disso. Mas como vou te encontrar pra te entregar?”.

“Não se preocupe. Eu te encontro”.

“Tudo bem então”, disse Liesl, calmamente colocando o papel com o nome na sua mochila, “Quando eu e o coronel te vimos pela primeira vez, você disse que era uma ‘garota sem consequências’. Quando te vi matando aquela pessoa daquele jeito, fiquei abismada. Você não achou errado aquilo que você fez?”.

“Não”.

“E... Só isso? ‘Não’?”.

“É”.

“Nossa, você deve ter a empatia de uma porta”, disse Liesl, pensando alto, “Não consegue se colocar no lugar dos outros e ser solidário com o sofrimento do próximo. É como se a coisa que mais nos fizesse ser humanos estivesse com defeito dentro de você. Isso é bizarro, nunca vi uma pessoa assim”.

Mas a menina sequer reagia. Ficava tirando sujeira acumulada entre os dedos dos pés e cheirava depois. Sempre tinha um ar perdido, respostas vagas, e não expressava nenhum tipo de emoção. Liesl ficava em silêncio observando a menina. Aqueles olhos cor-de-mel ficavam de olho em todas as direções, pra cima e pra baixo. Muitas vezes o olhar encontrava com o de Liesl, que continuava sem entender quem era aquela menina.  Mas sempre que os olhos das duas se encontravam, Liesl sentia um misto de vazio com o mais profundo terror. Na realidade um era originário do outro. Não era possível prever o que ela garota faria. Ela poderia matar todos ali naquele local sem problema algum. Ou poderia simplesmente agir conforme dizia. Essa dúvida a matava de ansiedade. Ao mesmo tempo não conseguia desgrudar os olhos daquela menina sem nome. Qual era sua história? Quem eram seus pais? Porque agia desse jeito? Porque vagava sozinha naquele palco de guerra?

Mas a menina simplesmente não respondia. Ela não parecia esconder, não reagia de maneira que se auto preservasse ao ouvir as perguntas de Liesl. Parecia mesmo que não tinha noção das respostas para as perguntas que lhes eram feitas. Mas como uma pessoa poderia não saber seu próprio nome? Ou pior: seria possível aquela menina não ter um nome?

Assim ela ficou refletindo consigo mesma durante um bom tempo. Tanto tempo que ela nem percebeu passar. Então, Liesl sentiu que a carroça parou bruscamente.

“Hã? Porque paramos?”, disse Liesl, espiando por uma fresta do comboio. Ao ver o que havia do outro lado simplesmente paralisou da cabeça aos pés. Ela reconhecia aqueles uniformes militares. “Aqueles são... É o exército vermelho!”.

Ao virar para a menina sem nome, Liesl percebeu que ela sequer mexeu uma sobrancelha. Continuava calma, no seu mundo. Desesperada, Liesl foi até ela, a segurando pelos ombros, dizendo de maneira bem firme, olhando nos olhos:

“Ouviu o que eu disse, menina? São os soviéticos! Tem uns dez lá fora, todos eles armados! Temos que fugir daqui agora, pega logo suas coisas!”.

Mas a menina, depois de manter os olhos em Liesl, disse apenas uma coisa:

“Não adianta fugir”, disse a menina, virando o olho para a abertura que Liesl havia deixado ao espiar, “Eles vão entrar logo”.

Agora Liesl estava perdida. Não sabia se naquele momento o exército vermelho a caçaria por, mesmo que na aparência, estivesse do lado dos nazistas. E mesmo que conseguisse explicar suas reais intenções, não havia garantia nenhuma que seria compreendida. Todas as pessoas naquela carruagem estavam tensas. Liesl era obviamente a que mais estava, a ponto de ir até a ponta do outro lado e tentar abri-la, sem sucesso. Todos estavam amedrontados, menos obviamente aquela menina. Ela parecia ser o tipo de pessoa que mesmo momentos antes de perder a vida é capaz de manter a calma, como se até mesmo ameaças contra sua vida fossem insignificantes.

“Pfeiffer. Liesl Pfeiffer”, disse o soldado russo, falando em alemão, adentrando no comboio da carroça, “Estamos em busca de uma menina loira de cabelos encaracolados de aproximadamente quinze anos. Se a acharmos liberaremos o resto”, o soldado dizia enquanto passava o olho em todas as pessoas, inclusive na menina anônima. Ao perceber que ela era muito nova pra aparentar quinze anos, disse a ela: “Não... Você parece ter uns seis ou sete”, nessa hora o soldado viu Liesl no fundo, com a cabeça coberta, tentando se esconder, “Ei, você aí! Vire seu rosto pra cá”.

Era tudo ou nada. Liesl nessa hora lembrou que a Frommer Stop estava em um coldre que andava sempre com ela. Poderia tentar render o soldado e trazê-lo para dentro e toma-lo como refém. E caso ele se mexesse, ela atiraria, e seria uma luta contra o tempo até que ela pudesse ir para um lugar a salvo.

Mas não havia tempo de pensar em nenhuma outra opção. Em apenas um movimento rápido sacou a arma e apontou pro soldado soviético, que tomou um susto com a cena.

“Entra agora”, disse Liesl. Mas o soldado ao ver Liesl parecia ter uma expressão de alívio, como se a estivesse procurando há tempos. Não estava com uma expressão de medo por ter alguém apontando uma arma para ele. Ainda com um sorriso tímido no rosto ele virou-se para o lado e desceu da carroça, gritando calorosamente, “Kapitan Aleksandrovna!! Kapitan Aleksandrovna!!”

“Merda! Preciso sair daqui agora!!”, disse Liesl indo até a entrada da carroça. Mas antes de sair trocou um olhar com a menina anônima, sem dizer nada. Seu rosto mostrava um misto de dúvida com incredulidade para com ela. A menina obviamente apenas recebeu o olhar e continuou com aquela sua cara de que não dava a mínima, sem esboçar nada em especial.

Ao espiar pela fresta do pano viu que os soldados estavam conversando não muito longe dali. Rapidamente desceu sorrateiramente e se agachou, para tentar passar desapercebida. Porém não percebeu que havia uma pessoa caminhando ao lado da carroça. Era uma mulher, vestia um sobretudo cor de cáqui, clássica cor usada pelos soviéticos, e tinha um quepe com uma estrela vermelha estampada no centro, com um martelo e uma foice dourados no centro. Já aparentava ter certa idade, mas não aparentava ter mais do que cinquenta. Seus cabelos loiros dourados amarrados num coque, os olhos azuis profundos e poucas rugas na sua pele eram as coisas que mais chamaram a atenção de Liesl enquanto era pega fugindo.

Porém ao dar de cara com a russa, ambas se assustaram. Rapidamente pegou sua arma e apontou para a mulher.

“Escuta aqui. Finge que não me viu e me deixa passar”, disse Liesl, com a arma engatilhada, “Eu não quero ser obrigada a disparar. Ainda mais contra outra mulher!”.

A mulher ao ver Liesl apontando a arma para si permaneceu plácida e calma. Parecia estar de alguma forma no controle daquela situação.

“Você não atiraria em mim, garota. Estamos a procura de você, na realidade”, disse a mulher, calmamente. Ela apontou o dedo para atrás de Liesl, onde ao virar-se esta viu que havia uma barraca militar montada, “Alice Briegel e Anastazja Maslak estão te esperando logo ali”, nessa hora Liesl, toda machucada, ficou tão aliviada que seus olhos encheram de lágrimas. Ela tinha esquecido que estavam chegando perto da fronteira com a Romênia e, como a menina anônima havia dito, era lá que haviam ouvido falar que Alice e Anastazja a esperavam. Mas o melhor ainda estava por vir. A próxima coisa que a oficial disse realmente fez Liesl derrubar muitas lágrimas de felicidade, pois lhe tirava um peso ainda maior das suas costas:

“Briegel também está lá. Achei que iria gostar de saber disso”, disse a oficial russa.

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