sábado, 14 de abril de 2018

Amber #103 - O rançoso e a petulante (3)

Chao havia sucumbido. Era o fim pra ele.

“Ora sua, cala essa sua boca!!”, disse Chao se erguendo e jogando seu corpo contra Tsai, num empurrão, fazendo os dois caírem pesadamente no chão.

Tsai o empurrou para o lado e se ergueu, e Chao também o fez. Ele parecia disposto a querer lutar ainda, mas para todos os que assistiam aquele embate, era mais do que óbvio que Tsai havia saído vencedora.

“Eu não vou desistir. Eu não posso desistir!”, gritava Chao, cuspindo sangue, “Mesmo que eu caia vinte vezes, eu me levantarei vinte e uma! Eu treinei muito para esse dia, tudo esperando a oportunidade para enfim te botar no seu lugar, sua vadia desgraçada!”, e ao dizer isso, Chao tentou mais uma vez fechar o punho e ir para cima de Tsai, que apenas deu um passo pro lado e o viu errar o golpe, e tentar se recompor.

“Ei, Chao, chega disso, você perdeu! É melhor desistir e manter um pingo de honra depois dessa humilhação e sair na esportiva do que ficar insistindo no erro!”, gritou Huang, indo em direção de Chao. Huang parecia querer apaziguar os ânimos daquela luta que Chao encarava como uma briga.

“Saia daqui seu inútil! Eu já disse, eu vou vencer essa idiota!”, disse Chao, mais uma vez tentando dar outro golpe em Tsai, avançando pra cima dela, e mais uma vez ela apenas deu um passo, e ele caiu direto de cara numa árvore.

Huang então se aproximou e acudiu de certa forma Chao, tentando erguê-lo, e o levar para fora dali. 

“Eu já disse, essa luta acabou, Chao!! Vê se me ouve, seu cabeça dura do caralho!”, gritou Huang, tentando trazer um pouco de razão na cabeça de Chao, mas ele continuava olhando pra Tsai, furioso, bufando como um touro, não dando a mínima para o pedido de Huang.

Schultz observava aquele peça toda na sua frente se desenrolando. Ao menos agora ele estava mais calmo. Ele não tinha um olhar treinado para artes marciais, foi bem difícil distinguir o que acontecia no meio de tantos golpes, mas depois da assessoria de Eunmi ele começou a reparar no que não conseguia ver antes. Era incrível toda aquela troca de movimentos, todos bem calculados, e a incrível força que tudo aquilo tinha. O alemão agora sabia observar punhos, chutes, defesas, investidas. Estava com o olhar tão calibrado, que inclusive viu a mão de Huang puxando algo do bolso da calça de Chao, algo que parecia um envelope, enquanto Huang acudia Chao ferido.

“Ei, como assim, vocês viram aquil...”, disse Schultz, mas ao virar, vira que nem Chou, nem Li, nem Eunmi, nem ninguém havia percebido aquilo. O que havia naquele envelope que Huang havia afanado de Chao? Nesse momento Schultz percebeu que talvez não era um bom momento pra começar alguma intriga, se alguém era a líder ali era Tsai. E ela deveria depois ser informada desse furto e perguntar para Huang o que era aquilo que ele havia sorrateiramente pegado do bolso de Chao, enquanto o ajudava a se levantar.

Porém, quando Schultz virou o rosto pro outro lado, viu o outro Chou, o Chou Dafeng, o chinês imenso com cara de simpático, que antes olhava com ternura toda vez que botava os olhos na Gongzhu. Ele estava também com uma expressão ligeiramente assustada, encarando Huang. Pela sua feição, Schultz presumiu que não foi apenas ele que havia reparado nas mãos leves de Huang.

“Me deixa!”, gritou Chao, empurrando Huang, que se apoiou no chão ao ser jogado. Huang se ergueu, bateu a poeira da roupa, e saiu resmungando coisas inaudíveis. Chao então prosseguiu, indo pra cima de Tsai com seu punho cerrado.

Mas dessa vez, para a surpresa de todos, Chao acertou Tsai em cheio no rosto.

A Gongzhu não gritou. Soltou apenas um gemido, quase inaudível. Mas aquilo para Schultz pareceu quase que passar em câmera lenta. Aquele soco parecia realmente ter acertado ela de jeito, o que o deixou muito preocupado. Tsai permaneceu com o rosto virado depois do impacto do soco, enquanto Chao também ficara estático, e era possível ver o quanto ele demandava de respiração, pois seu peito se enchia e se esvaziava numa velocidade constante. Obviamente ele estava cansadíssimo, exausto, e estava nas últimas. Não haviam golpes, não havia nada. Apenas os dois ficaram parados, como estátuas, e aquilo tudo era muito estranho. O que significava aquilo?

Eles estavam a uma certa distância. Logo era um pouco difícil entender o que estava acontecendo. Mas quando Schultz percebeu, vira que a boca dos dois estava se mexendo, como se eles estivesse falando, mas sequer gesticulavam. Bem baixinho, de forma que ninguém conseguia ouvir. Mas como o silêncio no local só era quebrado pelo som de pássaros, do vento que passava, e dos mosquitos que enchiam o saco no ouvido, aqueles segundos que os dois ficaram naquela posição, falando algo inaudível para eles que estavam longe, inevitavelmente acendeu uma dúvida entre os membros do pelotão.

“Ei, parece que os dois estão falando alguma coisa!”, disse Li, após também ter reparado. Chou confirmou com a cabeça, ela havia percebido também, mas não era possível ouvir. E tão rápido elas perceberam, Chao novamente cerrou os punhos, olhou para Tsai, e deu mais um golpe.

Só que dessa vez, Tsai desviou.

“Eu já disse, Chao! Já basta dessa luta!”, disse Tsai, mas Chao parecia ignorar, e depois de errar um golpe, veio com mais um pra cima dela.

“Cala a boca! Olha só a humilhação que você me fez passar!”, disse Chao, mas Tsai desviou mais uma vez sem problemas do segundo golpe, “Todo o meu pelotão e o seu está vendo! Você sabe muito bem a rivalidade que existe entre os quatro pelotões!”.

“Me recuso a lutar com alguém que já foi derrotado. Isso vai contra meus princípios. Aceite que perdeu e desista de uma vez por todas, Chao!”, disse Tsai, elevando a voz. No fundo ela parecia preocupada com Chao naquele estado.

E Chao ficou por alguns segundos encarando o chão. E então ele, depois de tomar ar, avançou contra Tsai. Seus golpes eram completamente diferentes.

“Minha nossa, ele não vai desistir mesmo!”, gritou Schultz, assustado. Os golpes de Chao agora pareciam bem mais fortes que os anteriores, eles pareciam rasgar o ar, era possível até ouvir, ele parecia estar disposto a usar todas suas últimas forças unidas numa investida final, “Eunmi, é impressão minha ou os golpes parecem diferentes? Ele parece realmente desferir os golpes com muito mais força que antes, mesmo que os golpes de antes já parecessem muito fortes!”.

“Incrível. Nunca vi alguém assim! Dá pra sentir a força empregada em cada movimento, ele parece querer aniquilar de vez Tsai, indo até as últimas consequências!”, disse Eunmi, abismada.

E então um golpe acerta Tsai, mas ela continua se mantendo na defensiva, tentando encaixar algum golpe, mas os movimentos de Chao pareciam impregnados de uma profunda fúria. Ele chegava a soltar gritos furiosos enquanto desferia os golpes. Schultz, apreensivo, dá um passo pra frente, com medo do que possa acontecer, desejando de alguma forma defender a mulher que ele sentia que queria proteger. Porém ao mesmo tempo ele sabia que aquela era a luta dela, e que devia respeitar.

Porém, outro golpe acerta Tsai. E dessa vez a acerta pra valer, no rosto. Ela solta um grito contido, e o coração de Schultz e dos membros do pelotão dela salta pela boca.

“Gongzhu!!”, gritaram Li e Eunmi, enquanto Chou avançava em direção dela.

“Chega disso! Chao está fora de si! Ela luta acabou há muito tempo!”, disse Chou, levando sua caixa médica até Tsai.

Mas Chao parecia estar fora de si. Tsai tentava se recompor do golpe que a acertou em cheio, a ele não parava de golpeá-la, mesmo ela tentando se manter em pé, numa posição defensiva. Era claro que até se defender daquele canalha e covarde era algo doloroso, dada a feição que a Gongzhu tinha e os gemidos de dor que ela soltava quando um golpe de Chao passava pela defesa dela.

Schultz então leva suas mãos pra sua cabeça. Chou, que estava indo ao encontro da Gongzhu para no meio do caminho sem acreditar no que via. Li e Eunmi gritavam por Tsai, enquanto Dafeng, Ho e Chen não sabiam o que fazer, de tão chocados que estavam. Huang apenas observava aquilo tudo com a cara fechada, e Schultz, se vendo no meio daquele turbilhão, olhava para todos os lados, como se buscasse por alguma ajuda, alguma resposta, para tudo aquilo.

Como aquele sentimento de vitória, de que tudo acabaria bem momentos atrás, se transformou no desespero assim, de maneira tão abrupta?

Puta que pariu, foco, Schultz, foco! Cacete... Esse cara tá completamente fora de si, ele tá lá desferindo golpes atrás de golpes na Tsai, ele vai acabar matando ela! Alguém tem que fazer algo! Acho que eu consigo segurar ele, mas esse tonto do Huang fica só encarando de cara fechada, acho que ele nem vai ajudar! E agora, o que vou fazer?, pensou Schultz, e enquanto seu olhar, fora do foco da luta, buscava algo que lhe tirasse daquele sentimento de desespero, algo que o fizesse voltar a si para pensar em algo, ele novamente vira um vulto atrás de uma árvore, do outro lado de onde Chao massacrava Tsai.

“Hã? De novo?”, disse Schultz, pensando alto, reparando na moita, “Que porra é essa, olha aquilo ali, Li!”, disse Schultz, apontando, mas na hora que Li, que estava completamente focada na forma covarde que Chao empregava contra Tsai, e no embate que os dois estavam travando, não percebeu de primeira quando Schultz a chamou, e quando olhou para onde o alemão apontava era tarde. O vulto havia novamente sumido.

“Para de ficar vendo coisas, Schultz! Não é hora de brincadeiras, eu não vi nada, cacete! Para de se preocupar com isso! A Tsai tá em perigo!”, repreendeu Li, que estava muito tensa vendo aquilo tudo, “Chou, anda logo, vamos acabar com isso! A gente tira a Tsai de lá e você, Schultz, segura o Chao”, disse Li, tomando a frente distribuindo tarefas. Ela viu Chou Dafeng do outro lado, e pensou que ele poderia ser útil de certa forma também: “Dafeng, será que você pode ajudar a separar? Junto do Schultz, tenta segurar o Chao! Ele tá espancando a Tsai, ela vai acabar se machucando muito!!”.

“AHHHHHHHHHH!”, gritou Tsai, e esse momento foi a gota d’água. Chao estava com o punho fechado apertando a ferida nas costas de Tsai, a ferida acima das nádegas, que ela acabou sofrendo ao proteger Schultz no momento do descarrilamento. Ela soltava um grito cheio de desespero, um grito que ecoava por todo o local, algo que ninguém imaginava que Tsai poderia fazer.

Afinal, ela também era humana. E aquele golpe covarde, se aproveitando de um ferimento deixou todos chocados sobre o que aquilo havia se transformado. Chao estava possuído por um demônio interior, avançando contra Tsai com golpes cheios de violência e um vigor fora do normal, querendo transformar aquilo em um homicídio, e não mais numa luta. 

Chou e Li avançaram para ajudar Tsai, enquanto Schultz e Dafeng iam em direção de Chao, mas nessa hora que eles se aproximavam, Tsai olhou nos olhos deles. Apesar da sua expressão de dor, aquele olhar tinha uma energia. Chao continuava a golpear, o vento continuava a soprar, e o mundo continuava a girar. Mas a impressão era que o tempo havia se congelado, parado. Mas aquele olhar, profundo, dizia muito mais do que qualquer palavra pudesse falar. Os membros do pelotão conheciam tão bem sua líder, que sabiam que aquele olhar sempre vinha acompanhado de uma ordem para o pelotão.

E então Tsai fez três gestos com sua mão. Foi tudo bem rápido, e Chou, Li e Dafeng que conheciam o que aqueles três gestos significavam não avançaram mais.

“Ei, por que pararam?”, perguntou Schultz, sem entender o motivo dos três terem parado no meio do caminho, “O que aconteceu?”.

“A Gongzhu... Ela deu uma ordem. Por meio de gestos”, disse Li, atônica.

Schultz havia percebido os gestos, mas não tinha noção do significado daquilo.

“Tá, mas o que ela quis dizer?”, perguntou Schultz, e Chou respondeu:

“Pare. Prepare as armas. Aguarde a ordem”, disse Chou, pausadamente. Embora ela tivesse compreendido perfeitamente os gestos, ela estava confusa sobre o que Tsai tinha em mente. O que iria acontecer ali?

quarta-feira, 11 de abril de 2018

Amber #102 - O rançoso e a petulante (2)

Chao corria a toda velocidade para cima de Tsai, que já estava em posição de defesa, pronta para agir assim que o golpe fosse executado. Aquilo parecia cena de filme de artes marciais, os dois estavam querendo decidir aquilo na base da força, golpes e habilidade de luta. O único porém era que aquela não era uma luta apenas pela competição. Era algo que ia muito além. Era óbvio que o objetivo da Chao era exterminar Tsai, e a derrotar numa luta era muito pouco para alguém que era movido por tanto ódio. Tsai, por outro lado, talvez fosse a pessoa ali que menos queria algum tipo de exibicionismo ou algo do gênero, preferindo até um embate limpo, sem mortos ou feridos.

“Minha nossa, ele parece um touro!”, disse Schultz, assustado, “Droga! Ele vai acertar ela!”.

Mas apesar de parecer mais frágil, Tsai tinha uma força tremenda. Ela conseguiu segurar o punho de Chao, e então os dois começaram a trocar socos e chutes, ambos se defendendo e atacando, uma luta que parecia sincronizada, algo realmente bonito de se ver, como uma espécie de balé.

“Correu tanto, correu como um louco, mas no final ela precisou de apenas uma mão pra parar essa anta”, disse Huang, descendo do lugar de onde estava, em cima do vagão descarrilhado, de olho na luta que se desenrolava na sua frente, “Alguém tem dúvidas ainda de quem vai ganhar essa briga? Teria sido mais emocionante ter ido ver uma briga num boteco, e apostar no menos bêbado”.

Schultz e Chou ficaram encarando Huang, que nem sequer virou pra eles, mantendo seus olhos na luta que acontecia ali. Ele falava como se estivesse entediado com aquilo tudo, e até com um ar esnobe na sua fala, apesar de não tirar os olhos dos dois. Sua feição mostrava um interesse imenso no embate, enquanto sua fala mostrava estar sentindo um tédio absurdo vendo aquilo. Era paradoxal.

“Rápida e precisa como na época de Whampoa, Tsai!”, disse Chao, e bem logo depois de falar, levou um golpe no rosto de Tsai, ainda assim ele prosseguiu: “Mas eu disse, agora vai ser diferente, sua vagabunda!”.

“Vagabunda?”, disse Chou, ao ouvir o xingamento, vendo Chao desferindo uma sequência de chutes, que Tsai defendia sem problemas, “Um homem vagabundo é um desocupado, que não quer nada com nada. Mas uma mulher vagabunda é sinônimo de prostituta”, disse Chou, enquanto observa Tsai, que e depois de defender sem problemas dos chutes de Chao, Tsai desferiu um ataque implacável, desestabilizando completamente Chao, antes de Chou prosseguir na sua fala: “Ofensas contra mulheres são tão sem criatividade! Só sabem atacar sexualidade, que coisa original, não?”, ironizou.

Mas Tsai, apesar da provocação, tinha sua expressão calma, como se aquilo fosse fácil. Ela não esboçava prepotência, ou raiva. Parecia até que nem tinha ouvido. Aquilo tudo parecia natural, como se ela soubesse que vencer já era algo que já estava definido. Mas Schultz, que não tinha conhecimento de artes marciais, olhava pra todos aqueles movimentos rápidos sem entender muita coisa. Ele não tinha a mínima noção do que acontecia ali, e já estava ficando apreensivo.

“Eu não acredito. Isso só pode ser brincadeira!”, disse Schultz, temendo por Tsai, “A Tsai tá lutando na nossa frente contra um homem, e olha só como a coisa tá feia! Os dois estão trocando socos e pontapés igual dois loucos!”, disse Schultz, tentando raciocinar no meio daquela loucura que era tão nova para ele, “Não acredito é que vocês não vão fazer nada vendo o que está acontecendo com a Tsai!!”.

“Calma, Schultz! Da onde você tirou que a coisa tá ruim?”, perguntou Eunmi, se aproximando do alemão.

“Eunmi, olha só a quantidade de golpes que os dois tão dando um no outro! Só eu que estou vendo isso aqui?”, perguntou Schultz, sem acreditar no que Eunmi perguntava.

Eunmi ficou por um tempo com o olhar pousado em Schultz, pensando. Olhou para a luta, e depois voltou para o olhar de incredulidade de Schultz. Então ela entendeu o que se passava na cabeça do seu amigo.

“Ah, acho que você talvez não esteja entendendo muito do que se passa, não é mesmo?”, disse Eunmi, num tom mais paciente. Ela se aproximou de Schultz e virou ele em direção de Chao e Tsai, que continuavam a se degladiar, “Você não deve ter o olhar treinado para artes marciais, mas preste mais atenção nos golpes de Chao. Eles acertam a Gongzhu, mas repara bem aonde eles acertam”.

E então Schultz ficou apenas de olho em Chao. Um golpe acertava o braço, o outro ela defendia erguendo a perna, o terceiro ela desviava. E assim os golpes iam acertando pontos de defesa de Tsai, isso quando acertavam, já que Chao errava vários golpes, dado à sua euforia. Os golpes eram baseados em artes marciais chinesas, eram bem rápidos e bonitos de ver, não era uma briga de bar na Europa onde davam apenas um ou dois socos e uma das pessoas caíam.

“I-incrível”, disse Schultz quando reparou, “Ela consegue se defender de todos!”.

“Isso. Agora presta atenção no Chao. Eu não entendendo é como ele ainda está de pé, isso sim!”, disse Eunmi, e nesse momento Schultz começou a reparar em Chao.

O chinês raramente conseguia se defender. Schultz via um golpe atrás do outro, acertando seu gosto, seu abdome, sua cintura. O nariz do chinês já estava sangrando, e volta e meia ele cuspia sangue no chão, especialmente depois de um golpe que Tsai desferia. Era mais do que óbvio que aquela luta era desigual. E era questão de tempo para Chao sucumbir para Tsai.

A Gongzhu não tinha problema em seu adversário ser homem. Poderia ser quem fosse. Schultz então se lembrou dos momentos em que ela o abraçou. Era incrível a força que ela tinha, era possível sentir isso quando seu corpo se encostava no dela. Por fora, ela era apenas mais uma chinesa magrela. Mas quando ela encostou nele, era como se o corpo inteiro fosse compacto, rígido, bem torneado, sem nenhum centímetro de fibra muscular excedente. Em um linguajar mais popular, Tsai era toda “durinha”. Ela era mulher, mas era uma mulher que havia escolhido ser forte. Porém o poder de Tsai não era uma força que vinha de músculos, aptidão física ou talento para artes marciais apenas. A força incrível de Tsai vinha de dentro, vinha de dentro da sua alma. E essa força de dentro, aliada com o corpo que, embora parecesse superficialmente “fraca” devido a ausência de volume muscular, escondia energia e eficiência em combate que ia muito além da simples aparência.

Tsai então acertou um golpe bem no queixo de Chao, e ele foi jogado para trás, caindo no chão gemendo.

Schultz estava sem acreditar, enquanto os membros do pelotão do Pássaro Vermelho estavam com um sorriso de orelha a orelha, como se a confiança de Tsai nunca houvesse sido abalada antes.

“Maldita! Sua maldita!! Puta desgraçada!”, disse Chao, cuspindo sangue, se rastejando no chão para longe de Tsai, enquanto ela se aproximava a passos calmos, “Isso não pode ser! Isso tudo é uma mentira!! Como isso pode ser possível? Uma mulher me derrotar, de novo?”.

Schultz estava embasbacado. Ele não conseguia dizer nada. Aquilo havia sido muito além do que ele esperava que fosse. Não conseguia tirar os olhos de Tsai, não conseguia deixar de admirar ela ainda mais e mais. Fitava ela com um sentimento incrível de adoração, e quase não notou uma moita, do lado oposto de onde ela estava, estava balançando.

Quando pousou seus olhos na moita, atraído pelo movimento, viu o que pareceu ser um vulto, se escondendo.

“Hã? Ei, Li, você viu aquilo ali atrás da Tsai?”, perguntou Schultz, assustado.

“Atrás dela? Aonde?”, perguntou Li.

“Ali, naquele mato! Parecia ser alguém”.

“Não vi nada Schultz. Talvez seja um macaquinho, ou algo do gênero”, respondeu Li.

O alemão se acalmou e voltou seu olhar para o embate. Parecia que aquele momento seria enfim decretada a derrota de Chao.

“Eu disse que não queria essa luta, Chao, mas infelizmente você veio disposto a não sair daqui enquanto sangue não fosse derramado. Espero sinceramente que você sinta esse gosto ferroso do sangue na sua boca e memorize bem essa dor imprimida em seu corpo”, disse Tsai, calmamente, como se tentasse ensinar uma dura lição de uma forma menos dolorida, “E na próxima vez recobre essas lembranças feitas hoje, para evitar ter que senti-las novamente. É só isso que eu peço, pelo seu bem”.

sexta-feira, 23 de março de 2018

Amber #101 - O rançoso e a petulante (1)

“Escuta Tsai, ainda te chamam daquilo? Do que era mesmo? Gongzhu?”, perguntou Chao, fingindo que havia esquecido da alcunha de Tsai.

“Você sabe muito bem do que me chamam. Foi em Whampoa que começaram a me chamar assim”, disse Tsai, um pouco tensa, “E se você quer saber, sim, me chamam de Gongzhu até hoje”.

Então Tsai percebeu que muitos oficiais do esquadrão de Chao apareciam um após o outro, como se atendessem ao chamado do líder da matilha. Eram apenas homens, e passavam de trinta pessoas. Tsai reconhecia alguns de vista, mas não imaginava que os principais estavam por ali.

“Vi você falando com o Chou”, disse Chao, depois se consertando: “Ou melhor, o Chou Dafeng. Sabe, espero que não tenha ressentimentos. Especialmente sobre o Huang ali. Você sabe que eu devolveria ele pra você assim que o encontrasse”.

Tsai olhou para Dafeng nesse momento, que ao olhar para Tsai parecia ter uma expressão triste, até um pouco nostálgica. Uma saudade expressada em um olhar tímido e calado.

“Você poderia era liberar o Dafeng para que ele voltasse para o lugar que ele nunca devia ter saído, isso sim”, disse Tsai, provocando Chao, “É mais do que óbvio que ele não é nem um pouco feliz com você e seu time, Chao”.

Ao ouvir isso, Chao ficou irritado. Era possível ver no tom das suas palavras que ele estava se segurando para não explodir.

“Nada disso, Tsai. Nada disso! Você sabe que Chou Dafeng é um dos nossos melhores soldados. E eu jamais daria assim de bandeja”, disse Chao, impondo sua liderança, “O que você poderia fazer era trocar o Huang por ele. O Huang é muito mais livre, leve e solto no nosso lado. Agora você ficar com os dois, isso está fora de cogitação”.

Um silêncio se instaurou no local. Parecia uma cena que prescindia um duelo, duas pessoas conversando, postos a uma distância, enquanto todos ao redor ouviam tudo o que falavam ali, ficando em silêncio. Schultz se aproximou de Li, pois ele tinha várias dúvidas na cabeça. O silêncio entre os dois era preocupante, então achou que era melhor falar baixinho, de forma que apenas os dois se ouvissem.

“Ei, Li! Psiu!”, chamou Schultz, gesticulando para Li, que se aproximou, “Quem é o poderoso aí?”.

“É o Chao. Ele estudou na Academia de Whampoa junto com a Gongzhu. Ambos foram alunos de destaque do Chiang Kai-shek. Mas ele é um puta dum cuzão, ele nunca conseguia chegar aos pés da Gongzhu, sempre tentava ser melhor que ela, mas a verdade é que ele nunca conseguiu. A Gongzhu tem que sempre ter uma paciência milenar quando encontra com ele, ele é muito ignorante”, disse Li.

“Uau. Então ele deve ser bom”, disse Schultz, mas antes que Li respondesse, ele perguntou outra coisa: “E esse rolo aí com o Huang e aquele chinês fortão?”.

“O Dafeng? Ele foi treinado pela Gongzhu, e fez parte do nosso pelotão um bom tempo! Ele é amigo de todos nós, e a Gongzhu tem muito carinho por ele, afinal ele sempre foi um aprendiz de destaque!”, explicou Li, falando de maneira empolgada do amigo de longa data, “Mas o Generalíssimo pediu para que o Dafeng fosse transferido para o pelotão do Chao, e por lá ele ficou. Sinceramente é uma estória muito mal contada, mas dá pra ver como ele se sente bem com a gente, como ele sente falta, e como ele fica feliz quando vê a Gongzhu. Chou Dafeng é muito querido por nós”.

Tsai então quebrou o silêncio. Estava farta daquilo:

“Chega desse showzinho. Esse trem está cheio de feridos, preciso ajudar essas pessoas”.

E quando Tsai foi em direção do trem, todos se viraram junto com ela. Segundos mais tarde todos ali tomaram um susto imenso quando ouviram um tiro sendo disparado. Ao virar, Tsai percebera que fora Chao quem disparara para cima, para chamar a atenção.

“Tsai, pelo amor de deus, não é todo dia que nos vemos! Acho que tem vários meses desde o nosso último encontro. Não dá pra desperdiçamos esse encontro auspicioso!”, disse Chao, com cada palavra carregada de cinismo.

“Eu sinto muito, Chao, mas estou ocupada. Obrigada mais uma vez por ter salvado e trazido o Huang, mas precisamos ir para Pequim”, disse Tsai, chamando todos os membros do seu pelotão. Ho parecia melhor, já estava inclusive em pé, mas andando com dificuldades, “Por culpa sua, todos nós estamos feridos e assustados”.

Nessa hora Schultz, que estava próximo, ao olhar para a bunda de Tsai, vira uma mancha escura no macacão verde escuro dela. Uma mancha na altura da cintura, na parte das costas. O alemão nesse momento ficou abismado com o controle mental de Tsai. Aquilo era obviamente sangue! E Tsai estava andando como se nada tivesse acontecido, embora ele imaginasse o tamanho da dor que ela devia estar sentido.

Não acredito. Esse ferimento, só pode ter sido naquela hora que o trem descarrilhou e ela se agarrou em mim para me salvar! Isso sem contar os diversos hematomas que ela deve ter pelas pancadas no corpo! Mas que merda... Eu só dou trabalho nessa joça. Ela está me protegendo, e nem ao menos para pra descansar ou se recuperar, mesmo ferida!, pensou Schultz, preocupado e admirado com Tsai.

“E se eu não quiser que você vá embora, Tsai?”, gritou Chao, e quando Tsai se virou, ele apontava sua arma para ela, “E se eu quiser uma revanche?”.

“Revanche? Agora? Aqui? Você nunca ganhou de mim, Chao. E não vão ser uns meses sem me ver que vai mudar alguma coisa. Não seja um rançoso”, disse Tsai, de maneira segura. Suas palavras não pareciam ter nenhuma prepotência. Parecia querer evitar uma luta desnecessária, “Agora vai, abaixa essa arma. Vamos gente, vamos embora!”.

Li, Chou, Schultz se juntaram à Tsai para irem embora. Parecia que a líder, embora não visse, sentia como se houvesse uma nuvem negra em cima de Chao. Quando Schultz virou seu rosto e olhou para o rival de Tsai, vira que ele estava com rangendo os dentes, e com um olhar de profunda raiva. Parecia um touro enfurecido, prestes a avançar contra Tsai.

“Rançoso? Eu? Rançoso?”, gritou Chao, e Tsai parou, embora não tivesse virado o rosto para ele, “E você, Tsai? A menina dos olhos do generalíssimo! A única mulher que se formou sob sua tutela, que assumiu o lendário pelotão do Pássaro Vermelho! Pra mim não passa de uma mimada! Uma garotinha indefesa que só chegou aí dando uma de pobre coitada!”, e a cada grito, Chao parecia mais e mais ameaçador: “A menina que era tratada com carinho pelo generalíssimo, apenas pelo fato de ser mulher! Você se acha muito, sua petulante!!”

“Gongzhu...”, disse Li, pronta para defender a sua líder, mas nesse momento Tsai se virou e encarou Chao.

Chao simplesmente parou. Seu objetivo era abalar psicologicamente Tsai, mas ao ver a expressão do rosto de Tsai, a raiva que ele pensava que ela expressaria não estava lá. Muito pelo contrário. Tsai estava com um rosto lúcido, calmo, tranquilo. Ela parecia que ouvia aquelas críticas e as aceitava, por mais dolorosas que parecessem.

“Quer saber, acho que é bem verdade isso, Chao. Talvez eu seja mesmo uma menina queridinha, que sempre foi apoiada pelo generalíssimo. Eu não vou tirar a razão do que você diz”, disse Tsai, calmamente, e Chou e Li nessa hora ficaram chocadas com o que Tsai dizia. Elas sabiam que nunca Tsai fora tratada diferente por ser mulher, muito pelo contrário. Ela passava por treinamentos mais rígidos do que qualquer homem sonharia em fazer. A Gongzhu prosseguiu: “Quem sou eu pra me achar? Eu sinto que sou petulante sim, preciso melhorar esse meu lado, e obrigada por ser sincero comigo. Acho que o maior problema da vida sempre foi termos certezas. Ter certeza de alguma coisa é o maior tiro do pé que uma pessoa pode dar”.

“Ter certeza de alguma coisa? Mas você tem que estar seguro do que você é capaz, Tsai! Se você não for segura no que faz, quem será?”, disse Chao, debochando, “Conversa fiada!”.

“Não é, eu não acho isso. Pois quando se tem certeza que você é o melhor em algo, você simplesmente não cresce mais. E eu quero sempre crescer. Quero sempre melhorar. Isso é o que me move para frente”, disse Tsai, tirando seu coldre e suas armas, entregando para Li, “Por isso mesmo eu aceito o seu desafio. Vamos lá”.

“Aceita?”, perguntaram Schultz e Chao, quase que falando juntos.

“Gongzhu, larga disso! Você não é nem um pouco petulante, você é a pessoa mais humilde que existe no planeta! Não cai nessa conversa!”, disse Chou, tentando convencer sua amiga.

Huang apenas observava de longe Tsai, com um olhar sério. Schultz, Li, e os outros estavam muito tensos com o que poderia acontecer ali, e, especialmente, preocupados com Tsai.

“Isso é verdade, Gongzhu! Mesmo sendo mulher você treinava até além das capacidades do que um homem poderia suportar! Você não era a melhor por piedade dos superiores. Você provou ser a melhor!”, disse Li, não aguentando ficar quieta depois de ouvir aquilo, mas tudo o que ela e Chou receberam foi um sorriso tímido de Tsai, como se dissesse “obrigada pelo carinho”.

“Eu sinto muito se eu passei a ideia de ser petulante. Como eu disse, é um aspecto que preciso melhorar em mim mesma. Por isso mesmo, vamos fazer como você quer. Pelos velhos tempos”, disse Tsai, “Como no tempo que treinávamos em Whampoa”.

E então, Chao correu para cima dela com o punho cerrado. Era hora da batalha.

“Você vai se arrepender, Tsai!! Eu não sou o mais o mesmo de antes!!”, gritou Chao, antes de desferir o primeiro golpe na Gongzhu.

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