segunda-feira, 19 de agosto de 2019

A canção que toca nosso coração.


Se imagine no meio de mundo portando apenas uma garrafa vazia. Ao encontrar com uma pessoa, ela despeja dentro dessa garrafa todo seu conteúdo, e quando você a bebe, diferentes sensações dominam o seu corpo. Existem pessoas que encherão sua garrafa com um doce líquido com aroma de algodão doce. Outras, colocarão algo salgado como água do mar, e ainda haverão aquelas pessoas que não aceitam trocar de líquido, querem apenas provar o nosso, nos sugando sem o menor senso de compartilhar.

O problema meus caros, é quando aparece alguém que preencherá sua garrafa não apenas com algo apenas doce ou apenas amargo. Mas sim a pessoa que preencherá algo que te faça se sentir completo.

Esse néctar que começa com uma doçura inigualável, se torna uma felicidade inatingível, e deixa um leve aroma de se sentir completo. Pode eventualmente haver outras sensações também, como tristeza, ou raiva, mas mesmo esses sabores não parecem desagradáveis quando provávamos eles separadamente. Tudo porque o que colocaram em nossa garrafa é algo que nos completa em todos os sentidos. E encontrar alguém que saiba a dose exata de todas as emoções que nos são necessárias é a missão de nossas vidas. Afinal, cada pessoa tem uma necessidade diferente, e para cada pessoa no mundo existe alguém perfeito o suficiente que tenha todos os sabores na dose certa.

Todavia, a sensação de que inexplicavelmente estamos completos dá uma impressão dúbia em nossa alma.

Primeiro é uma felicidade sem fim quando estamos com essa pessoa. Não temos vergonha de ser nós mesmos, não existem máscaras ou faixadas. Mas o pior de tudo é a estranha sensação de que essa pessoa se encaixa tão bem a nós que até o mais nublado dos dias ganha cores, a maior vai-e-vem da multidão em um lugar indo de um lado pro outro parece um suave caminhar de meia dúzia, e que o vento gelado de uma noite de inverno no meio de uma cidade parece uma doce brisa fresca de primavera.

Nesse momento que você encontrar essa pessoa, tudo o que você vai saber fazer é sorrir. Eu sinto ter que dizer isso. Pois não é como a sensação de encontrar um bom amigo e dar risadas. Ou também não é a sensação de encontrar aquele parente pentelho que sempre gosta de te colocar pra baixo. Tudo isso passa logo depois de se despedir.

Encontrar essa pessoa que te preencha é como viver uma vida em seis horas. É como acompanhar ela nas compras e participar, sugerindo e a protegendo. É como parar em um local que estão cantando uma música incrível e ficar lá, de braços dados com ela como se o tempo parasse e nada lá fora no mundo importasse. É como conhecer detalhes da vida dessa pessoa que parecem se encaixar perfeitamente na sua, onde até mesmo as manias mais estranhas parecem algo trivial, mas de alguma forma inexplicável para nós humanos, não nos surpreende.

E olhar nos olhos dessa pessoa e memorizar cada tom de sua pele, a cor exata dos dentes quando sorri, a posição de cada fio de cabelo, de uma forma tão forte que se você fechar os olhos e imaginar essa pessoa na sua frente você consegue vê-la perfeitamente. E então você vai sorrir. E um turbilhão de memórias vai aparecer em sua mente.

Você vai se lembrar da emoção que sentiu quando soube que se encontrariam. Vai se lembrar de quando olhou no espelho com as duas mãos na cabeça repetindo para si mesmo que não conseguia acreditar naquilo. A sensação de calafrio que não passava, a palpitação desajeitada do seu coração, o vento gelado que pairava sobre seu estômago, e também a insônia. Tiraria o celular do modo silencioso que você deixava para dormir, não sabendo se deveria esperar por algo ou não. Vai ver o programa que passa na tevê às 22h. E também o das 23h, da meia-noite, das 01h e até o que passa depois das 02h.

Até que você adormece, e desperta ás quatro da manhã com uma mensagem inusitada. E o sono tão difícil de pegar fica difícil de voltar da onde parou. Mas você dorme. E desperta às oito da manhã com outra mensagem que preenche seu coração por completo:

Ela está aqui!

Mas por mais que tudo na sua frente mostre que aquilo não é um sonho, algo na sua cabeça não te deixa acreditar. E então você se arruma, deixa tudo certo para a hora marcada, e vai ao encontro dela. Ela perde a estação, e você vai entrar em desespero. Pedirá para ela descer e aguardar onde está. Mas na hora que as portas do metrô se abrirem, você a verá por detrás daquele monte de gente. Vai pedindo licença os outros passageiros e vê que, por obra do destino, até a porta que você escolheu entre tantos vagões do trem, a levou de frente para ela.

E quando você a ver, terá a certeza que tudo aquilo era verdade mesmo. Que ela está mesmo ali, em carne e osso. E sorriso. E cheiro. E o calor do abraço. E o gostoso som de suas risadas. E o colírio revigorante da doce visão dela que é absorvida pelos seus olhos. Mesmo eventualmente no momento que você a viu aparecesse uma senhora perdida, pedindo por ajuda, e vocês dois tivessem que ajudá-la a achar o caminho até o ônibus que a levará para o Iguaçu.

Ao mostrar a catedral da cidade, ela vai se impressionar com sua altura, seus vitrais e sua imensidão sem fim. E quando entrar dentro dela, você vai comentar como um bobo que deve haver uma vassoura muito grande para limpar as teias de aranha no topo daquelas pilastras. Como não há missa, vamos ver os vitrais, as pilastras, comentar algo sobre o arco ogival, e levar ela para ver o imenso órgão musical atrás do baldaquim da igreja.

Mas então ao sair e tirar umas fotos, ela vai dizer que precisa ir no banheiro. E naquela vontade de querer ajudá-la, você vai se lembrar de um banheiro asseado, perfumado e gratuito que só você sabe que tem ali no centro da cidade. Enquanto a leva, ela vai te contar o que veio fazer naquela visita inesperada na cidade, e ao saber disso você dá pulos de alegria, pois você teve a chance de fazer exatamente a mesma coisa que ela fará anos antes, e sabe o quanto essa experiência vai enriquecê-la também.

Ela sempre está na sua frente, distraída, atravessando as ruas sem prestar atenção aos carros ou aos semáforos. E todas as vezes você vai até ela e a puxa com delicadeza pelo braço. “Calma! O sinal de pedestre está vermelho!”. E ao fazer isso você mal tem a ideia de que será a primeira de quinhentas e quarenta e sete vezes até vocês se despedirem no final do dia.

Ao chegar no banheiro secreto que (até então) só você sabia, vai ver como o ser humano é legal, pois mesmo o lugar estando fechado para visitas, um gentil guarda vai permitir que ela use o toalete. E quando vocês forem cruzar a rua, dessa vez será ela quem pedirá para esperar, mas a rua está fechada e os carros não estão passando. Será a primeira vez de muitas que suas mãos se entrelaçarão, mesmo que por um brevíssimo momento, e se soltarão logo depois.

Nesse momento você vai sentir que aquilo é realmente verdade. E que talvez todos os livros que você estudou, todas as aulas que você teve, todos os documentários, toda aquela informação turística interessante sobre os pontos que vocês passam vão simplesmente sumir da sua cabeça. Por mais que você tente falar, apenas cinco por cento de tudo sai, e com muito custo, pois seu coração está a mil e você não consegue se concentrar ao lado dela. Pois tudo o que você quer é olhar para ela, é rir com ela, é caminhar ao seu lado e ouvir sua doce voz.

E na famosa rua do comércio, vocês viverão em uma hora ou duas a rotina de um casal. Ela vai passar em cada loja e verificar os preços, comprar uma ou outra coisa aqui e ali. Ela vai te perguntar se o colar combina, e você vai estranhar o tamanho, pois parece pequeno. “Homens, todos iguais!”, ela vai brincar te tirando sarro. Com fome, vai comprar um croissant de um quiosque no meio de uma galeria, e quando ela ver um brigadeiro cor-de-rosa e te perguntar o que era aquilo, você não vai acreditar que ela não conhece aquilo, e que menos ainda saiba que se chama “bicho-de-pé”.

Conhecerá coisas dela que nunca conseguiu conversar com ela online. Como um gosto por meias que você nem tinha noção que ela tinha. Ou então que ela já teve uma fase “gótica leve” na adolescência assim como você. Ela vai pechinchar aqui e ali. Passaremos na dona que demonstra o massageador na rua para que ela faça do nosso lado direito, andaremos cinco lojas e voltaremos para que ela faça do lado esquerdo, que ela não tinha feito. E mesmo que aquele lugar estivesse a bagunça de sempre, com pessoas indo de um lado para o outro, tudo parece colorido, pois ela está lá, e de verdade!

Ao subirem de volta, você se lembrará do mosteiro que fica ali perto. Dizem que ensinam teologia lá, e você até se interessa, e ela sem hesitar dirá: “Por que não estuda lá?”. Seria uma boa mesmo! A missa está acontecendo, e ela, abismada com toda aquela imensidão de cores, formas e arte, ficará extasiada ao ouvir um lindo e afinado canto dos monges. Vocês darão os braços e caminharam pela nave da igreja para se aproximar do altar, enquanto você no ouvido dela vai falando sobre todos os elementos dali — mas ela continua extasiada ao ouvir aquele canto gregoriano tão bonito. É verdade que você parou muitas vezes enquanto andava no centro da cidade para apreciar aquilo, mas aquela vez foi especial. Afinal, era ela quem estava ali do seu lado.

E mesmo que você tenha medo de altura, irá querer levar ela para ver a cidade do ponto mais alto. Ver toda a cidade ao pôr-do-sol, com as luzes começando a brilhar. Tudo seria perfeito se não fosse pelo fato de ser uma segunda-feira e estivesse fechado.

Vocês andam mais um pouco naquele dia frio, onde o vento gélido passa por você, mas você não sente frio. Você até a empresta seu cachecol para ela, o mesmo que sua mãe passou semanas tricotando, mesmo ela estando com várias blusas. Conversarão sobre a vida, sobre a cidade, sobre tudo. O tempo poderia estar bem feio, nublado, mas aquele sentimento que palpita em seu peito faz com que você sinta um calor aconchegante dentro de si. E percebe que embora a vida te mostre muitas canções, não escolhemos a melhor, e sim a que toca nossos corações. E ela vai tocar seu coração de tal maneira que os sorrisos se tornarão gargalhadas, as birras se tornarão afeto, e os abraços aquecerão mais do que qualquer outra coisa.

E numa última loja que vocês entrarão, dessas que vendem artigos importados baratinhos, vocês ficarão lá até a hora que ela estiver fechando. Mesmo com um medo sem sentido de ficar trancado dentro da loja, ela vai te acolher, vai dizer para você ficar calmo, e estranhamente aquilo vai entrar nos seus ouvidos e vai realmente te acalmar. As portas estarão se fechando, mas ela transformará seu medo de ficar trancado numa loja em vantagem: “Se me trancassem num shopping, eu iria até uma loja de móveis e passaria a noite inteira dormindo na cama mais confortável e cara deles!”.

Uau, até seus medos ela te ajuda a superar.

E o convite para “tomar uma xícara de café” se realizará num shopping a alguns metros dali. E vocês, esgotados, ficarão lá, conversando sobre o quanto seus olhos são puxadinhos, enquanto do outro lado você fica tentando não ficar hipnotizado por aquele par de olhos pretos da morena. Olhos que parecem te puxar de encontro a ela, olhos que você parece conseguir desenhar apenas puxando pela memória. Olhos que te custaram a manter a atenção no meio de tanta beleza. Olhos que refletiam a pureza de suas almas de uma maneira que nunca havia sentido até então.

E nesse encontro de olhares você a confessa: “Eu não sabia que você iria vir, mas desde que eu soube que você viria, eu prometi para mim mesmo que eu iria aproveitar cada segundo de você aqui, afinal, eu não sei quando teremos uma próxima vez!”.

E depois de um rápido passeio pelo shopping, você vai ver que são quase nove da noite e o tempo de vocês está acabando. Ela busca por um tênis, um banheiro e depois escadas rolantes, nessa ordem. E na volta para o metrô você a abraça do lado apertado e pergunta: “Por que a gente tem que morar tão longe um do outro?”. Mas tudo o que começa tem um fim. Vocês embarcarão no metrô e a deixará na estação dela.

E naquele momento que ela se ergue para descer na estação dela, ela te dá um abraço e segue até a porta. E você a vê de costas, ali, prestes a desembarcar. E entre todas as coisas que se passa pela sua cabeça, você percebe que a distância até ela naquele momento era de no máximo um metro, ou um metro e meio. E não os dois mil oitocentos e noventa e três quilômetros que os separam. É incrível a sensação de felicidade, de se estar em cima do monte Everest, e depois subitamente ter que descer dele depois atingir o cume. Sentimos uma felicidade sem fim e o prenúncio de uma tristeza arrebatadora.

Enquanto eu a olhava ali, com uma tristeza pulsante em minha alma, ela se virou. E provavelmente viu a minha cara. Com ternura, ela dirá: “Oh, não fique assim!”, e ela veio antes da porta se fechar me deu um último apertado abraço, se virou e foi, sem nem voltar para trás.

O resto daquela viagem voltei cabisbaixo. Eu não tinha expressão. Nunca havia sentido algo como aquilo. Parecia que eu tinha perdido um braço, uma perna. Ou quem sabe um coração. Momentos atrás eu estava radiante, estava sentindo uma felicidade que só me fazia ver tudo com os olhos arregalados. Mas agora eu me sentia alguém que havia perdido algo que era muito estimado. Uma sensação de estar completo como nunca havia sentido antes com qualquer outra garota, e agora tinha ido. Eu estava sentindo falta de algo que até aquele momento eu nunca havia experimentado, mas sabia que era tudo o que havia buscado.

Quando cheguei em casa senti o cheiro do cachecol. Tinha o cheiro dela. Demorei para dormir.

E quando acordei na manhã seguinte, acordei chorando. Tudo me fazia chorar. Enquanto tomava banho para sair, chorava desenfreadamente. Minha mãe até me perguntou o que havia acontecido, mas eu apenas comentei que devia ter o tempo seco, ou algo do gênero. No ponto de ônibus eu chorava, no ônibus eu chorava. Meu medo era encontrá-la no lugar onde estava indo e eu estragar tudo, chorando de novo.

Porém o destino reservou uma última surpresa. Dizem que o que está no nosso destino, o que se está para acontecer, não tem como mudar. Todos os acontecimentos, atrasos, coisas inesperadas, ou que saíram do nosso controle, nos levarão inevitavelmente ao que nos é prometido. Pois naquele dia eu peguei um trânsito imenso para ir, mesmo saindo até antes do horário. Tinha uma chance de poder dar um último adeus, mas quanto mais eu via no relógio, mais eu via que talvez nem a chance de dar um “tchau” eu teria.

Eis que ao cruzar a esquina, vejo o portão do local que eu visitaria se abrindo. E ela saindo de lá, indo almoçar. “Minha nossa, não acredito, você chegou aqui? Eu vou almoçar! Vamos comigo?”, ela disse.

Se eu tivesse chegado dez segundos antes ou depois nós não teríamos nos encontrado.

E tivemos nosso último almoço juntos. Eu como pouco, mas ela fez um prato digno de pedreiro. Me contou as boas novas, que o que ela veio fazer na cidade havia dado certo, e tudo estava bem de novo. Ela estava lá. Não resisti e pedi para tirar uma última foto juntos. E então a deixei no táxi que a levou até o aeroporto.

O resto do dia eu passei chorando o dia inteiro. Eu nunca consegui chorar por mulher alguma, por mais que meu coração tivesse sido partido inúmeras vezes. Nunca senti que mulher alguma merecia minhas lágrimas, embora eu saiba que chorar muitas vezes é uma forma de desabafo. Mas entre todos os cupcakes que provamos na vida, eu havia provado aquele que tinha o sabor perfeito para mim. Não aconteceu nenhum beijo, ou nada além disso. Houve algo muito mais profundo. O que aconteceu foi uma conexão de duas almas em um nível que eu nunca tinha sentido antes, um nível que nunca havia me completado daquela maneira, e encarar a realidade de que seria muito difícil ter novamente tal sensação, machucava meu coração e transbordava uma tristeza incontrolável que só me fazia querer chorar e chorar.

Eu não sei o que vai acontecer com nossas vidas. A distância é grande, e assim como existem caras bonitos lá, aqui também existem mulheres muito atraentes. Mas será que alguma vai me fazer sentir algo parecido com isso? Ou será que algo vai acontecer para que nós fiquemos juntos? Isso tudo é uma grande incógnita.

Mas quero guardar essa lembrança desse dia encantador. Desse dia onde tudo o de feio no mundo se tornou o que havia de mais belo. Desse dia que eu me senti completo. Desse dia que eu senti alguém que eu não precisava ter vergonha de ser eu mesmo. Desse dia que tiraram sarro do meu hábito de puxar o “r” (que quanto mais tenso, mais eu acabo puxando). E acima de tudo agradecer por ter vivido isso tudo.

Como uma calmaria que os deuses nos dão, no meio do mar agitado dos incontáveis desafios da nossa vida.

domingo, 24 de março de 2019

Canta-me, ó moira, sobre o fio que me levou até ela (#1)

Crianças, essa NÃO é a história de como eu conheci sua mãe. Mas uma de muitas histórias que mostram que a vida é composta por fios que se entrelaçam, e mesmo que esse encontro dure apenas um ponto, e essa linha vá para outro caminho que não seja conosco, ainda assim é intenso o suficiente para deixar uma marca para sempre na nossa vida.

A primeira garota pela qual me apaixonei foi a Luana*, na segunda série. Tínhamos oito anos, ela era baixinha, tinha uma voz meio rouca, tipo a Janis Joplin, era o tipo "caboclinha", uma menina de pele morena e cabelo longo, preto e liso, o tipo que minha mãe sempre quis que eu namorasse. Acho que talvez era porque era parecido com ela, sei lá.

Essa Luana eu lembro que ela vivia fazendo entregas que a professora pedia. Levando diários de classe, papéis na secretaria, ou buscando giz e apagador. Ela sempre ia e voltava correndo, talvez fosse a pessoa que a professora mais confiava para tais serviços. Na época eu lembro que eu assistia muito o desenho Doug, da Nickelodeon (hoje é da Disney). Como eu sempre me via como o Doug Funnie, imaginava a Luana como a Patty Maionese. Era engraçado!

Meu coração sempre batia forte quando a gente conversava. Talvez as pessoas ao lerem pensem: "Ah, mas vocês tinham oito anos!", mas acho que talvez nessa época talvez existisse algo puro, talvez algo que eu sinto que é inerente em mim, algo que faz parte do que eu sou. Essa estranha capacidade de sentir um sentimento inocente de amor quando encontro alguém especial.

Aquele sentimento era algo inédito dentro de mim até então. E se quando somos adultos exista coisas como "saber o quão bom é o beijo da pessoa", ou "o quanto essa pessoa é boa na cama", naquele momento tudo o que eu queria era estar perto dela. Porque aquilo preenchia meu coração, e eu sentia que quando íamos embora eu ficava triste. Mas aí no outro dia nos encontrávamos na escola novamente e meu coração se preenchia de felicidade de novo. Simples.

Acho que essa é uma definição bem prática do que vem a ser o amor, não? Porque depois que nos tornamos adultos tudo fica mais difícil: é o quanto a pessoa ganha, é o quanto a pessoa é bonita, é o quanto a pessoa é boa de sexo, é o quanto a pessoa é de uma família x ou y, é o que a pessoa tem, entre outros diversos fatores.

Ali não havia nada disso. Era tudo bem mais simples, afinal era tudo novo.

Ela só estudou aquele ano comigo. Nos reencontramos algumas vezes anos mais tarde, acho que foi na oitava série que estudamos juntos de novo, não lembro bem ao certo. Mas sei lá, não havia mais aquele sentimento. Talvez as coisas estivessem começando a ficar mais complexas, e eu estivesse apaixonado por outra (ainda chegaremos lá!). A verdade é que na nossa vida tantas pessoas passam, mas nunca será o tempo medido que contará. Pode se passar um dia, uma semana, e ser algo intenso e marcante como uma vida. Ou podemos passar anos com a mesma pessoa parecer ter vivido nada.

Eu lembro que achava a Luana a menina mais linda do planeta. Ela sempre me cumprimentava com um sorriso, era uma pessoa de um astral altíssimo. Elétrica, ligada na 220v. Eu era aquela criança gorda e super tímida, que de tão confuso tentando entender o que se passava dentro do meu coração para bater tão forte por ela, não soube se declarar, contar o que sentia, e eventualmente ver se era correspondido de certa forma. Eu apenas sabia que me sentia bem ao lado dela, bem melhor do que me sentia com qualquer outra garota, e esse sentimento especial preenchia meu coração. Acho que foi a primeira vez que me apaixonei por alguém.

No entanto, marcas são deixadas, e uma vez que essa pessoa deixa nossas vidas, podemos apenas deixar a cargo da imaginação em desenhar o que teria acontecido se tivesse dado certo...

*Uns são nomes reais, outros fictícios. Mas não quero falar aqui sobre identidades ou pessoas, quero falar sobre sentimentos. ;)

sexta-feira, 15 de março de 2019

Livros 2019 #1 - As irmãs Makioka


Vamos fazer uma pausa nas séries e ler uns livros que faz bem pra cabeça. Como sempre estou ali na região da Paulista, bem perto do Sesc Paulista, que possui uma biblioteca, descobri que emprestam livros gratuitamente. Passeando pela modesta biblioteca decidi começar com o livro As irmãs Makioka (細雪; Sasameyuki) escrito em 1944 por Jun'ichiro Tanizaki.

O livro na verdade é uma compilação de três livros, possui quase umas oitocentas páginas. Mas é um livro muito bem escrito, desses que a gente nem sente o tempo passar enquanto lê. Foi traduzido para o português direto do japonês (parabéns para as tradutoras!), e tenho que admitir que foi muito bem feita. Dá pra ver toda a adaptação bacana da linguagem polida japonesa, os termos de época, e as notas dos tradutores explicando os termos em japonês. Eu não tenho nenhuma ascendência asiática, mas como sempre estou a par da cultura oriental, aprecio bastante e percebo quando coisas são bem bem feitas, como a tradução. Vamos dar os créditos pra equipe: Leiko Gotoda, Kanami Hirai, Neide Hissae Nagae e Eliza Atsuko Tashiro. Parabéns, ficou um excelente trabalho!

A história é sobre as quatro irmãs Makioka: Tsuruko, Sachiko, Yukiko e Taeko. De uma família abastada de Osaka, os Makioka, elas perdem os pais, e como únicas herdeiras do nome, vêem a decadência de seu nome dentro da sociedade japonesa, seja pelo esforço de guerra japonês (o romance se passa de 1936 até 1941, e termina um pouquinho antes do ataque a Pearl Harbor), ou pela pobreza mesmo, pois dinheiro não dura pra sempre. Cada uma delas tem um perfil, e o autor ao longo da história as desenvolve muito bem. É o tipo de livro que quando a gente termina, a gente se sente como se fizesse parte daquela família, passando por todos os perrengues, felicidades, anseios e brigas.

Tsuruko é a mais velha. Casada com o Tatsuo, que pegou o sobrenome da mulher pois como só haviam mulheres Makioka na família, existe uma tradição no Japão que nesse caso o homem pega o sobrenome da mulher para que o sobrenome não "morra" por terem nascido apenas mulheres na geração (no Japão, apenas o sobrenome do homem passa para os filhos, inclusive a esposa deixa de ter o sobrenome dela). Ela é a esposa ideal, teve muitos filhos, vive na "casa principal" dos Makioka, leva uma vida confortável, mas é muito preocupada e ás vezes até paranóica. Apesar de ser admirada, na verdade ela tem uma mente muito insegura, e nunca sabe direito fazer as coisas.

Sachiko é a segunda, e é casada com o Teinosuke. Ela tem uma filha pequena, a Etsuko, que é muitas vezes o alívio cômico do romance, com suas peraltices. Ela é talvez a "protagonista", por ter um leve destaque em relação às outras irmãs, muito porque como a irmã mais velha vive a vida dela, sobra pra Sachiko apagar todos os incêndios e problemas com as irmãs mais novas. Muitas vezes a história é contada do ponto de vista dela, então acho que ela é meio protagonista.

Yukiko pode não ser tão protagonista como Sachiko, mas ela é a "irmã coringa" que transita no meio de todas. Yukiko é uma solteirona de trinta anos (o que na época era tipo, inaceitável. Hoje ainda é um pouco... hahaha) e talvez por conta de sua falta de atitude, e de sempre estar disponível para as irmãs, é a única que não consegue um casamento. Conhece pessoas, recebe propostas de miai (casamento arranjado) vive com problemas de beribéri (falta de vitamina B no corpo), mas nunca nada dá certo. Quando conhece um cara legal, a família descobre um podre dele e cancela. Quando acham um cara com um perfil íntegro, Yukiko não vai com a cara dele. Sem contar que ela vive ajudando as irmãs, cuidando da Etsuko (filha da Sachiko) ou ajudando a irmã Tsuruko na casa dela. Ela sofre muito por não conseguir um casamento, e o livro inteiro é mostrando essa trajetória de idas e vindas do amor dela.

Taeko, a caçula, é constantemente chamada de Koisan, que no dialeto de Osaka é uma forma carinhosa de chamar a irmã caçula. Taeko é a rebelde, veste roupas ocidentais, quer trabalhar e fazer sua vida, mas para a época uma mulher do nome Makioka trabalhar era algo impensável, pois elas tinham que manter seu nível social, casar com alguém de posses, e a coitada da Taeko sofre um bocado por não conseguir poder fazer suas escolhas. Isso sem contar que ela até tem pessoas interessadas para casamento, mas como ela é a caçula, ela acha que seria indelicada passar na frente da irmã Yukiko, mais velha que ela, e se casar antes.

Existem outros personagens na trama, mas se eu ficar entrando em detalhes o post vai virar uma bíblia. Mas em suma o livro é muito bom, e Kanizaki é um autor extremamente talentoso. Uma narrativa gostosa e envolvente, sabendo focar tanto no interno quanto no externo, mesmo que não tenha uma profundidade tão grande dentro da alma feminina. Mas os acontecimentos, e as atitudes que são desenhadas pelo autor são bem interessantes de ver como são discorridas.

Parece que o autor se baseou na família uma de suas esposas para escrever o livro, e pelo que está escrito também parece que sofreu censura na época da guerra. Acho que foi muito porque como o Japão estava em guerra, tinha muito racionamento, e o governo dizia para abrir mão dos luxos, etc, e como o livro trata da vida de uma família da alta sociedade, seria eventualmente alvo de censura na época do Japão Imperial. Todo mundo tinha que "ser pobre" para ajudar o Japão a vencer a Guerra do Pacífico.

Você chega a um momento sentir quase como se elas fossem da sua própria família, principalmente conforme o livro vai avançando. A gente torce por uma, se entristece com a outra, fica com raiva das ações delas, e por aí vai. Um drama familiar de época, mostrando a vida, os costumes e os valores desse Japão tão distante, mas que hoje em dia ainda tem influência em como a sociedade nipônica é construída.


Teve até filme (imagem acima), de 1982. Engraçado que depois de ler o livro dá pra sacar certinho quem é quem. A escolha das atrizes acho que foi bem feliz, nem vi o filme mas já acho que deve ser excelente!

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