terça-feira, 14 de agosto de 2018

Amber #120 - A tartaruga negra & o velho.

6 de dezembro de 1939
18h51

Pequim já havia caído na mão dos japoneses já havia mais de dois anos. O Império Japonês já havia se instalado na antiga capital do império milenar e uma verdadeira ditadura havia sido instaurada lá, restringindo liberdades e abusando da truculência contra os que fossem contra a ocupação nipônica. Porém, mesmo estando em guerra, pessoas tinham que viver suas vidas, e as coisas tentavam correr em seus eixos, na medida do possível. O Japão estava realizando uma dura investida mais ao sul do país no inverno daquele ano, mas Pequim já estava em suas mãos. E por mais que estivesse sob o governo japonês, a cidade enfim estava começando a respirar ares da industrialização, e deixando de ser apenas uma cidade histórica. E isso em partes agradava o povo que vivia ali.

“Olha isso, os japoneses estão investindo aqui”, disse Huang, ao ver algumas fábricas no caminho.

“Mão de obra barata, baixos salários, tudo para satisfazer a megalomania daquele imbecil do Hirohito”, disse Ho, revoltada, “Eu não duvido nada que as condições que eles colocam os chineses para trabalharem aqui devem ser as piores existentes”.

Tsai, que ia na frente, ao bisbilhotar pela esquina, fez um gesto com o braço para que parassem.

“Esperem um pouco”, sussurrou Tsai, “Dois soldados japoneses passando”.

“Patrulha noturna? Poxa, poderiam dar uma folga para eles para que ficassem debaixo das cobertas nesse frio”, sussurrou Schultz para Huang e Ho,  “Meu pinto tá encolhido nesse gelo todo, tá ruim demais pra mijar”.

Já era noite, mas ainda havia algum movimento nas ruas. Pessoas fazendo as últimas compras do dia, naquele dia frio de dezembro. Porém a cidade devia ser guardada, então era possível ver a presença de guardas nas ruas. Saldaña e White estavam quietos, especialmente depois de tudo o que havia acontecido anteriormente antes de entrarem em Pequim. Pareciam mais conformados, era difícil dizer o que realmente se passava na cabeça deles. Talvez estivessem apenas cansados também. O que importa era que eles eram levados sem problemas por Ho e Huang, sem oferecer um pingo de resistência.

“Vamos, sem fazer barulho, por favor”, disse Tsai, tomando a frente. A Gongzhu era a guia. Sempre responsável tomava a frente, verificando todos os cantos, se haviam pessoas, soldados, ou qualquer coisa suspeita. Tudo bem que o clima frio do inverno, e o fato de estar de noite, facilitou muito na hora de caminhar sobre as ruas de Pequim. Schultz e os outros tomavam todo o cuidado para não fazer barulho, mas ao mesmo tempo era curioso bisbilhotar por trás das janelas de onde passavam as rotinas das famílias chinesas na época. Apesar das dificuldades, pareciam quentinhos, e mesmo com pouca comida, apreciavam com um sorriso, como se fosse um banquete.

“Nem parece que logo ali tá rolando uma guerra”, sussurrou Schultz, e Ho ouviu, dando um sorriso.

“Não é cem por cento da população que está no fronte, Schultz”, disse Ho, baixinho para Schultz, “Além do mais, existe muita racionalização de bens durante uma guerra. As pessoas que vivem longe das batalhas também estão travando uma guerra pela sobrevivência no meio da miséria imposta pela guerra que acontece nem tão distante daqui”

“É, verdade. E pra onde estamos indo? Ficar zanzando na cidade é perigoso, se um soldado nos achar, estamos fudidos”, disse Schultz, e no momento que Ho tomou ar para responder, foi Saldaña quem os interrompeu:

“Falta muito? Tô afim de dormir”.

Ho ao ouvir a voz do americano a interrompendo ficou desconcertada.

“Ei, mexicano, você não vai fazer nada pra fugir mesmo, não é?”, disse Schultz, e Saldaña resmungou consigo mesmo, “Eu nunca vi uma pessoa assim. Você poderia estar fazendo bagunça, gritando pra deus e o mundo, mas não. Você fica quieto”.

“Eu já disse, chucrute. Esse aí é orgulhoso que dá dó”, disse White, e Saldaña apenas ficou ouvindo com a feição emburrada.

“Não sei se isso é orgulho, ou se é burrice, francamente”, disse Schultz, “Não é mesmo, Ho?”.

Ho olhou para Saldaña e chacoalhou negativamente a cabeça.

“Ah, enfim, vai entender”, disse Ho, “Mas espera aí. Acho que sei onde a Gongzhu está nos levando. Se não me engano é logo ali”.

De fato Ho estava certa. Depois de pouco mais de cinco minutos de caminhada entre os becos de Pequim, Tsai viu uma casa grande, um sobrado, que se destacava com suas paredes verdes e detalhes em madeira. Era realmente uma mansão muito chique. Tsai foi em frente, com passos rápidos, até a porta, onde bateu três vezes.

“Já vai, um minuto!”, disse uma voz masculina.

Schultz viu em cima do batente da porta uma placa. Havia um baixo relevo de uma tartaruga com algo que parecia uma cobra em cima do seu casco, ao lado de dois caracteres chineses, que ele só reconheceu o primeiro.

“Escuta, ali em cima... É ‘misterioso’ e o quê?”, disse Schultz, se referindo aos dois caracteres chineses logo acima da porta.

“Xuanwu. Guerreiro Misterioso. Ou pode-se ler Guerreiro Sombrio também”, completou Huang.

Nesse momento um homem abriu a porta. Ele aparentava ter pelo menos uns sessenta anos, andava de bengala, e tinha um cabelo grisalho puxado para trás em um topete. Estava com a barba feita, e parecia até atlético, mesmo pra quem usava uma bengala.

O velho ao ver Tsai pousou seus olhos nela demoradamente. E então sem dizer nada, fechou a porta na cara dela.

“Espera, senhor Cheng! Não fecha, por favor. Precisamos de um lugar para passar a noite, e pensei que o senhor poderia nos ajudar”, disse Tsai.

O velho olhou para Tsai através da fresta da porta. Schultz se assustou com o olhar de ódio que o velho direcionava para a Gongzhu. Mesmo atrás dela era algo bem visível.

“A última vez que hospedei você e aquele palerma atrás de você me deu motivos o suficiente para que não os desse um teto para vocês pousarem pelo resto da vida, Tsai Louan!”, disse o velho Cheng. Schultz então achou que era com ele, uma vez que ele estava atrás de Tsai.

“Hã? Eu?”, disse Schultz, pasmo, apontando para si mesmo sem entender.

“Não, o outro atrás. Huang”, disse Ho.

“Isso foi há muito tempo, senhor Cheng, por favor, reconsidere”, disse Tsai, explicando, “Nós mudamos, nós crescemos, e não vai ter uma briga como foi antes”

Briga? Como assim? Eles destruíram uma casa numa briga de casal?, pensou Schultz, e Tsai prosseguiu:

“E estamos com duas pessoas perigosas. Precisamos de uma casa forte e bem guardada como a do senhor. E quando falo que precisamos, é porque realmente precisamos. Por favor, só até completarmos essa missão. Prometemos que vamos devolver a casa inteira”, disse Tsai, e o senhor Cheng olhou demoradamente para os olhos dela. Depois de uma pausa cheia de suspense ele balançou a cabeça olhando para baixo.

“Tudo bem, podem ficar. Mas se atrapalharem um segundo do meu sono, vou expulsar vocês no momento seguinte!”, advertiu Cheng, bem brabo. Depois que Tsai confirmou com a cabeça, fazendo uma reverência de gratidão, o velho abriu a porta, os recepcionando.

Schultz não conseguia acreditar. Parecia uma casa ocidental com tudo o que havia direito. Uma casa extremamente aconchegante, com lareira, até um grande lustre no centro. Escadarias, quartos, até um criado. Se a China inteira estava passando necessidade do lado de fora, ali do lado de dentro havia o maior luxo.

“Acho que o único que não conhece o senhor Cheng e você, certo Schultz?”, disse Tsai, tomando a frente. Schultz olhou para os lados, para Ho e Huang e ficou sem reação. A Gongzhu prosseguiu: “Ludwig Schultz, esse é o senhor Cheng. Ele é um dos homens de confiança do generalíssimo, e também líder do pelotão da Tartaruga Negra, um dos quatro pelotões de confiança da República da China”.

“O quê? Nossa! Alguém no nível da Tsai?”, disse Schultz, surpreso.

“Sim, do nível da Tsai e do outro líder de pelotão que você já chegou a conhecer. Adivinha quem é?”, perguntou Ho.

“Espera aí, não vai me dizer que é o Chao?”, disse Schultz, e Ho confirmou com a cabeça, “Inacreditável”.

“Aquele moleque é o líder do Pelotão do Dragão Azul. Eu sou o líder do pelotão da Tartaruga Negra, e a Tsai é a líder do Pássaro Vermelho”, disse Cheng, “Sejam bem vindos à minha casa, mas por favor, não façam bagunça. Eu estou sentindo meu corpo meio mole, acho que devo estar pegando um resfriado por conta desse inverno maldito”.

quarta-feira, 8 de agosto de 2018

Amber #119 - Lamian, Ramyeon, Lamen.

6 de dezembro de 1939
12h58

Eunmi e os outros se juntaram a Aomame e Tengo em um local um bocado inusitado: uma caverna. Ali era um local que proveria um abrigo para o frio, e um bom esconderijo, além de um local para repouso, principalmente depois de tantas emoções vividas nas últimas horas. Tudo estava tingido com o alaranjado de uma fogueira que haviam acendido nos fundos da caverna. Em uma panela não muito grande Tengo estava cozinhando usando mesmo fogo. Um cheiro delicioso dominava o local.

A coreana estava sozinha na entrada da caverna, de braços cruzados, vendo os cristais da geada brilhando como um pó de diamante sobre as plantas. Quando sentiu o cheiro que vinha da parte interna da caverna, sua boca se encheu de água, e seu estômago reagiu, pedindo comida. Estava com muita fome. Conforme a coreana ia adentrando de volta à caverna vira que todos estavam dando risada e conversando junto de Tengo, que estava no comando da panela. Aomame estava sentada encostada num canto quieta, com sua cara séria de costume.

"Que cheiro bom. O que está fazendo?", perguntou Eunmi ao se aproximar.

"Eu adoro cozinhar para muitas pessoas! Usei todo o resto de macarrão que eu tinha, e fiz um prato que vai agradar chineses, japoneses, e é claro... Coreanos!", disse Tengo, e Eunmi se aproximou da panela, que estava tampada, e então o japonês abriu. Um vapor com um delicioso cheiro subiu no rosto de Eunmi, e aquele cheirinho a levou de volta para a casa da sua mãe. Para a simplicidade da infância. Para os tempos idos. Quando ela abriu os olhos depois dessa louca viagem viu o que havia na panela. Era uma sopa feita com macarrão chinês, com carnes, legumes, e molho shoyu.

"Minha nossa! Ramyeon!", disse Eunmi, radiante. A empolgação dela fez todos abrirem um belo sorriso. Exceto Aomame, que continuava quieta no seu canto, fechando os olhos, fingindo dormir para não ser incomodada.

"Pra gente isso aí é lamian", disse Li, falando nome do prato em chinês.

"Lámen, lámen, lámen! Lembrem-se de quem está cozinhando é um japonês. E vamos usar o nome japonês aqui! Hahaha!", brincou Tengo, pegando algumas tijelinhas para servir a lamén, "Senta aí, coreana! Vamos comer! Hora do almoço!".

Haviam apenas umas quatro tigelas similares. O resto eram copos improvisados como tigelas para comer. Era algo simples, mas o coração por trás era imenso.

"Vocês estavam fazendo o que esse tempo todo? Batendo papo?", perguntou Eunmi, esperando enquanto Tengo servia sua refeição.

"Sim! Tengo-san é gente fina!", disse Chou, "Ele estava contando da sua vida. Tengo e Aomame são da cidade grande, são de Tóquio! E o Tengo era professor de matemática".

"Opa, correção: um excelente professor de matemática", disse Tengo, entregando o almoço para Eunmi. Chou nessa hora deu risada, e Aomame virou o rosto, os observando, ainda com uma expressão séria.

"Como um professor de matemática entrou na Kenpeitai?", perguntou Eunmi, curiosa.

"Ué, a gente tem que vir de algum lugar, não é mesmo? Eu fui indicado, disseram que eu tinha uma alta inteligência, enfim, nunca achei que era pra tanto. Mas uma vez lá dentro fui subindo aos pouquinhos. A matemática me ajudou a entrar na Agência de Inteligência, mas lá dentro ela não me ajudou em quase nada, pra falar a verdade. Ainda tem um bocado de coisa pra conquistar, mas estou feliz onde estou", disse Tengo, terminando de servir todos. Ele então encheu a penúltima tigela, e se virou para Aomame, que estava atrás dele, "E estou feliz de estar com quem estou também".

Aomame se ergueu e foi até Tengo, pegar a tigela. Eunmi, ao vê-la se aproximar, reparou nas roupas ocidentais que a japonesa vestia. Pareciam a última moda, ela era uma pessoa extremamente elegante. Era até meio vergonhoso estar na frente dela fedendo e com uma roupa militar suja.

"E você? Qual sua história?", perguntou Eunmi, para Aomame. Ela ficou por um momento encarando Eunmi sentada sem dizer nada, e um silêncio perturbador dominou o recinto.

"Eu era uma assassina de aluguel. Uma pessoa me colocou na Kenpeitai, para que eu por meio dos serviços à nação pudesse ser absolvida dos meus crimes", disse Aomame, se virando e voltando para o seu canto.

"Uma pessoa?", perguntou Eunmi. Aomame não respondeu, ficou calada comendo.

"Longa história...", disse Tengo, vendo que sua parceira estava o encarando logo atrás.

Quando Eunmi provou a primeira colherada sentiu uma satisfação que a preenchia do dedão do pé até o último fio de cabelo. Não era nada elaborado, mas era um prato que tinha o que mais fazia uma comida parecer deliciosa: o carinho da sinceridade. Ao engolir quase pôde sentir o caldo descendo pelo esôfago e pousando no estômago vazio.

"Minha nossa, ficou simples, mas está delicioso. Como conseguiu essa carne?", perguntou Eunmi.

"Bom, essa carne nós pegamos de uns...", disse Tengo, mas Aomame prontamente o interrompeu:

"Nem queira saber, coreana. Apenas coma".

Todos estavam realmente com fome. Não havia muita fartura, mas a pouca comida era aproveitada a cada colherada, como se fosse um banquete. A concentração em comer era tamanha que por um longo tempo ninguém falou nada. Foi Aomame quem quebrou o silêncio:

"E você, coreana? Todos aqui se apresentaram e falaram um pouquinho de cada um enquanto você estava sozinha lá em cima. Acho que agora é sua vez".

Eunmi nesse momento ficou pensativa. O seu reflexo na sopa rebatia a luz que brilhava sobre seu rosto.

"É verdade, né? Acho que só a Gongzhu deve saber algo sobre mim, uma vez que ficávamos direto enquanto ela me treinava", disse Eunmi, erguendo o rosto e dando um sorriso, "Acho que eu nunca cheguei a me abrir para vocês, não é mesmo?".

"Bom, sempre existe uma primeira vez", disse Tengo, retribuindo o sorriso.

"Tá certo, vou começar então. Como sabem, meu nome é Ri Eunmi. Tenho 18 anos, nasci no dia oito de março", começou Eunmi, "De acordo com mamãe eu nasci numa montanha ao norte da península coreana. Meu pai engravidou minha mãe antes do casamento, e eles viviam viajando de lugar em lugar, buscando um local para se estabelecerem. De acordo com minha mãe, um belo dia resolvi nascer. E isso aconteceu justo quando eles passavam pelo Monte Paekdu".

Todos ouviam atentamente a história de Eunmi, mas apenas Tengo ficou chocado ao ouvir.

"Monte Paekdu? Minha nossa, só eu reparei nisso? Mais coreana que isso, impossível", disse Tengo, chamando a atenção para esse detalhe. Eunmi nessa hora sorriu para ele, feliz em ver alguém que conhecia sobre sua terra natal.

"O que tem esse monte? Eu nunca ouvi falar", disse Li, e pela expressão de todos os chineses ali, ninguém nunca havia ouvido realmente falar nesse local.

"Monte Paekdu é a montanha símbolo da Coréia. Tem até um mito de que o primeiro rei do reino da Coréia nasceu lá. E sua mãe era uma ursa", brincou Tengo, "Tá, os mitos japoneses também não têm o que defender, é um mais viajado que o outro. Espero que essa ursa só tenha sido peluda na 'área de diversão' lá embaixo, porque uma mulher toda peluda deve ser algo horrível!".

"Você realmente conhece, Tengo! Foi lá que eu vim ao mundo!", disse Eunmi.

"Claro que eu sei! É um local super importante para vocês, coreanos. Tem uma simbologia como o Monte Fuji é para nós, japoneses. Espero que você não use o fato de ter nascido no Monte Paekdu para ganhar o direito de ser a líder suprema da Coréia ou algo do gênero no futuro. Ninguém em sã consciência acreditaria que alguém veio ao mundo naquele lugar!".

"Hahaha! Pode deixar", disse Eunmi, "Bom, prosseguindo, minha infância foi tranquila, apesar das dificuldades de viver numa Coréia dominada pelo Japão. Papai trabalhava bastante, mamãe cuidava de mim. Sou filha única. Em julho desse ano meus pais decidiram que eu deveria me casar, e minha sorte era que o rapaz que eu estava interessada era também meu amor desde a infância. Nós tínhamos uma quedinha um pelo outro desde que éramos crianças! Tudo na minha vida estava encaminhado".

"Puxa, que legal. Poucas pessoas têm essa sorte, coreana", disse Tengo, "Qual o nome dele?".

"Park Si-mok", disse Eunmi, com tristeza em sua voz. Tengo e Aomame não entendiam o tom de sua voz, mas ao repararem na expressão de todos os chineses ali, parecia ser um capítulo triste da vida de Eunmi. Ela então prosseguiu: "Meu noivo, Si-mok, era uma ótima pessoa. E naquele momento apenas conseguíamos ver a felicidade que se abria à nossa frente, com os olhos arregalados imaginando tudo o que viveríamos", Eunmi fez uma pausa, e sua feição ficou ainda mais triste, "Tudo mudou quando nosso vilarejo, perto de Hyesan, no norte da Coréia, foi atacado. Eu não sei o motivo, mas isso também não interessa. O que importa é que meu noivo foi cruelmente assassinado na minha frente por um capitão do exército imperial japonês".

"O tal capitão Miura", disse Aomame, sem virar o rosto para Eunmi.

"Exato. Depois do ataque eu fui separada da minha família. E por ser jovem, fui mandada para servir soldados japoneses, como uma 'mulher de conforto'. Foi horrível, eu era abusada, estuprada, vivia num local péssimo e sujo, isso sem contar a brutalidade dos soldados japoneses contra mim e as outras garotas", disse Eunmi, com lágrimas nos olhos, mas com uma resolução firme em cada palavra que dizia, "Isso tudo até, vamos dizer, 'um outro belo dia' quando conheci um homem ocidental. Ele parecia ser russo, tinha o cabelo loiro e meio grisalho. Eu era puro ódio, e numa conversa ele disse que sabia uma pessoa que poderia me ajudar".

"Uma pessoa pra te ajudar na sua vingança?", perguntou Tengo, interessado.

"Sim. Ele me deu um dinheiro para que eu fosse para a Alemanha, atrás de um agente da SD alemã, chamado Ludwig Schultz. Eu o encontrei e consegui convencê-lo a vir comigo para a Ásia".

"Uau, Alemanha. Que coisa doida!", disse Tengo, admirado, "E como você conheceu a Hime-sama?", Tengo rapidamente voltou atrás, ao ver que havia se referido à Tsai pelo nome japonês, "Quer dizer, a Gongzhu?".

"Com o Schultz fomos parar em Xangai, e fomos atrás do meu primo, que era um espião que ajudava a Tsai. Fomos levar algumas informações para ela e assim a conhecemos. E junto, ganhamos esses valiosos amigos", disse Eunmi, se referindo aos amigos chineses, "Mas esse meu primo na verdade era um traidor disfarçado, mas já passou. Foi difícil, mas conseguimos lidar com ele".

"Uau. É uma baita estória. Você é nova, mas já viveu umas coisas bem intensas", disse Tengo, se arrependendo por ter menosprezado a coreana.

Aomame então se ergueu, parando na frente de Eunmi, com a fogueira entre as duas.

"É verdade, Tengo. É uma história impressionante mesmo, garota. Você infelizmente experimentou o que havia de pior no ser humano, mas ainda assim você continua seguindo em frente. Sem dúvida ter vivido toda essa história deve ter sido horrível. Fico imaginando, ouvindo tudo o que você contou, como deve ter sido sentir isso tudo na pele", disse Aomame, séria, mas extremamente franca, "Eu não acredito também que entre todas as pessoas do mundo que poderíamos encontrar nesse país imenso, justamente acabaríamos trombando com pessoas tão próximas da Chugoku-no-hime".

"Nossa, ela é tão famosa assim?", perguntou Li.

"Ô se é!", disse Yamada, com um espanto exagerado. Todos encararam ele nesse momento, e ele enrubesceu.

"Tsai Louan é uma lenda em toda a Ásia. É praticamente impossível encontrar uma única mulher soldado no meio desse mundo militar machista", disse Tengo. Era possível sentir um nojo ao falar a palavra "machista", mesmo sendo homem. Era a infeliz verdade, o mundo mostrava uma evolução, mas a Ásia ainda era muito machista. Ele prosseguiu: "E alguém como a Tsai, que nem mesmo famosos soldados masculinos chegam a ter um décimo da habilidade que ela tem, chamar de algo 'raro' é elogio. É sumariamente impossível uma mulher chegar onde ela chegou".

Li e Chou sorriram. No fundo seus corações estavam preenchidos com o imenso orgulho e gratidão de ter alguém como Tsai perto delas. E isso porque todos do pelotão do Pássaro Vermelho já sentiam todo dia esses sentimentos preenchendo suas almas, todo santo dia. Chen quebrou o silêncio:

"Ela é uma líder inspiradora, antes de qualquer coisa. O caminho mais fácil é ser um chefe. Ser um líder poucos optam, que não fica apenas na posição de comando. Mas ainda por cima ser alguém que inspira seus subordinados, é como uma rara flor que desabrocha uma vez a cada século. E temos noção que a Gongzhu é essa rara flor, e somos extremamente gratos a isso".

Chou, Li e Eunmi assentiram com a cabeça. Mas Tengo e Aomame ficaram em silêncio espantados apenas com o fato de Chen ter aberto a boca.

"Uau. E não é que ele fala?", disse Aomame, abismada, "Pelo menos ele guarda as palavras pros momentos certos. E fala de maneira perfeita".

Chen estava distraído, olhando para o outro lado. Talvez nem tenha ouvido direito.

"Bom, vamos arrumar as coisas e ir para Pequim?", disse Eunmi, indo até suas coisas.

"Nem pensar, isso é loucura", disse Aomame, elevando a voz, "Vamos passar a noite aqui".

"O quê? Mas você não quer encontrar o Saldaña? Eu também quero logo saber onde está o Capitão Miura! Esse era o acordo, Aomame!".

Aomame fitava Eunmi com um olhar impaciente. Tengo percebeu que era a hora de se erguer e explicar melhor a situação para a coreana.

"Calma, calma aí vocês duas. Não quero mais ninguém se esmurrando aqui, calma!!", disse Tengo, e Aomame virou pra ele balançando a cabeça, como se ela o perguntasse com um olhar o que ele estava pensando. Aomame se afastou, e Tengo se voltou para a coreana: "Eunmi, é perigoso. Acabamos matando e ferindo mais de uma dezena de soldados japoneses. Eles estão furiosos passando um pente fino em cada metro quadrado da região, é muito perigoso sair agora".

"Mas se tomarmos cuidado, podemos conseguir ir na surdina!", disse Eunmi, mas Aomame e Tengo balançaram negativamente a cabeça:

"Se ficarmos parados eles vão cada vez mais pensar que estamos nos distanciando. É melhor evitá-los pelas costas do que encara-los pela frente. Amanhã de manhã partiremos para Pequim. É aqui pertinho, dá algumas horas de caminhada. Só peço um pouquinho de paciência!", concluiu Tengo, e Eunmi se aquietou. Realmente o que ele dizia fazia sentido.

"Tudo bem. De manhã então, temos um acordo. Sem falta", disse Eunmi, se afastando de suas coisas, e voltando calada para a porta da caverna ficar sozinha junto de sua ansiedade.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

Três festas, um aniversário, três demissões e... Trinta anos!


Enfim trintei.

Faz tempo que não posto coisas pessoais, a verdade é que as coisas não andam exatamente muito propícias na minha vida, e é um exercício de gratidão constante pelo que eu ainda tenho, então mesmo vivendo no meio do furacão nos últimos anos, sei que é um exercício de amadurecimento à base de choque, hahaha.

Mas não quer dizer que não aconteçam coisas boas. Coisas boas assim são motivos para a gente agradecer de joelhos pela tonelada de compaixão que recebemos lá de cima.

Sábado (21) eu tive duas festas. Foi ótimo rever minha amiga Neusa e a filhinha, Rabiatu. A Rabi fez três anos, e ela nasceu no dia 21, um dia antes de mim! E a noite foi bom ter ido na Naiara e comido pizza com os parentes dela e mais um bolo!

Domingo vovó fez uma festa no dia do meu aniversário para comemorar o meu e dos meus dois primos (que também são netos dela, obviamente) que fazem em julho. Foi também algo memorável.

Meu pai ficou mal-humorado a semana inteira. Eu fiquei pensando que era por conta do meu aniversário (que ele nem deu os parabéns, só deu quando eu comentei com minha mãe que eu estava triste por ele nem ter dado a mínima), mas hoje vi que ele foi demitido. Terceira demissão de 2018.

Deve ser complicado. Alguém que trabalhou na mesma firma por mais de trinta anos, ser demitido dessa empresa em janeiro, ter arranjado outro emprego e ter sido demitido, e ter arranjado mais um e acumulado uma terceira demissão.

Tenso.

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